Logo eu, que tenho tanto medo de errar?

Medo

A iconografia do medo é bastante conhecida:

  • separação
  • isolamento
  • bloqueio
  • barreira
  • o desconhecido, enquanto inatingível
  • o invisível, enquanto incompreensível
  • as emoções

Sefirot

Todos são ótimos símbolos de Geburah.

A Torah nos ensina que não precisamos ter medo de nada, exceto de D’us. Não devemos temer a derrota, os outros, a morte. Mas a palavra “Temer” obviamente tem outro significado. Na Torah, o sentido é “dar extrema importância”.

Em Bereshit (Gênesis) 31:42 e 31:53, em vez de chamar D’us de Elohei (a palavra hebraica comum para ‘deus’ com origem em “El”, em sinal de importância), como faz ao relacionar D’us a Abraão (chamando de o “Deus de Abraão”), a palavra expressão utilizada é “Pachad Isaac”, o Temor de Isaac.

Para a Torah, temos medo quando damos importância excessiva. É assim no medo de falar em público, no medo de não passar na prova, no medo de não ser um bom pai ou uma boa mãe, no medo de fazer a escolha errada no trabalho e no medo de falhar em uma nova etapa da vida. Preocupação excessiva em não ser bom o suficiente.

Tarot

Me disseram que as lâminas associadas ao medo são o Oito e o Nove de Espadas, especialmente quando se apresentam próximas a “O Inforcado”.

No Oito de Espadas, vemos uma pessoa vendada cercada por espadas fincadas no chão. A imagem indica que não vemos alguma coisa. Talvez estejamos cegos para o jeito de nos libertarmos, talvez o que nos prende.

No Nove de Espadas, vemos uma pessoa levantando da cama com as mãos cobrindo os rosto. Nesta carta, as espadas estão penduradas na parede. Talvez a pessoa tenha acordado com um pesadelo, talvez o pesadelo ainda a aflija. Ou talvez seja uma segunda-feira normal.

Eu, particularmente, pensei no Cinco de Espadas quando pensei em “medo”. Com uma muralha ao fundo e com um céu de poucas nuvens irregulares e cinzentas, uma figura forte mas jovial carrega três espadas, enquanto duas outras espadas estão ainda caídas no chão. Ao fundo, duas figuras vestidas de armaduras estão de pé, mas em postura levemente curvada. Parecem derrotadas. perderam.

Eu sei que aqui tudo parece “sobrecarregado”. Como se fizessem um esforço que não foi suficiente.

No Tarot Mitológico, o Cinco de Espadas mostra Orestes que já “perdeu”. Na verdade, ele está sendo informado por Apolo da morte do pai e que cabe a ele, Orestes, vingar essa morte. O problema é que para vingá-la, precisa matar a própria mãe. Orestes será perseguido, torturado pelas Eumenides. Não há como vencer. Ainda assim, ele segue seu caminho, atravessa a dor e o sofrimento que as Eumenides causam — ou por causa da dor e do sofrimento que elas causam — vinga a morte de seu pai. A dor da escolha impossível de Orestes inicia um julgamento no tribunal de deuses, que, por fim, decidem alterar as leis de vingança.

O objetivo do sofrimento de Orestes era a mudança das leis. Nenhuma outra pessoa poderia ter cumprido aquele destino. Se não fosse ele, não teria o mesmo peso, o mesmo valor, o mesmo significado.

O que me faz pensar que talvez precisemos de outra palavra. Chamar de “sobrecarregado” não me parece justo com quem vive sobrecarregado de verdade. E predestinado não me parece trazer a ideia de algo que insistimos em evitar…

História 1

Em Vayikrá/Leviticus 9, Aarão, pronto para a sua primeira cerimonia como Sumo Sacerdote, congela por uns instantes em frente ao altar, talvez com o peso do trabalho… Moisés, então, o lembra que “foste feito para este trabalho”. Normalmente, traduzido como “D’us comandou” que faças este trabalho, a palavra tem o sentido de “investir com a responsabilidade de”. Mais do que dizer “faça”, o que implica que o importante é que a coisa seja feita, D’us investiu Aarão com a responsabilidade de fazê-lo. Não poderia ser outra pessoa, mas, ao mesmo tempo, ainda seria sua escolha fazer ou não. Ou ele faria, ou ninguém mais faria por ele.

História 2

A segunda história não está na Torah. É daquelas que se repete em diversas versões. Em uma versão, um rabino precisa escolher um novo shochet, o encarregado de do abate ritual no judaísmo; em outra, o próprio Moisés precisa incumbir um jovem com o cargo de preparar os animais para o abate no tempo em que passam viajando pelo deserto. O jovem retruca:

— Logo eu, que tenho tanto medo de errar?

Em ambas, o jovem está com muito medo de exercer a função. O jovem demonstra um pavor paralisante de errar. De certa forma, é um perfeccionismo exagerado. Ficamos compelidos a responder ao jovem que “não é tão importante”, que não seria problema se ele errasse. É o pensamento comum: calma, vai ficar tudo bem se tu errar; pode errar até aprender… Mas o abate ritual não é uma dessas coisas que podem ser feitas meia-boca. Não dá para deixar passar esse ou aquele erro. É preciso ser executado com perfeição.

Nisso, a resposta da história, através da boca da personagem do velho rabino ou do próprio Moisés, é:

— E querias que eu chamasse alguém que não tem medo de errar?

Querias que eu chamasse alguém que não tem medo de errar?

Queria fugir da autoajuda, mas infelizmente vou ter de escrever aqui que o nosso medo aponta para o nosso objetivo na vida.

Objetivo é uma palavra complicada, mas quem mais teria cuidado e concentração para falar em público do que alguém com medo de falar em público? Do que alguém para quem falar em público não é automático?

Quem quer viajar em um avião pilotado por um maluco que não tem medo de cair?

Quem seria um melhor cirurgião? Alguém que não tem medo de perder o paciente na mesa de cirurgia? Ou quem pensa todo dia em formas de fazer procedimentos mais seguros?

Então? Vocês têm medo de quê?

Shbaa.

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