O que forma uma divindade

O que é uma divindade? Deuses podem morrer? Qual a relação entre divindades e a humanidade?
As respostas obviamente dependem de para quem se pergunta, diante de visões de mundo e paradigmas. Irei expor aqui alguns aspectos que fazem sentido diante da forma que eu me relaciono com o macro e com a magia, com um enfoque bem animista.

Imagem destacada: os “Deuses Antigos” de muitos povos no seriado American Gods

Uma concepção popular atualmente quase equipara “deuses” a “egrégoras”, e começo dizendo que discordo fortemente dela. Uma egrégora se define como o coletivo de pensamentos focados em um único ponto, e muitas vezes também como uma espécie de parcela do inconsciente coletivo influenciando as pessoas para uma direção específica. Magistas podem extrair poder de egrégoras, e algumas pessoas entendem divindades como uma egrégora personificada ou mesmo como uma “evoluída” ao ponto de produzir (ou reproduzir) consciência. Essa perspectiva não faz sentido diante do animismo, que enxerga um mundo vivo onde tudo possui um espírito, onde estamos cercados por uma infinidade de seres imateriais.

Talvez dessa noção que venha o pensamento de que divindades sem um culto morreriam – do qual eu também discordo. As divindades não necessariamente possuem qualquer dependência em relação a humanidade, constituindo existências independentes. No animismo, quando falamos delas estamos falando de uma categoria muito poderosa e elevada de espíritos – e em um mundo onde estamos cercados de uma infinidade de espíritos, quantos deles seguem com suas existência com nós humanos totalmente alheios a eles?

Pela visão animista existem consciências espirituais que residem dentro da Natureza – na chuva, nos raios e trovões, no oceano, no vento, nas montanhas… Como tais coisas poderiam “morrer”? Assim notamos um dos principais traços dos deuses, que é estarem destacados dos ciclos terrenos. Na cultura chinesa isso se reflete em um conceito de “Imortalidade”, que pode ser o ápice da cultivação espiritual de uma pessoa – eternizando seu espírito – ou de uma entidade de natureza imaterial. A finitude não é uma preocupação para um deus.

Hékate, por Nataša Ilinčić

O que uma divindade ganha com a adoração e culto então, afinal? O autor Patrick Dunn, em sua obra Postmodern Magic (uma das melhores introduções a magia, recomendo fortemente – embora só disponível em inglês), nos fala dos deuses como seres semelhantes a humanidade – dotados de total liberdade de movimento, embora alinhados com certas forças e esferas de influência. Ao entrarem em contato com um culto, adquirem forma e estrutura e não simplesmente “existência”.

Debatendo essa ideia, podemos pensar que permeando fenômenos ou conceitos as divindades estão muito no campo da abstração. Através de “forma e estrutura”, estariam adquirindo novas ferramentas que as permitam agir em diferentes campos – incluindo a materialidade. Devemos nos atentar que “forma” não necessariamente significa “imagem”, uma representação antropomórfica ou animal/quimérica. Dentro de muitos povos animistas, onde lidamos com uma literalidade do Mundo Espiritual, uma divindade solar por exemplo pode não precisar de antropomorfização por já ser percebida dentro do sol, sua luz e calor. Isso ocorre frequentemente entre indígenas e na Ásia, sendo muito observado na religião shintou do Japão. A “forma” aqui se refere a gestos e rituais – uma forma de se curvar, de ofertar, o que ofertar, como se referir e dirigir a divindades, como celebrar; geram “caminhos” e pontes entre a entidade e a humanidade, entre o espiritual e o material.

Através desse conceito notamos que a ideia de “inventar uma divindade” é muito estranha dentro do animismo. Seria mais preciso dizer que divindades são descobertas, através de contato intenso com a Outra Margem – fazendo uso de ferramentas como mediunidade e sensibilidades espirituais, rituais, oráculos, e o que mais nosso arsenal magístico permitir. Também podemos apontar casos de ascensão, onde uma pessoa ou espírito amplia sua Consciência até o ponto de se eternizarem fora dos ciclos.

Santuário e oferendas a Oinari-sama, Japão

Outro debate importante é sobre mudanças no escopo ou mesmo significado de uma divindade. Os deuses não estão submetidos aos ciclos, mas nós – aqueles que cultuam – estamos, por isso a forma que as enxergamos sempre muda. Em um culto animista as mudanças são feitas na forma e não na divindade em si, que renegociará seu contrato com os interessados. Uma mudança brusca ou abordagem muito fora daquilo que estava estabelecido pode causar um estranhamento ou rejeição na divindade, fazendo com que ela se afaste; normalmente é um processo interno que leva tempo e muito trabalho entre os envolvidos. A natureza móvel das divindades, algo que espelha a humanidade, também deve ser considerada – uma expansão de escopo pode simplesmente ser parte dos planos dela.

É por causa dessa natureza atemporal das divindades e contratual da ritualística que uma divindade celta ou nórdica responde a um culto druídico ou heathen contemporâneo, ou que Hékate atravessa os tempos partindo de uma divindade das estradas e dos mortos para se tornar uma “Rainha Bruxa” guardiã de conhecimentos arcanos. Outros casos interessantes são o do culto de Oinari-sama no Japão, uma divindade originalmente agrária que também se voltava a forja e artesanato mas que hoje responde a aspectos amplos da prosperidade e criatividade; e das diferenças de culto em religiões africanas entre a África e as Américas, onde podemos encontrar desde mudanças profundas em uma divindade oriundas do sincretismo a ideias onde o afastamento da terra natal pela diáspora teria “envelhecido” uma entidade.

Diante de tudo isso, agora me contem: como vocês se comunicam e que formas definiram junto das divindades que cultuam?

Até breve!

-Ravn

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