Vamos falar de Quimbanda??

Muita besteira tem sido dita e feita em nome dos Orixás, e principalmente em nome dos Exus de Quimbanda, pessoas sem preparo algum, sem fonte histórica e principalmente com intenções nefastas estão sujando o nome Quimbanda. Por isso resolvi escrever sobre a Quimbanda, um assunto que pouco escrevia, para manter em privado minhas práticas mais ativas. Porém não posso ficar quieto vendo essa Arte sendo explorada por indivíduos sem caráter, viciados e abusadores.

Primeiro minha Origem.

No ano de 2008 fui apresentado à Umbanda no terreiro do Pai Tino em Ponta Porã – MS, ele não foi meu primeiro Baba de Umbanda, mas por diversos motivos no ano de 2009, de comum acordo e sem brigas, fui levado a essa casa, entregando minha cabeça a esse experiente e infelizmente falecido Baba. Fiquei cerca de dois anos trabalhando somente na linha de Umbanda, onde recebia as preparações necessárias. Repare que não uso a palavra iniciação, e sim preparação. Dentro da Umbanda, principalmente as mais antigas, não há um ritual de iniciação propriamente dito, há sim uma série de pequenos rituais, fundamentos e obrigações que o médium realiza enquanto desenvolve sua mediunidade e suas habilidades mágicas. A “iniciação” na Umbanda é uma construção, feita aos poucos preparando o médium para os trabalhos que ele vai realizar. Não há como no Candomblé uma “Raspagem de Cabeça”.

Sim eu sei que algumas casas fazem rituais muito semelhantes ao Candomblé e até alguns que nada tem haver com nenhuma religião de origem africana, mas isso vai ficar para um texto mais histórico.

Após aproximadamente dois anos trabalhando com os Guias de Umbanda: Preto Velho, Caboclo, Boiadeiro e até um Cigano que veio por último, fui convidado a começar a ter contato com Quimbanda e as linhas de Exu, a “Esquerda” como alguns chamavam. O interessante é que os mais antigos da casa não usavam o termo: “Esquerda”, só falavam que era o “Trabalho de Exu”. Quando digo que fui convidado quer dizer exatamente isso. Não eram todos os membros da casa que participavam de trabalhos de Exu, alguns só eram atendidos nos trabalhos de Exu, e mais nada. Então houve a oportunidade de ver os trabalhos de perto, e auxiliar as entidades dos médiuns da casa. Não sei quanto tempo fiquei fazendo essa função, mas foi o período que mais aprendi sobre a Quimbanda e o que ela representa, afinal eu não estava incorporado, e ficava bastante tempo junto aos Exus e Pombo Giras, muitas vezes somente eu e Eles(as). Hoje eu percebo algumas curiosidades que vou citar somente para o leitor ter o que pensar: nenhuma entidade falava em “Linhas de Quimbanda”, eles falavam seus nomes completos e não diziam algo como “Sou Sr. Tranca Ruas da Linha da Estrada”, e não se atribuíam títulos como “Rei de Ganga”, “Exu Rei Supremo das Sete Encruzilhadas”.  Não havia um nome para o feitiço que estavam fazendo, ninguém dizia “magia cipriânica”, “magia voodoo”,  estavam fazendo um encantamento, conjuro, defesa, ataque, nada mais que isso. As magias eram simples, fortes, usavam elementos naturais, rezas, conjuros, palavras de poder, invocações e evocações. Quando questionados os Exus e Pombo Giras riam, me chamavam de “garoto curioso” e me ensinavam de modo que eu entendia, falavam sim de evocações e outros fundamentos. E… Fiquem pasmos! NUNCA usaram o termo EXU MAIORAL, e sim Sr. Maioral, assim, simples.

Depois desse tempo antes de assumir o compromisso de Pai Pequeno da casa eu fui intimado a entrar para Quimbanda. Claro que eu já sabia quem era meu Exu, mas ninguém havia me dito. Até que fiz uma obrigação, um pequeno ritual, onde incorporei pela primeira vez o meu amigo, o Exu que trabalha comigo até hoje, meu Professor, Exu Tranca Ruas.  E pude iniciar consultas incorporadas, e trabalhar na Quimbanda. Mas eu ainda não era um Quimbandeiro! Era só um convidado.

E como virei Quimbandeiro?

Depois de algum tempo, isso eu confesso que foi rápido, menos que um ano. O Exu Tranca Ruas, dirigiu-se ao Exu do Tata da casa, e solicitou minha PREPARAÇÃO para ser um Tata. E depois de consultar os Exus e Pombo Giras da casa, eu pude receber essa PREPARAÇÃO. Várias obrigações são feitas, e também juramentos e compromissos. E a iniciação, que é vendida por aí, quando foi? Na verdade não foi. A “iniciação” foi uma prova de fogo. Não passei por nenhum ritual elaborado, nada! Depois de ter assumido um compromisso com a Quimbanda e com Sr. Maioral, passou-se um tempo, e a prova de fogo, o teste que iria dizer se eu era um Quimbandeiro ou não, se eu havia só falado da boca para fora, ou se realmente havia assumido um compromisso com a Arte.

E o que foi?

Uma pessoa apresentou-se na casa com uma série de problemas de saúde, espirituais e financeiros, e eu juntamente com meu Exu de Trabalho, deveria resolver isso. Sem ajuda de ninguém, somente a consultoria e aconselhamento do Tata. Se eu falhasse, eu não sabia isso na época, eu não seria considerado um Quimbandeiro, e outros membros da casa iriam “assumir o caso”. Ainda bem que não falhei. E uma festa foi feita!

Quais as conclusões podem ser deduzidas dessa história?

Que não existe Quimbanda sem Umbanda e vice-versa.

Claro que há um motivo para algumas correntes sérias de Quimbanda terem se desvinculado dos Terreiros de Umbanda, e isso vou explicar em outro texto. Porém, as duas Artes são complementares, alguém que trabalha somente em uma delas acaba ficando desguarnecido em algum lado, não é completo. Os praticantes de Cabalá vão entender o que digo, não tem como trabalhar-se somente com Geburah, tem de haver o equilíbrio trabalhando-se também com Chesed. Enquanto uma corta a outra cria. Em uma realidade permeada por extremos fica difícil entenderem que não há sabedoria fora do equilíbrio. Ir até um extremo e lá ficar, não é um ato de heroísmo, é um ato de fanatismo.

A humildade e soberania dos Exus e Pombo Giras é uma constante em seus atos, uma humildade que advém do poder, não há necessidade alguma de auto glorificação. Eles sabem quem são, sabem o que podem fazer. E principalmente: ELES NÃO POSSUEM EGO! Uso a palavra Ego em seu pior sentido, eles não são egocêntricos ou megalomaníacos, afinal eles abrem mão de seu NOME de sua IDENTIDADE, em prol do trabalho que eles vão realizar.

No próximo texto vamos tratar de uma questão simples, Exu não é o Demônio, e Exu não está no Grimorium Verum.

Aguardem a polêmica.

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