A Wyrd e a Responsabilidade Coletiva

Wyrd, Kharma, Destino… Todos conceitos metafísicos sobre a passagem do tempo e a forma que nossos atos impactam a sucessão de acontecimentos. Como sempre, aqui nos atentaremos à wyrd – este conceito germânico que acabou sendo personificado através das Nornir e permeou histórias do período medieval inglês. É marcante para muitos autores da Bruxaria Tradicional, de Orapello&Maguire até Gary e Frisvold. Mas para entender profundamente esse conceito, precisamos ir além do metafísico e torná-lo uma lente para enxergar o cotidiano; e para isso, observaremos o nosso contexto pandêmico.

Imagem destacada: Centro de São Paulo em reabertura, mesmo com a pandemia

Arte: Yliade

Entre os nórdicos, além da Urðr (palavra cognata de “wyrd” em nórdico antigo) se falava também da ørlög; aquilo que nos restringe. Condições externas e/ou vindas do passado, do qual não temos o poder de mudar e determinam nosso momento presente. O Coronavírus com certeza constitui uma ørlög pesada, e a nossa wyrd será tecida através dele.

Diante disso, olhamos para o símbolo da wyrd e vemos um tear, um tecido, uma trama, uma teia. Se um único fio é puxado, muitos outros acompanham. Todos também já devem ter ouvido a metáfora da pedra atirada em um lago, que espirra água e gera ondulações. Costumamos a refletir isso quando tiramos oráculos, ou para pensar nosso papel e poder diante das escolhas.

Acaba sendo muito fácil perdermos de vista que o conceito da wyrd veio de um povo com uma perspectiva muito mais dividualista que a nossa, muito enraizada em diferentes formas de individualismo (que passam desde a “salvação individual” do cristianismo até desaguar em ideias capitalistas). Um ponto frequentemente deixado de lado quando debatemos a wyrd é o de que nossas ações não pertencem apenas a nós, e nem atingem apenas os agentes diretamente envolvidos; se você puxar um fio de uma trama não tem como saber quantos virão junto, e as gotas erguidas pela pedra atirada no lago também podem gerar ondulações. Quando vemos pessoas que diante da pandemia e a necessidade de isolamento social decidem manter um estilo de vida próximo ou mesmo igual ao de condições anteriores, seguindo o pensamento de “cada um faz o que quer e quem se contaminar foi por descuido individual”, estão batendo totalmente de frente com a wyrd. O descaso e o egoísmo de uma única pessoa pode ser o fator que perpetua uma situação ruim como essa por muito mais tempo. Temos responsabilidade não apenas por nós mesmos, mas pelo coletivo e por isso adotar medidas de isolamento e distanciamento social seria agir de acordo com os ditames da wyrd.

Sigilo do Tear do Destino

A wyrd não se trata de noções moralistas onde “boas ações são recompensadas e más ações são punidas”, ela é uma lembrança da amoralidade da relação de causa&consequência e de como nós somos agentes ativos sem noção alguma da extensão de nossos pequenos atos. Tudo funciona em uma relação em cadeia, tudo está amarrado em um tear que pode ter fios invisíveis mas não possui pontas soltas. É sobre ações corretas que guiadas por uma Sabedoria Profunda, conectada com todo o seu entorno e percebendo o entreamar os fios. Por isso que conceitos como a wyrd costumam a ser pontos-chave de paradigmas animistas, em um Universo permeado por uma energia vital e onde absolutamente tudo se conecta é impossível nos isolarmos do entorno e sua ørlög.

Nós precisamos desconstruir o individualismo egoísta que cega nossa visão do entorno, e começar a adotar a responsabilidade coletiva. “Apenas um” tomar a ação correta não é o suficiente para movimentar a ørlög e nos abrir para uma nova wyrd; cada um precisa se harmonizar com o todo e pensar no próximo, numa construção coletiva que muda o desenho da trama, e que a água respingando depois de atirar a pedra no lago pode molhar você também (ou alguma pessoa querida). Se nos propomos ao Ofício da Bruxaria, ao paradigma animista ou a seguir uma religião pagã, temos ainda mais responsabilidade nesse aspecto pois somos aqueles que se propuseram a ser os Contempladores do Tear.

Se puder, fique em casa; use máscara e faça as higienizações devidas; escute e siga as recomendações de biólogos, médicos e pesquisadores.

Até breve!

-Ravn

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Jól

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