Deuses modernos: Qfwfq e o conhecimento através experiência humana

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Deuses imaginados. Talvez todos os deuses tenham sido imaginados um dia antes de existirem. Com o seriado Deuses Americanos trazendo o livro de Neil Gaiman de volta ao mainstream — ou pelo menos ao nerdstream — nós voltamos também nossa curiosidade aos deuses modernos. Quem são? O que fazem? Como se relacionam? Trago um destes deuses contemporâneos. Fraco em culto, talvez, mas culto em sua natureza. Ele representa um acesso intermediário ao conhecimento científico através da experiência humana comum.

Ítalo Calvino, autor italiano. Revolucionário em seu tempo e, provavelmente, ainda por muitos outros tempos. Quem gosta de literatura gosta também de ressaltar que Calvino participou da oficina de literatura potencial, mais conhecida como OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), descrita pelos membros como:

 a literatura em quantidade ilimitada, potencialmente produzível até o fim dos tempos, em grande quantidade, infinitas para todos os usos.

Calvino jogava com a estruturas múltiplas e combinatórias do texto. Em Castelo dos Destinos Cruzados, aproveitou as imagens das lâminas do Tarot para narrar o encontro de estranhos em um castelo onde ninguém podia falar. Em Cidades Invisíveis, Calvino nos leva em uma viagem por dezenas de cidades impossíveis e algumas até familiares demais — como aquela em que todos os cidadãos são ladrões e não roubar é um crime.

Para um autor de jogos de possibilidades, é curioso que Qwfwq seja conhecido por ser uma constante. Qfwfq aparece nas coletâneas Cosmicômicas, T Zero, além de contos avulsos como:
  • A Distância da Lua, no qual Qfwfq extrapola o fato científico de que a Lua está se afastando da Terra. Nesse conto, a proximidade era tanta que os moradores da Terra e da Lua podiam pular de uma para a outra à vontade. Qfwfq conta uma história de amor enquanto a Lua lentamente separa os amantes.
  • Sem Cores se passa em uma Terra ainda sem atmosfera. Sem atmosfera, tudo tinha a mesma cor cinza. Conforme a atmosfera se forma, as cores também se tornam mais e mais presentes. A novidade — e beleza — das cores assusta Ayl, interesse amoroso de Qfwfq.
  • Uma Forma do Espaço, que conta a queda de Qfwfq pelo espaço ao mesmo tempo em que Ursula H’x também “cai” em trajetória perfeitamente paralela à dele. Como as trajetórias paralelas nunca irão se encontrar, resta a Qfwfq sonhar no espaço se torcendo para que um dia os dois se encontrem.

Há diversas interpretações para Qfwfq. A mais comum é de que ele é um ser que reencarna. Não só através do tempo, mas também em personagens que se cruzam. Ou, pelo menos, Qfwfq seria alguém que acessa nossa memória coletiva. A teoria da literatura o colocaria como narrador onisciente, mas a roupagem não se combina bem com o fato de Qfwfq ser também personagem das histórias.

Outra interpretação — da qual gosto mais — é que Qfwfq é um símbolo de como o nosso conhecimento é moldado pela própria experiência humana. Qfwfq é uma visão de ciência que não se separa da experiência humana. O homem enquanto medida de todas as coisas. O mundo, os seres vivos, as coisas, as próprias leis da física são antropomórficas na visão de Qfwfq. Muito como o pensamento mágico: a Lua se move por amor, o espaço se retorce por amor. O mundo dos sentidos plenos é assustador.

Qfwfq não possui uma boa iconografia, sendo difícil garantir um sigilo a partir das obras já criadas. A imagem à direita é de Satisfatory Comics, uma transição de Qfwfq de sua forma de dinossauro para uma mais humana. Para o artista, a barba é feita de penas de kiwi.

Qfwfq é uma espécie de zeitgeist da experiência de vida, da metáfora mais arquetípica das emoções, a dificuldade em se expressar para outro que não a si mesmo e, ao mesmo tempo, de tudo aquilo que temos em comum enquanto seres humanos.

Abra um livro, acenda uma vela e converse com ele.

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