A Caçada Selvagem, a Noite de Inverno e o Jól

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A Caçada Selvagem é um mito muito presente no folclore europeu, normalmente como uma marcha noturna de fantasmas vingativos e seres demoníacos. Esta visão é uma distorção cristã de tradições pagãs germânicas que falavam de um período que antecedia o jól, envolvendo principalmente o culto aos mortos. Debateremos um pouco sobre ele aqui, dando um enfoque para o trabalho com Óðinn como um psicopompo.

Quando observamos tradições mais antigas referentes a Wotan (nome germânico para “Óðinn”), o vemos retratado não como o rei guerreiro que estamos acostumados pelo registros mais recentes – mas como um deus dos ventos e da magia que também atuava como um psicopompo. Em certas regiões era comum a crença de que a alma de um morto deveria aguardar no local em que foi sepultada até a estação fria, quando seria conduzida pela divindade até o Mundo Inferior. Uma característica forte que o associa com um psicopompo e persistiu em mitos posteriores é seu papel como um andarilho que pode percorrer todos os Mundos (seja caminhando portando sua lança/cajado, ou montado em seu cavalo), e alguns pesquisadores associam que os caçadores que acompanhavam Wotan em sua caçada com os einherjar – os guerreiros valorosos abatidos em batalha e escolhidos pelas valkyrjur nos mitos sobre o Valhöll.

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“Asgårdsreien” (1872), de Peter Nicolai Arbo
A Caçada Selvagem era diretamente associada com o inverno, sendo o período em que os ancestrais eram celebrados. A “noite de inverno” (ou vetrnætr” em nórdico antigo) marcava o início da estação fria; atualmente acredita-se estar posicionado entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, embora o antigo calendário escandinavo reconhecesse apenas “verão/inverno”. Junto de sacrifícios voltados para um bom ano e força para enfrentar o frio, também eram feitos outros durante a temporada voltada aos mortos e entidades associadas à eles, como as dísir (guardiãs femininas ligadas a ancestralidade e Destino) e os elfos. No solstício, quando vem a promessa de que o calor aos poucos voltará, a Caçada termina e os festivais começam a se voltar para a fertilidade que logo virá e a divindades como Þórr – que embora ainda possua um contexto de “proteção”, sua ênfase climática é maior.

Em uma síntese para a prática contemporânea, é comum posicionar a Noite de Inverno por volta de 1º de maio. Muitas vezes a Caçada é tomada não apenas quando Óðinn tomará a face de psicopompo e trabalhará com o resgate de almas, como também quando irá liderar seus caçadores contra entidades que se aproveitam das energias do inverno e são nocivas para Miðgarðr (alguns autores da religiosidade atual as nomeiam como “vargr“, palavra antiga para renegados sociais). É possível observar a atuação dessa energia quando vemos por exemplo pesquisas que detectam um aumento de casos de depressão durante estações frias; a alta atividade de todas as entidades citadas exige cautela e um cuidado redobrado com banimentos em rituais pagãos realizados nessa época.

Portanto, é um período em que podemos não apenas trabalhar com os ancestrais como também com questões de força contra adversidades ou mesmo expiação, se livrar de algo que não queremos mais. Como uma sugestão de prática celebrativa simples, é possível usar as luas cheias entre a Noite de Inverno e o jól para brindar à Óðinn, e depois aos caçadores que o auxiliam. Após esta bênção, acenda uma vela azul-escura à divindade pedindo para que sua luz guie as almas que ainda estiverem por aqui até ele e permita que sejam conduzidas para o Mundo que lhes for melhor adequado; e uma vela vermelha aos guerreiros, pedindo para que sua luz brilhe forte no meio do escuro e exponha os vargar escondidos. Se possível, mantenha ambas as velas no lado de fora expostas ao céu noturno.

Na próxima vez que saírem durante essa época, olhem para o céu com mais cuidado. Ouçam o ressoar de cascos, lâminas contra escudos, arcos sendo disparados. Permitam que estes sons os fortaleçam contra uma época difícil, despertando em nós a sabedoria para lidar com a escassez. Também lembre-se daqueles que ainda observam os vivos mesmo já tendo partido, e deixem que as nossas luzes guiem os caminhos dos perdidos.

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

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