Aquele “outro” Ano Novo

Quando as trombetas soarem um longo toque, todo o povo dará um forte grito; o muro da cidade cairá e o povo atacará, cada um do lugar onde estiver. (Yehoshua/Josué 6:5)

As religiões têm vários “Anos Novos” a se comemorar. O judaísmo nos fala de pelo menos dois: dia 1o. de Nissan e dia 1o. de Tishrei.

O dia 1o. de Nissan é associado com a Primavera e a chegada de Pessach/Páscoa. É o ano novo religioso, descrito na Torah. Segue a tradição astrológica, iniciando no mês do mazal/signo de Tleh/Áries. Já o dia 1o. de Tishrei é associado com o Outono e a aproximação de Yom Kipur/Dia do Perdão, iniciando no mês do maza/signo de Moznayim/Libra. Estranhamente, 1o. de Tishrei também traz a simbologia do cordeiro/Áries através do sopro do Shofar, o instrumento de sopro feito a partir do chifre de carneiros.

Em 2016, comemoramos o dia 1o. de Tishrei a partir do anoitecer do dia 2 de outubro. De acordo com o judaísmo, é o aniversário do dia em que D’us criou Adão, fazendo com que o Tempo começasse a existir para os seres humanos. Esse é o dia chamado “Rosh HaShaná”, Cabeça do Ano. Mas inicialmente, nos tempos da Torah, ele era conhecido como Yom Teruah.

Teruah, grito, brado. Mas também é o nome para o som do Shofar. Em Rosh HaShaná, as sinagogas do mundo todo tocam o shofar simbolizando a chegada do novo ano. Mas o Teruah veio de tradições menos conhecidas.

Uma vez que o povo judeu se espalhou pela Babilônia, os nomes dos meses foram assimilados a partir da cultura local. Na Torah, os meses (assim como os dias) são chamados pela sua ordem no ano (Primeiro Mês, Segundo Mês, Terceiro Mês…). O Livro de Esther, por exemplo, utiliza as duas formas: “Era o Primeiro Mês, o mês de Nissan, no 12o. ano do Rei Achashverosh…”.

Outros deuses babilônios foram “convertidos” pelo o judaísmo, por exemplo:

  • Serosh/Sraosha (Sraosha é um nome judaico masculino) traduzido como “Obediente a D’us”, indica o anjo que teria posto o Mundo em movimento. Sua narrativa é confundida com a do anjo Raphael.
  • Hadraniel foi o guia de Moshé. Segundo o Talmud, Hadar/Hadraniel tinha como ordens impedir o acesso dos humanos aos Céus. Quando Moshé foi buscar a Torah, Hadraniel o amedrontou para que parasse. D’us repreendeu Hadraniel, e este se tornou guia de Moshé.
  • Ashmedai teria substituído o Rei Salomão durante seu reinado por algum tempo, hoje misturado com Asmodeus, Ashmodai e Ashmodiel, invocado em rituais de “amor”.
  • Agrat bat Mahlat seria o nome “Angra Mainyu” do zoroastrismo; Tir também aparece no Talmud e na cabala como Tiriel; e a corte de anjos que segue o “deus velho de barbas brancas” se assemelha à do deus Ormazd, irmão gêmeo de Angra.

Os nomes babilônios estavam ligados da religião regional. Mais fáceis de identificar, o Primeiro Mês judaico recebeu o nome de Nisan, de acordo com o mês “Arah Nisanu” na babilônia; o Quarto Mês passou a se chamar Tammuz, de “Arah Dumuzi”; o Sexto Mês, Elul, de “Arah Ululu”; o Sétimo Mês, Tishrei, de “Arah Tishritum”; o Décimo Segundo, Adar, de “Arah Adar”.

E com os meses, entraram também para o judaísmo, os deuses da babilônia. Arah Tishritum era o “mês do princípio”, aparentemente indicando o princípio do ciclo de Tammuz, o pastor. A mitologia da queda-e-ascenção não era desconhecida do judaísmo, que a trouxera já do Egito. O mês chamado de Tammuz era o mês associado a desgraças, tristeza.

Yechezkel/Ezekiel fala da visão de mulheres chorando por Tammuz, uma dica de que era bem conhecida para os judeus a imagética deste mito:

  • Inanna desceu ao mundo inferior e não poderia voltar. Tammuz foi incapaz de resgatá-la (ou só não quis). Inanna barganhou sua volta à superfície trocando sua presença no mundo inferior pela de um mortal. Inanna, já irritada, ofereceu Tammuz para ficar preso em seu lugar.
  • A mãe e a irmã de Tammuz começaram a chorar pelo destino de Tammuz. Choraram tanto que Inanna se apiedou delas. Permitiu que Tammuz ficasse apenas metade do ano no mundo inferior, enquanto a irmã de Tammuz deveria ficar lá durante a outra metade.

O mês de Tammuz, o quarto mês depois do início da primavera – logo, alto verão – era o tempo em que se chorava pela secura da terra, então infértil. O choro iniciava o processo de descida do Sol. Por “coincidência”, mais tarde, a tradição judaica conta que o Templo em Jerusalém foi destruído no dia 17 de Tammuz, iniciando as três semanas de luto até o dia 9 de Av.

Rabinos gostam de traduzir Tishrei como “Eu perdoarei”, aludindo à chegada do Yom Kipur/Dia do Perdão. Outra tradição diz que é “mais correto” começar o ano no equinício de outono, quando as noites ficam mais longas que o dia. Assim o dia é contado a partir do anoitecer, o ano se inicia no começo do outono. Na tradição mais fatalista, em Yom Teruah, os justos (tzadikim) têm seus nomes escritos no Livro da Vida, e os perversos, no Livro da Morte. A maioria de nós, no entanto, recebemos 10 dias para nos arrepender.

Shaná tová!
Shbaa.

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