Metamorfoses e a Alma Humana

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Primeiramente, analisamos aspectos internos na alma humana sob o ponto de vista nórdico – sendo estes principalmente o Hügr (“pensamento”, a percepção sensorial e analítica), a Münr (“memória”, o depósito da identidade) e o Óðr (“inspiração”, a consicência elevada, analisada em artigo próprio). Agora, analisaremos dois aspectos mais externos, compreendendo também algumas crenças germânicas sobre projeção astral e mudanças de forma.

Imagem destacada: Stephanie Lostimolo

Os aspectos chamados de fylgja (“acompanhante”) e hamingja (algo como “sorte”) talvez sejam aqueles mais influenciados pelo xamanismo europeu. Como dito anteriormente, a hamr era dita capaz de deixar o corpo e viajar grandes distâncias ou mesmo no tempo – numa clara alusão à prática de projeção astral. Porém, é importante frisar que diferente da prática contemporânea, os povos germânicos a usavam com um enfoque muito grande na observação do Plano Físico (Miðgarðr) ao invés de planos espirituais. Muitas crenças diziam que em projeção a hamr tomava formas de animais, por isso há frequentes paralelos entre esta prática e a metamorfose.

Em muitas sagas encontramos cenas de metamorfoses, mas nem sempre associadas com personagens xamânicos ou magistas. Como exemplos, temos as transformações em lobo presentes na passagem da educação do herói Sinfjötli na Völsung Saga e o Rei Harald Blátönn tomando a forma de uma baleia para espionar a Islândia na Heimskringla; hoje, assume-se estes trechos como metáforas para o desdobramento da alma e viagens espirituais. Também temos indícios e referências em poemas tanto de feitiços quanto superstições voltados para “revelar metamorfos” ou repelir observadores que tentem se projetar até o local.

Além disso, alguns apontam que deveriam existir ritos onde os praticantes assumiriam a persona de animais, tomando por exemplo os guerreiros chamados de berserkir (“furiosos”) e ulfhéðnar (“pele de lobo”) associados com ursos e lobos. Óðinn, como uma divindade associada tanto à batalha quanto ao xamanismo, também é muito associado com ambas as práticas; o áss era considerado capaz de tanto modificar sua aparência quanto assumir formas animais, e suas imagens como de “andarilho” e cavalgando Sleipnir sobre Miðgarðr são consideradas simbologias de projeção astral.

Arte: http://culpeo-fox.deviantart.com/

Dentro destas noções, temos a fylgja – uma parte da alma capaz de se externalizar, muitas vezes tomada como um espírito tutelar. Costuma a ter a forma de um animal, embora alguns autores a associem com uma forma humana de sexo oposto ao da pessoa. Representa instintos animalescos que temos em nós, sendo que muitas vezes a percebemos através de reações repulsivas ou agressivas diante de algo sem que possamos explicar um motivo. Em certos mitos, costuma a aparecer também uma fylgja associada a um clã inteiro.

Embora alguns mitos e autores enxerguem a fylgja como um sinal de mau agouro – sendo que vê-la significa uma eminência de perigo – também é possível tomá-la como uma protetora que garante nossa segurança quando em projeção astral. Por isso, é importante saber a forma que a nossa usará para se comunicar e estar atentos a momentos em que poderemos ter que contar com ela. Também existem aqueles que defendem que é possível “enviarmos” a fylgja até outros lugares e enxergar através de seus olhos, colocando isto como uma das possíveis explicações para a metamorfose no Astral.

É importante estabelecer quais são as diferenças entre a fylgja e o conceito de “animal de poder” usado no xamanismo contemporâneo, uma vez que muitos podem acabar traçando paralelos entre ambos. Enquanto a fylgja é algo interno e único à cada um de nós, o animal de poder normalmente é tomado como um espírito externo e independente. A fylgja nos acompanha do nascimento até a morte, porém a relação com um animal de poder é construída e pode ser encerrada sem problemas quando os trabalhos com ele forem concluídos, sendo inclusive possível possuir mais de um.

Através deste conceito chegamos na hamingja. Embora a tradução mais comum ao termo seja “sorte”, os povos germânicos associavam o conceito muito mais com força pessoal e resultado de ações do que com o acaso. Muitas vezes, é visto como o resultante da união entre a hamr e a fylgja e retratada em livros como um campo ou cinturão áurico ao retor do indivíduo, sendo apontado que é frequentemente trabalhada em ritualística.

Temos cenas em lendas e sagas onde, por exemplo, um rei “empresta sua sorte” a um mensageiro para auxiliá-lo no cumprimento de sua tarefa; momentos como este podem ser interpretados como um uso da hamingja. Podemos compreender esta parte como algo que nos permite externalizar e aplicar a nossa energia pessoal, sendo assim através dela que podemos realizar atos como consagrar objetos. É fortalecida através de atos de coragem, do trabalho da força de vontade e do esforço pessoal.

E assim concluímos nossa análise da estrutura nórdica da alma humana. Lembrando que aqui foi colocado o meu ponto de vista sobre o assunto, sendo possível encontrar em outros livros e artigos estruturas mais complexas com subdivisões para cada aspecto. Busquem compreender como cada um se manifesta dentro e através de você, encontrando assim as chaves para acessá-los e trabalhá-los ao seu favor.

Sjáumst bráðlega!

—Ravn

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