O Grande Erro do Yin-Yang No Ocidente

É muito comum hoje em dia. Em todos os lugares, vemos pessoas falando sobre o conceito chinês do yin-yang.

Comparam-no com o binarismo maniqueísta ocidental, falando de bem e mal. Alguns dizem que são energias fundamentais da criação, das quais outras derivam. Outros ainda dizem que são inseparáveis.

É hora de colocar um basta nesses erros conceituais. Yin e Yang não são energias. Não são o bem e o mal. Não são inseparáveis. Não são sequer um elemento essencial da existência como um todo – são tão somente um elemento primordial de nossa existência enquanto seres que existem “entre a terra e o céu”.

Mas vamos explicar isso direito. E para explicar direito, é necessário sabermos o contexto e as ideias que permeiam o conceito de yin-yang.

Contexto Histórico

Mitologicamente, isso é, segundo os textos tradicionais (mais especificamente o HuangDi NeiJing), o conhecimento do yin-yang vem de um tempo muito, muito antigo. De um passado glorioso em que os seres humanos viviam em contato natural com a ordem do universo, sendo capazes de chegar aos cem anos de idade fortes, férteis, sãos e sadios.

Esse conhecimento teria sido perdido e, há aproximadamente quatro mil anos atrás, redescoberto por Qíbó, conselheiro real, médico experiente e uma pessoa capaz de “ler o livro da natureza e o do universo” – conceito que pode descrever um filósofo, mas que, usualmente, é entendido como ser capaz de entrar em contato com espíritos de alto calibre, os quais ensinariam com maestria sobre assuntos de medicina tradicional chinesa.

Dali em diante, os diversos diálogos e ensinamentos de HuangDi, o Imperador Amarelo, teriam sido compilados em livros mais tarde adicionados à biblioteca imperial – apenas para serem, eventualmente, perdidos com o passar do tempo.

Não seria senão mais de mil anos após (entre os anos 600 a.e.c e 300 e.c., durante as dinastias Zhou, Qin e Han) que esse conhecimento seria redescoberto e compilado pelos sábios e médicos chineses.

Já a história científica moderna propõe outra visão sobre o assunto. Análises do estilo textual e comparações arqueológicas abrem uma série de possibilidades para o texto, datando sua provável época de escrita como sendo entre os anos 400 a.e.c e 200 e.c.  Visto o contexto histórico da época, é muito possível ainda que o texto seja uma compilação sistemática, feita por burocratas confucionistas, de textos variados não só desse período como também mais antigos.

Fica claro, contudo, que o texto representa as ideias do período dos estados combatentes (400 a.e.c a 200 a.e.c), quando o pensamento chinês se tornou menos místico e mais naturalista, quase científico.  Isso é, quando o foco do pensamento e filosofia chineses estava em observar a natureza e buscar entender o papel do ser humano com relação ao meio que o cercava.

 

Em qual versão acreditar?

Talvez em nenhuma das duas. A arqueologia chinesa a cada dia desvenda novos mistérios e achados. Dinastias antigamente consideradas míticas e meramente fruto da imaginação ou propaganda, como a dinastia Shang, foram recentemente comprovadas como existentes. Textos, tumbas, materiais de culto e aspectos da cultura chinesa antiga são descobertos a cada dia, em uma riqueza típica dos países inexplorados arqueologicamente, como a China foi até o enfraquecimento da ideologia comunista.

Ao mesmo tempo, os textos antigos são ricos em informações truncadas, revelações místicas fora de contexto, exageros, explicações incompletas, interpretações errôneas e segredos revelados apenas a iniciados em instituições (tais quais cultos, templos, famílias ou clãs) que muitas vezes nem sequer existem mais no plano físico.

Porém, vendo o próprio cenário esotérico que se desenvolve a nossa volta, podemos perceber padrões importantes.

A presença de espíritos-guias. A presença de conhecimentos antigos revelados quando um povo atinge certa “massa-crítica” de pensamento e estado mental-espiritual adequados. A presença de experimentações, aperfeiçoamentos e tentativas de não somente entender as técnicas que foram passadas, como também a teoria por detrás delas.

Todos esses são elementos que indicam um esforço misto, tanto espiritual quanto terreno, para que um conhecimento importante seja passado, entendido, experimentado, dominado e expandido por aqueles que estão presentemente encarnados.

Assim, ao tentarmos precisar qual o contexto histórico em que surgiu o conceito do yin-yang, não podemos afirmar com certeza.

Contudo, ao analisarmos qual o contexto histórico da emergência desse conceito que chegou até os dias de hoje, podemos com certeza falar do período dos estados combatentes e das escolas de pensamento naturalistas.

 

Período dos Estados Combatentes e Escolas de Pensamento

A política muitas vezes molda a filosofia.

Com a china, entre os anos 400 a.e.c e 200 a.e.c, não foi diferente.

Esse foi um tempo de grande instabilidade política, quando diversos pequenos países com tendências totalitárias se digladiaram sem cessar. Um período em que o povo chinês, tanto das altas quanto das baixas classes, se tornou inquieto e desiludido, buscando novas formas de entender o mundo e obter paz.

Talvez da mesma forma como Locke foi influenciado pela guerra, também foram os pensadores chineses da época, que se tornaram igualmente pragmáticos e sistemáticos.

Surgiram, em meio a eles, diversas dessas escolas de pensamento que buscavam observar a natureza, entender seus conceitos e decifrar seus mistérios com o uso de analogias, comparações, compilações de conhecimentos e experimentação.

Mestres farmacêuticos começaram a surgir, muitas vezes experimentando o efeito de plantas e ervas ao ingeri-las eles mesmos, em grandes quantidades.

Filósofos tentaram entender os ciclos naturais. A lógica das estações, a astrologia e os oráculos não ficaram fora de seus pensamentos e conjecturas.

E em meio a esse burburinho, alguns conceitos importantes começam a aparecer.

O Dao. As quatro estações. Os cinco movimentos. O céu e a terra. Os troncos celestes, os ramos terrestres. O homem. O qi. O yin e o yang.

 

 

Yin e Yang

Mas o que são então, afinal, o yin e o yang?

Yin e Yang são um conceito amplo, mas que pode ser resumido em uma palavra: Escalas de Medida e Comparação.

Não são uma energia. Não são forças místicas. São medidas dos fenômenos universais.

O yin remete à medida que constitui o que poderíamos chamar, com nossa ciência moderna, de “não-movimento”. Frio, tamanho reduzido, escuridão, alta densidade, o estado sólido, fixidez, sensibilidade, fragilidade.

O yang remete à medida que constitui o que poderíamos chamar, novamente na ciência moderna, de “movimento”. Calor, tamanho expandido, brilho, baixa densidade, o estado de plasma, mobilidade, rudeza, força.

O dia é yang quando comparado à noite.

Mas a manhã é yin quando comparada ao meio-dia.

A água do lago é yin quando comparada à água fervente.

Mas a água fervente é yin quando comparada ao vapor.

Em outras palavras, as coisas não são yin ou yang. Elas estão yin ou yang em comparação a outras.

Mas isso é apenas parte do conhecimento.

 

 

Relações Entre o Yin e o Yang

Há duas propriedades do yin e do yang. A primeira, é a intergeração. A segunda, a interdestruição.

A primeira nos ensina que o yin vem do yang, e que o yang vem do yin. Quando o yin chega ao seu máximo, ele gera em si a semente do yang. Como quando o inverno abre caminho para a primavera. E quando o yang chega ao seu máximo, ele gera em si a semente do yin. Como quando o verão abre caminho para o outono.

A segunda nos ensina que o yin consome o yang, e que o yang consome o yin. Quando o yin está desenvolvendo-se de semente em direção à sua totalidade, o yang é consumido. Como quando uma árvore consome os raios e calor do sol para fazer crescer seu tronco. Quando o yang é que está desenvolvendo-se em direção à sua totalidade, o yin é que é consumido.  Como quando em uma fogueira o fogo consome a madeira.

Belas propriedades, mas que devem ser entendidas corretamente, pois criam uma ilusão de imortalidade e indestrutibilidade.

“Afinal” – pensa a pessoa desavisada – “Se do máximo do yang nasce o yin, e do máximo do yin nasce o yang, mesmo que eles se consumam mutuamente, o ciclo jamais acabará, correto? ”.

Sim e não.

Pois, como seres que vivem entre o céu e a terra, não estamos nós, seres humanos, nem a natureza e nem nenhuma das coisas que existem entre o céu e a terra, imunes a sermos parte tanto de grandes quanto de pequenos ciclos.

Um pequeno ciclo descreve como a água quente esfria ao ser deixada fora do fogo e ferve ao ser levada novamente ao fogo. O ciclo parece eterno, pois nem a perda da água para o vapor e nem o consumo do combustível do fogo são levados em conta. É um ciclo simples, onde vemos que o máximo do yang ocorre quando a água ferve acima do fogo. E o máximo do yin quando a água resfria totalmente, depois de ter sido tirada do fogo.

Um grande ciclo descreve como o fogo e a água interagem, levando em conta o ambiente ao redor. Descreve como o vapor é perdido e o combustível do fogo acaba aos poucos. O máximo do yang torna-se mais difícil de prever, assim como o máximo do yin. Chegaremos ao máximo do yang quando toda a água houver fervido e o fogo estiver esquentando a panela e o próprio vapor? Ou o combustível acabará antes de isso ter ocorrido, e o máximo do yang será quando a água estiver apenas moderadamente quente? O ponto de mutação torna-se mais difícil de prever, e o ciclo parece finito e limitado, destinado à morte e ao fim – pois em determinado momento, a água toda se torna vapor ou o fogo se acaba. Porém, ao expandirmos ainda mais nossa visão, veremos que o vapor se expande e vai às nuvens, onde se torna chuva e volta ao lago de onde primeiro tiramos a água. Veremos que o fogo apagou, mas que podemos pegar mais madeira e usar suas brasas para começar um novo fogo.

Em um exemplo de pequeno ciclo de yin e yang, podemos citar a vida terrestre.

Nascemos, crescemos, chegamos ao nosso máximo, enfraquecemos, adoecemos, morremos.

Ao nascermos, estamos muito yang. Estamos no máximo do nosso yang. Ao morrermos, estamos muito yin. Estamos no máximo do nosso yin.

Ainda assim, não ressuscitamos após a morte. O corpo não diminui de tamanho e adentra a barriga de uma mulher.

Pois o pequeno ciclo da vida terrestre é meramente a parte yang do Grande Ciclo das reencarnações.

Onde iniciamos no máximo de nosso yang, como bebês. Vivemos nos movendo, mudando, crescendo e depois decaindo. E terminamos na semente do yin, como idosos.

Onde passamos para a outra vida no máximo do yin, como recém-mortos. “Vivemos” do outro lado imersos em outras regras de vida, muito mais sutis e impactantes. Desenvolvemo-nos até o momento em que atingimos o máximo de nosso yang.

E então retornamos à terra, novamente como bebês.

O yin e o yang são cíclicos e infinitos, mas a limitação da visão dos homens traz a ilusão da morte e do fim.

Por isso, quando falamos de yin e yang, devemos lembrar:

1 – Que em última análise são eternos e infinitos os ciclos do yin e do yang.

2 – Mas que os pequenos ciclos possuem fim, e esse fim é um ponto de mutação de um ciclo maior.

Ao fim dos pequenos ciclos, chamamos a “separação do yin e do yang”, e a “quebra da harmonia”. Quando ela ocorre, vêm aqueles fenômenos entendidos como os fins, decaimentos e mortes. Mas a sabedoria maior nos mostra que todos esses são apenas partes de ciclos maiores do Dao, que em si é inefável e indecifrável, impossível sendo se dizer que possua um princípio ou um final.

 

 

Yin-Yang e o Qi

De uma escala de medida para um ciclo.

Como chegamos a isso?

Há um segredo.

Diz o taoísmo que, do Dao (ou Tao), surgem o yin e o yang.

E que da união do yin e do yang surge o qi, o sopro vital, o movimento.

E esse é o segredo para entendermos a relação entre o yin-yang como um ciclo – a ideia do qi.

Explicarei no futuro, melhor, sobre o Qi, pois Qi não é meramente movimento, e nem uma coisa só, pois há diversos tipos de Qi.

Por enquanto, é suficiente entender que ele é também existência.

O Qi é a primeira “coisa”, e a “coisa” que compõe todas as outras “coisas” do universo.

Isso é, se yin-yang são escalas de medida, o qi é o que eles medem – a substância básica do universo, que forma todas as outras coisas, e que nada mais é do que movimento.

Assim, surgindo o yin e o yang, surgem o “aqui” e o “ali”. O “ir” e o “vir”. A dualidade necessária para que haja movimento.

E havendo as condições necessárias, o movimento em si surge a partir do Dao.

Havendo movimento, há “material” e “imaterial”. Há “fluido” e há “estagnado”. Há a criação dos estados de existência.

Havendo os estados de existência, a existência se manifesta, a partir do movimento entre “ser” e “não ser”.

Assim, do yin e do yang surge um movimento, que é limitado, controlado, gerado e consumido pelo yin-yang e pela sua ação.

Daí surgem, então, os muitos Ciclos do Yin e do Yang, de cujo estudo nasce o I-Ching, o Livro das Mutações, que nos conta como obter o conhecimento dos Pontos de Mutação para os Pequenos e Grandes ciclos que vivemos, de forma oracular.

E assim explico, leitor, e espero que suficientemente para desfazer alguns mal-entendidos, o yin e o yang.

 

 

Yin-Yang e o Bem o Mal

Explicados o yin e o yang, gostaria ainda de fazer um último comentário.

Algumas pessoas dizem que yin-yang são como o bem e o mal. Que um depende do outro para existir.

Isso é uma mentira.

Como vimos, yin e yang são escalas de medida do mundo.

Não são a energia positiva e a negativa (isso são estados do Qi). Não são fundamentos do universo (isso é o Dao). Não são forças elementares que regem o mundo, vindas do céu e subidas da terra (isso são as estrelas, os troncos celestes e os ramos terrestres).

Yin-yang são escalas de medida do universo, que permitem que haja movimento e, com isso, existência.

Em sua essência, yin-yang não se relacionam a bem e mal – pois o bem e o mal ligam-se ao sofrimento, à morte e à imoralidade – conceitos relacionados aos pequenos ciclos humanos e à ilusão de que as coisas possuam um início ou um fim.

De fato, na concepção taoista, o mal em si está em agir fora de conformidade com os fluxos do yin e do yang, antecipando o fim dos pequenos ciclos por meio da quebra da harmonia do yin e do yang. Não no yin e nem no yang em si.

Enquanto isso, na concepção budista, o mal está na ignorância de que essa perda de harmonia é meramente uma ilusão e em sofrer por conta dos ciclos que, em última análise, são só parte de um algo maior.

 

 

Mas não sejamos hipócritas

Mesmo tendo dito isso, não quer dizer que budismo e taoismo concordem nesses pontos ou que seja assim que a questão seja entendida entre a população chinesa em geral.

Taoistas historicamente lutaram contra Budistas e Confucionistas, e sangrentas guerras foram travadas.

Enquanto seguir o Dao seja o objetivo último de todo Taoista, ainda assim o uso de técnicas diversas para prolongar a vida, aumentar o vigor sexual ou de outras formas controlar os pequenos ciclos para obter prazer são comuns e consideradas uma prova de que a pessoa está de fato seguindo o Dao – pois está se tornando próspera, longeva e vivendo uma vida prazerosa, onde obtém poder e influência com sua sabedoria das leis do universo. Perante essa perspectiva, a ideia budista de entregar-se ao Vazio, desapegando-se não só das coisas dolorosas, mas também das prazerosas, foi motivo de muito conflito entre essas duas religiões.

Enquanto isso, o budismo prega que a pessoa deve se desapegar de todas as coisas, sejam boas ou más, para obter a iluminação. Ainda assim, prega também que a pessoa deva ser compassiva e bondosa, ajudando aos demais. Mesmo que o caminho para o Nirvana inclua deixar para trás também os amores e os bem-queridos, é digno, belo e desejável que um iluminado abra mão de iluminar-se para ensinar, ser compassivo e bondoso. Isso é visto como adequado, e há até mesmo pessoas que acreditam que os buddhas não atingiram realmente o nirvana – pois para isso teriam de deixar de ser compassivos e se entregar à total vacuidade. Acreditam que estão todos esperando até o momento em que o último ser humano também se ilumine, para poderem então iluminar-se todos juntos. Perante essa perspectiva, a ciência taoista que busca vidas longas, prazerosas, influentes e as vezes até mesmo a imortalidade é claramente algo a se combater.

E entre o povo?

O povo cultua buddha, realiza rituais aos ancestrais e deuses xinto, lê os tratados de Lao Zi e queima incenso para Confúcio. Tudo no mesmo dia, buscando o melhor de cada um dos patronos espirituais.

Nisso, esse autor lhes admira.

Mas o povo também associa o yang com o céu, o masculino, o poder (especialmente militar), a resistência e a dominação. E cultua o yang. E o povo associa o yin com a terra, com o feminino, com a sensibilidade, a fragilidade e o ser dominado. E considera o yin como fraco e indesejado.

Nisso, esse autor lhes desgosta.

Leitor, não sejamos hipócritas.

Há muito a aprender com o Oriente. Mas há também muito chorume a ser reconhecido, criticado e dispensado.

Que saibamos ler corretamente o que foi escrito, e que saibamos aproveitar nossa era de críticos e pensadores para resgatar corretamente ao passado, não somente retificando as palavras, como também os métodos, os rituais, as ações, os conhecimentos e as práticas.

Se as palavras não são retificadas, não corresponderão a seu significado. Se as palavras não correspondem a seu significado, nossa intenção não pode ser alcançada.

 

Até a próxima. Seu amigo,

Desmond Desfables

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