Os passos de um Xamã – Terceiro movimento: “Adquirir o Poder”

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Depois de passar um tempo distante do mundo, estou de volta. Um espírito guardião me colocou em uma batalha comigo mesmo, e então pude compreender mais sobre o Poder Xamã. Nas publicações anteriores desta série, abordei por cima o que vem a ser o início da Jornada Xamânica e a Peregrinação, que é um ato sagrado de contato com o seu mundo pessoal. Quando o iniciado “morre” para o mundo profano, e “revive” sob a missão de tornar-se um Xamã – seja ele em específico como um curador, feiticeiro, viajante, guerreiro espiritual, ou tudo isso ao mesmo tempo, ele acumula dentro de si algo que se denomina “O Poder“, e é sobre isso que conversaremos agora.

O Poder do Xamã 

É a própria energia vital do mundo que o Xamã armazena em seu próprio corpo, ou “guardando” em algum objeto, em uma certa quantidade de poder necessário para algum propósito: assim como um monge guerreiro concentra em si próprio o “Chi” para aperfeiçoar suas técnicas de combate corpo-a-corpo, e uma benzedeira cura uma pessoa com o “Axé” de seu Orixá, um Xamã armazena o “Poder” dentro si próprio: seja para curar, para realizar o vôo da alma, para se conectar com seus antepassados, resgatar almas, abençoar, amaldiçoar, prever o perigo, lutar, contar uma história, dançar, para poder “ver o mundo que se esconde” e outras finalidades.

Uma vez, um benzedeiro me disse: o poder também reside no silêncio. Se você gasta muito a sua voz sem necessidade com pessoas que não valem a pena, está desperdiçando o poder que possui. Armazene com o silêncio, libere com sabedoria. A voz é uma arma poderosa para colocar em ação o poder vital.

Para obter o Poder, o Xamã se prepara em seu ritual, onde ele pega emprestado dos espíritos, a quantia de Poder que ele precisa: nem mais, nem menos – por via da intuição, ele saberá exatamente a quantidade de poder que necessita, e os espíritos estão cientes disso. É como um remédio; Se o usa além do indicado, o remédio torna-se um veneno.

Infinitas são as técnicas e formas de se adquirir o poder: seja tocando o tambor sagrado, dançando descalço na terra, meditando, observando o céu, olhando uma fileira de formigas trabalharem, ficar deitado à sombra de uma árvore, e então pedir que a terra lhe preencha com essa força sagrada, fazer uma fogueira e se conectar com o espírito do fogo, enfim. O Poder sempre fala, para aqueles que estão dispostos a ouví-lo. Mesmo que em certos casos, precisemos mudar aspectos de nós mesmos, para que o poder se manifeste do jeito que deve ser feito, e aproveitar isso em todo o seu potencial.

Em um ritual, o Xamã canta para o espírito das folhas que segura em mãos, fazendo a preparação necessária para que ele possa trazer a cura a um enfermo, quando for fumá-las em seu cachimbo, mascá-las ou bebê-las em chá momentos depois. Em outro momento, ele dança ao som do tambor que varia em batidas leves, fortes, lentas e rápidas, a frequência do som, a cada batida de seus pés descalços na terra, ele armazena o Poder em si, para então curar o necessitado.

Um Xamã deve ter um espírito forte, dominador, para saber utilizar corretamente o Poder, e não deixar que a força o domine sua mente e seu coração, tal como vez ou outra, vemos algum caso de alguma pessoa que trabalha espiritualmente, e em certo momento cai na vaidade do suposto poder que tinha, e então perdera a razão, ou mesmo a própria vida. “O Poder” é algo sagrado, é a divina emanação do Grande Espírito e deve ser respeitado. É a própria força viva do mundo em movimento.

Objetos naturais de poder 

Um objeto de poder pode ser qualquer coisa que armazene poder. Alguns objetos, geralmente os da natureza, já possuem poder próprios, tais como as penas, dentes, cristais ou folhas. Para acessar tal poder deste objeto natural, é preciso ir até o espírito deste objeto e conquistá-lo como aliado. Assim, sabemos que podemos chamá-lo em caso de necessidade, e então este se torna um parceiro valioso para nossa prática. Um Xamã Angamkkug por exemplo, que trabalha com partes de animais, tais como garras, dentes e ossos, crê que cada parte dessas, possui o poder do espírito do animal original.

Objetos artificiais de poder

Outros objetos, como os artificiais, precisam ter o poder incorporado a eles, para que se tornem receptáculos, e que o poder xamã seja armazenado neles. Em outras palavras, é como pegar um pote de cerâmica, um anel, uma moeda, um colar e consagrá-lo para que o mesmo receba o poder em si. O Angamkkug pode então, “dar vida” a uma estatueta de madeira ou de marfim, convidando um espírito aliado a habitar este objeto, que segurando a estatueta durante os rituais, o curandeiro então mantém o espírito por perto, para pedir sua ajuda quando necessário.

Usando o poder de um objeto 

Um objeto e seu espírito acompanhante podem dar assistência em todos os aspectos da prática xamanista, ou apenas em tarefas específicas. Os xamãs h’men Maias, usavam os seus sastun – geralmente, pedras pequenas e translúcidas – para diagnosticar doenças. No Tibet, os Lamas fazem o namkha, que são cruzes de fios entrelaçados, que podem abrigar propriedades benéficas (uma variação desde mesmo objeto, também podem aprisionar demônios). Os Namkhas oferecem proteção para aqueles que os carregam, e também em versões maiores, são colocados acima de portas e janelas, para proteger moradias.

Respeito ao Objeto Sagrado

É importante cuidar adequadamente de um objeto de poder, e as vezes isso requer uma rotina exigente. Os kusiyai da tribo yuman do norte do México tratam objetos de poder como se fossem pessoas próximas. Esses objetos, os wii’ipay, precisam de alimentos, atenção e afeto. Podem até mesmo ser capazes de sentir ciúmes de seus parceiros – muitos kusiyai escondem seus wii’ipay até na hora de fazer sexo, justamente para evitar isso! Os Wii’ipay se comunicam com seus kusiyai através de sonhos, e assim lhes oferecem o Poder de ver o passado, presente, e futuro.
Se a pessoa carrega consigo os objetos de poder como amuletos ou talismãs, ou os mantém seguros em um altar ou santuário, é preciso estar atento as necessidades deles, e viajar ao outro mundo, regularmente para trabalhar com estes espíritos. Como sabemos, o xamanismo reside na confiança com os espíritos, e eles não devem ser negligenciados, assim como o próprio Poder que o Xamã armazena em seu próprio corpo. Com o tempo, eles se fortalecerão ainda mais, nos auxiliando em nossas jornadas e em nosso caminho do guerreiro espiritual Xamã

Antes de finalizar esta publicação, gostaria de citar as palavras de Don Juan Matus:

“O Poder é uma coisa com que o guerreiro lida; A princípio é uma coisa incrível e rebuscada… É difícil até pensar nele. É isso que lhe está acontecendo agora. Depois, o poder torna-se um assunto sério; a pessoa pode não o possuir; ou pode até nem perceber plenamente que ele existe, e no entanto, sabe que há algo ali, algo que antes não era observado. Em seguida, o poder se manifesta como uma coisa incontrolável que acontece à pessoa. Não me é possível dizer como acontece, e nem o que é, realmente. Não é nada e, contudo, faz com que aconteçam e apareçam maravilhas diante seus olhos. E, por fim, o poder é uma coisa na gente, uma coisa que controla os atos da gente e, contudo, obedece ao nosso comando.”


É impossível escrever em um único texto, sobre o que vem a ser o Poder Xamã. Tampouco é possível descrever em palavras, algo que se sente, quando se está em contato com essa força. Porém, nos próximos textos, darão outros olhares sobre o que vem a ser o Poder.

No próximo texto dessa série, “Os Passos de Um Xamã”, falarei sobre os espíritos animais.

Até nosso próximo encontro,

Wäkn, o peregrino.

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2 Comentários

  1. Boa tarde caro Wakn!
    Gostaria de saber quais livros sobre este assunto você indicaria.

    E se caso frequenta a Umbanda, qual vertente você tem mais afinidade.

    Obrigado e Axé!

    1. Aho! Eu recomendaria os livros “A Floresta Violeta”, de Foster Perry, e ” Viagem a Ixtlan”, de Carlos Castaneda. Em especial o segundo, é um de meus favoritos quanto ao assunto.

      E sobre a Umbanda, Sim! Sou Umbandista. No terreiro que trabalho não usamos nomes de vertentes, mas acho que “Umbanda Raiz/Popular”, é o que mais se aproxima do tipo de trabalho que fazemos.

      E perdão pela demora! Afinal, o peregrino nunca diz quando volta, haha

      Haux!

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