O Aparato de um Mago – Parte 1

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Depois de entender como a magia funciona, resta a dúvida: o que é preciso ter em mãos para realizá-la? Tradições medievais falam de objetos de ouro e prata, lâminas virgens e madeira colhida no fim de uma estação à luz do luar; as africanas de cabaças, objetos de metal pesado e fetiches; as herméticas de taças, adagas e círculos repletos de símbolos intrincados. Qual é o correto?

Começamos aqui uma série para discutir os itens empregados no trabalho da magia. Analisaremos alguns dos mais conhecidos e suas simbologias, para no fim dela discurtir as funções adotadas em diferentes linhas de pensamento, as formas físicas que podem ter e como encontrar aqueles que se adequem melhor a nós.

Imagem destacada: os Instrumentos de John Dee, expostos no Museu Britânico

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“A varinha escolhe o bruxo, sr.Potter”
Quase sempre que pensamos em magos, eles estão com objetos nas mãos. Quando olhamos para alquimistas e magistas históricos, sempre possuem inúmeros itens feitos de forma cuidadosa e sob diversas exigências, com ameaça de desastre caso não sejam cumpridas; porém correntes contemporâneas (como a Via Draconiana) dizem que idealmente um Mago não precisa de mais que sua Imaginação para concretizar sua Vontade. Sendo assim, por que precisamos de Instrumentos dentro do trabalho da magia?

Sua principal função é atuar como atalho, ou mesmo âncora para um determinado tipo de energia ou vibração. Ao mesmo tempo em que empunhar um pode nos conduzir mais facilmente a um estado mental adequado, através da devida consagração (e em alguns casos, até sua confecção) eles se tornam “fontes” que estão constantemente acessando as energias designadas. Além disso, também podem servir como pontos de conexão de nós mesmos com as egrégoras com que trabalhamos, fazendo um diálogo do nosso interno com o externo.

Entre os mais conhecidos pelos estudantes estão os Quatro Instrumentos do hermetismo. Relacionados aos Quatro Elementos, estão bem marcados no imaginário ocidental e alguns deles são marcantes (em funções similares ou mesmo iguais) em diversas outras vias. A influência deles pode ser vista inclusive em linhas de pensamento mais recentes, tendo sido adotados como parte do altar wiccan e recebido um capítulo dedicado à eles no Liber Null e Psiconauta, o famoso tratado de magia do caos de Peter Carroll. Começaremos nossas análises por dois deles: a varinha e a taça.

O bastão talvez seja o Instrumento mais imediato quanto se imagina a figura do mago, brandido enquanto manifesta seu poder. Temos desde os movimentos precisos realizados com varinhas pelos personagens de Harry Potter; passando por figuras mitológicas como Hermes com seu Caduceus, Óðinn apoiado em um cajado em sua face de andarilho (iconografia que pesquisadores dizem ter antecedido a da lança Gungnir, que teria surgido quando o deus passou a ser associado com a nobreza guerreira) e Moisés transformando o seu em serpente e abrindo o mar; até mesmo monges budistas com cajados dourados repletos de anéis. Nas mãos de reis, vemos cetros como símbolo de sua autoridade.

Assim, é quase universal a representação do Bastão como o Instrumento da Vontade. Em vias herméticas associado ao elemento Fogo, é um direcionador de força e poder que concede ao magista autoridade sobre o Astral (da mesma forma que um cetro concede ao Físico para um rei). É fácil fazer uma associação com a baqueta de um maestro, comandando os ritmos do Universo da mesma forma que se rege uma orquestra. Em certas simbologias, especialmente no tarot, o bastão pode indicar a conexão com uma consciência elevada.

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Ceridwen, deusa celta, com seu caldeirão mágico; arte de Natasa Ilincic

Já a taça, sua referência mitológica mais famosa seria a do próprio Santo Graal, o cálice que recolheu o sangue de Jesus na mitologia cristã; em mitos arthurianos, passa a ser associado não apenas com a pureza como também com a cura. Porém, podemos encontrar outros tipos de recipientes com atributos associados ao Instrumento em diferentes culturas; os gregos possuíam a Cornucópia (ou “Chifre da Abundância”), um chifre sempre transbordando de frutas e flores. Entre os celtas, diversos deuses eram portadores de caldeirões mágicos – alguns associados com a inspiração onde poções de sabedoria eram feitas, outros com a nutrição e abundância, e ainda outros eram capazes de trazer os mortos de volta à vida.

Dentro da magia prática, a taça é usada como um receptáculo para as energias evocadas. Em rituais que incluam libações líquidas, muitas vezes ela será usada para contê-lo. Associado com o elemento Água, é um forte veículo para que sejam trabalhadas as emoções. Em práticas de desenvolvimento da intuição, clarividência e obtenção de presságios, como a do “espelho d’água”, a taça pode ser empregada como um foco de concentração.

Ambos os Instrumentos em conjunto formam a dualidade masculina (bastão) e feminina (taça). Em muitos rituais, um processo de criação é feito conduzindo a energia evocada com o bastão para dentro da taça – normalmente com algum líquido que agora está imantado e será consumido pelo magista. Enquanto o bastão possui uma ênfase no princípio criador, a taça é voltada para o gerador.

Em nosso próximo encontro, continuaremos o estudo com os próximos dois Instrumentos herméticos: a adaga e o pantáculo.

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