Magia Rúnica – Ontem e Hoje

CodexRunicus[1]

O uso das runas como um alfabeto magístico hoje em dia é muito amplo, não sendo incomum sua apropriação para contextos que diferem muito do paganismo germânico e desconsiderem por completo sua utilização história. Os sistemas que as utilizam atualmente, mesmo dentro de um meio pagão, são construções contemporâneas que divergem do que os resquícios históricos nos mostram. Agora, vamos comparar ambas as formas que a magia nórdica escrita se manifesta no decorrer dos séculos.

Imagem destacada: parte do Codex Runicus, escrito por volta de 1300 para

registrar a lei nórdica, preservado na Dinamarca.

Normalmente, quando falamos do uso magístico das runas, somos apresentados a um significado derivado dos arquétipos (na maioria dos casos) pagãos delegado a cada caractere; usados isoladamente ou combinados, seriam formas de acessar as energias visadas, funcionando da mesma forma que um “alfabeto do desejo”. Embora seja uma maneira completamente válida e funcional de trabalhar a simbologia pagã e vivenciar seus conceitos, esta é na verdade uma forma muito recente de lidar com elas; em sua essência, as runas não são um alfabeto inerentemente mágico (como seria o caso do enochiano, por exemplo).

Podemos compreender porque considerar as runas como “mágicas” é um erro conceitual quando fazemos uma analogia com os números. Existem muitos sistemas que lidam com eles de forma magística, como a gematria por exemplo; muitos textos judaicos utilizam os números para refletir algum significado esotérico, indo desde a quantidade de dias que a marcha para a Terra Prometida durou até respostas de enigmas dadas pelo Rei Salomão. Em religiões orientais, o número “108” é tido como sagrado; nas afro-brasileiras, no hermetismo e na via draconiana temos muitas referências ao número 7; e dentro dos mitos do nosso paganismo nórdico, o número 9 é citado muitas vezes (nove Mundos, nove noites em que Óðinn permaneceu na Árvore…). Porém, em essência os números são apenas caracteres que expressam quantidade – tanto que o significado de cada um só faz sentido dentro de suas respectivas egrégoras, sendo que alguns sistemas podem simplesmente os ignorar por completo.

A mesma coisa ocorre com as runas – são em essência um alfabeto fonético, inclusive com um uso profano muito mais comum historicamente do que o magístico (alfabetos realmente destinados a uso magístico não são usados para outro propósito que não este). Quando pegamos um caractere comum e associamos um significado a ele em um sistema de magia, é como se estivéssemos determinando uma espécie de “senha” que nos permitirá acessar aquela determinada função – porém isto só será possível para aqueles que aprenderam o Mistério associado e possuem as chaves da egrégora. Usando novamente os números como exemplo, alguém dificilmente irá considerar o número 4 como mau agouro fora do Japão; a “chave” para a egrégora que faz esta associação está no idioma japonês, e sem isto “4” pode assumir diversos outros significados ou mesmo nenhum.

Em um contexto histórico, a maioria dos resquícios de amuletos e objetos marcados com runas (e possivelmente consagrados) que temos hoje nos mostra uma forma de magia escrita direta e prática, porém que não conseguimos desvendar totalmente; muitos deles continham frases ou mesmo versos inteiros, e depois sequências de runas repetidas várias vezes. Um dos exemplos mais famosos é o “amuleto de Lindholm”, datado de algo entre os séculos 2 e 4 (Idade do Ferro romana); feito de osso e encontrado na Suécia, sua inscrição diz algo como “Eu sou um erilaz, conhecido como astuto” (“erilaz” normalmente é traduzido como “mestre rúnico” ou “feiticeiro”), e logo em seguida inclui uma sequência rúnica e a palavra “alu”:

Lindholm_amulet[1]
Reprodução artística do amuleto de Lindholm
ᛖᚲᛖᚱᛁᛚᚨᛉᛋᚨ[ᚹ]ᛁᛚᚨᚷᚨᛉᚺᚨᛏᛖᚲᚨ᛬
ᚨᚨᚨᚨᚨᚨᚨᚨᛉᛉᛉᚾᚾ[ᚾ]ᛒᛗᚢᛏᛏᛏ᛬ᚨᛚᚢ᛬
ek|erilaz|sa|[w]ilagaz|hate’ka:
aaaaaaaazzznn[n]bmuttt:alu:

“Alu” é uma palavra recorrente em amuletos encontrados, e não possui uma tradução exata. Alguns pesquisadores dizem que teria posteriormente gerado palavras para “cerveja” como “ale” ou “öl”, enquanto outros creem que seria um termo arcaico para “magia” ou “encantamento”. Outras palavras similares também não são incomuns, além de nomes de ervas, dizeres de boa sorte ou nomes de divindades que muitas vezes eram abreviados; é possível que o alfabeto usado pouco importava para seus amuletos, e talvez pudéssemos reproduzir algumas destas práticas com o nosso alfabeto romano atual. Dentro de uma forma mais semelhante à magia rúnica contemporânea, temos indícios tanto arqueológicos quanto mitológicos de algumas runas da Era Viking que seriam escritas três vezes, uma em cima da outra ou formando uma triskele, sendo as mais famosas týrþurs.

Tendo isto em mente, é necessário analisar de forma crítica os textos que ensinam práticas contemporâneas de magia rúnica. Muitos autores tendem a uma mistificação muito grande ou afirmam estarem passando técnicas antigas, o que conflita com o registro histórico. Como tudo se remanifesta e um sistema de magia de dentro do paganismo só pode ser algo vivo, novas formas de abordar a simbologia e usá-la na prática são muito bem-vindas; inclusive, muitos praticantes europeus da atualidade combinam o folclore local, bruxaria, estética dos sigilos islandeses e magia do caos para formar seus próprios sistemas de magia nórdica e não apenas preservar como também atualizar tradições antigas. Porém, sempre devemos ter de forma clara o que são convenções atuais e o que é realmente uma prática histórica, apoiada em evidências.

Para conhecer melhor os sistemas contemporâneos, leia os artigos destinados à simbologia associada ao elder fuþark e younger fuþark.

Sjáumst bráðlega!

—Ravn

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