Livros básicos – Livro 1

Essa cena tão icônica, não existe na peça!

Houve a sugestão de uma lista de livros que poderiam guiar os magistas, iniciantes ou não, através da senda. Sabemos que não há uma Universidade de Magia e que existem diversas obras sobre o assunto, nem todas são boas e nem todas são ruins, ter o bom senso para escolher o que ler e de jogar-se fora o que leu ou está lendo pode ser muito difícil. Essa dificuldade é natural em todos. Temos muitos livros, ordens, gurus e picaretas espalhados pelo caminho, e vivemos em um tempo em que a capacidade de fazer escolhas criteriosas está deteriorando-se. Muitas opções causam este mal.

Para tentar ajudar, ou pelo menos não atrapalhar, vamos realizar alguns posts com dicas de livros. Ainda não é sabido quantos livros e quanto tempo essa série vai demorar. Vale a pena lembrar que o Esoterismo, Misticismo e Ocultismo Ocidentais são matérias extensas, ainda mais aqui no Platinorum onde trazemos a parte Oriental também! São milhares de anos desenvolvendo-se sistemas e técnicas, e tentamos ensinar tudo em textos ligeiramente curtos. Então, paciência.

PRIMEIRO LIVRO: HAMLET de WILLIAM SHAKESPEARE.

O que uma peça de teatro faz aqui?

Tudo!

Provavelmente é meu livro favorito, com um enredo que realmente mudou grande parte do meu pensamento, obrigo-me a ler todo o ano e sempre tiro uma nova lição. Hamlet, Príncipe da Dinamarca, é provavelmente o primeiro personagem a representar o homem moderno, alguém que se preocupa com sua existência e seu papel dentro da sociedade/realidade que pertence. O jovem príncipe encontra-se diante de um dilema, seu pai, o legítimo Rei, está morto e seu tio herda o trono casando-se com sua mãe. Existe a disconfiança de uma traição e Hamlet tem sua confirmação pelo fantasma do falecido Rei. Ele tem de fazer algo a respeito, ou não. Parece um enredo bem simples né? Bem não é.

Como eu disse, Hamlet é o primeiro homem moderno, ele vê a corrupção de seu tio refletida em toda a Corte da Dinamarca e em si mesmo, ele sofre, tem de mudar o status quo do reino e para isso passa por uma lenta e dolorosa alquimia interna, liderada por seu sofrimento, solidão e pensamentos. O protagonista não só percebe todo que o mal da corte é causado por seu novo Rei, bem como vê-se diante do espelho, ele também está corrompido, e necessita mudar completamente. Se isso não é suficiente, o Príncipe também deve fazer-se de louco, pois sabe que está sozinho, ninguém poderá apoiá-lo em sua causa, nem mesmo Deus. Apesar do sobrenatural possuir presença dentro da obra, Hamlet não está sujeito à ele, seus atos não são justificáveis por uma ótica divina, santa ou sobrenatural, ele faz o que faz por acreditar, de todo seu ser, na legitimidade de seus atos.

Não depender dos Céus ou da Igreja para nada é uma marca dessa peça. O personagem é responsável por suas ações e sofre as consequências de todas, nada passa sem um retorno. Profundas questões filosóficas são levantadas na história, existe um questionamento sobre a vida e a morte, o que é legítimo, moral, a validade da lei e da tradição, dentre vários outros. Tudo levantado durante as ações do Triste Príncipe da Dinamarca.

A leitura dessa peça é importante para o mago pois há uma estreita identificação entre Hamlet e o mago. Todos buscamos a magia por algum motivo, uma insatisfação interna, percebemos que há algo de errado, algo que devemos consertar, primeiramente em nós. A jornada começa com um impulso por algo, pode ser livrar-se de um trauma, ficar rico, ser mais sedutor, qualquer coisa. Persistindo mais no caminho nossa percepção eleva-se, chegamos ao ponto de vermos que nossos objetivos iniciais eram tolos e mesquinhos, então inicia-se a alquimia interna, tiramos ouro do lixo que somos. E quando estamos tendo sucesso vemos que a sociedade e a realidade em si não está certa, a mudança em nós deve atingir o nosso meio. Magia é o ato de causar mudanças de acordo com a Vontade, a frase de Crowley, pode ser vaga, mas diz algo importante: causar mudanças. Assim como Hamlet, o mago percebe-se sozinho, cercado de uma realidade que não o satisfaz e o pior: essa realidade o corrompeu e envenenou. Primeiramente era irá mudar seu interior, para os outros ele será um Louco, mas ele sabe que está no caminho certo, basta persistir, por mais percalsos e problemas, ele vai adiante. Irá livrar-se de todo o lixo existente em si e aproveitar um pouco para tirar ouro de seu antigo eu. Após um longo perídodo buscando respostas, criando respostas ele estará pronto para agir e mudar o seu redor.

Ler o este livro com os olhos de um Praticante é uma nova experiência, há uma correta identificação entre Hamlet e o magista. Na minha opinião há uma clara mudança de O Louco para o Mago no livro, mudança essa vista na abrupta mudança de Hamlet, durante o enredo ele fica mais velho, muito mais! E isso é sem explicação, pelo menos aos olhos profanos.

Um Praticante da Arte Real, assim como Hamlet não depende de nada, somente de si, mas perceber isso exige maturidade. Saber que cada ação tem uma reação e que tudo é sua responsabilidade, é árduo, mas é uma característica do Mago.

Deixo o vídeo do historiador Leandro Karnal, muito mais competente que eu para explicar essa grande obra.

Agora vá e leia o livro!

Posts relacionados

2 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *