A Ironia da Chaos Magic

A internet está lotada de Chaos — por fóruns, blogs e grupos, Chaos Magick se tornou tão comum quanto capim braquiária no cerrado brasileiro — e tão uma praga destruidora de populações nativas quanto!

Por aqui e por ali, segredos e princípios são questionados e quebrados, algumas vezes para bem, outras para mal — seja, por exemplo, de modo a demonstrar que os medos que os “velhos” colocam nos neófitos estão sendo exagerados e ranço da pouca dedicação deles mesmos ao seu Caminho e ao Cristo Interior, seja para destruir com a racionalização a vivência de experiências a que novatos PRECISARIAM vivenciar sem ter conhecimento do que, racionalmente, estaria ocorrendo ali – pois que esse conhecimento racional algumas vezes fecha portas emocionais e psíquicas dados processos psíquicos interiores ao neófito.¹

 

É claro que você PODE explicar uma ilusão de ótica de forma racional. Só vai destruir as possíveis experiências místicas relacionadas – assim como os processos que geram em um neófito.

 

Na maioria das vezes, contudo, o resultado da infestação de Chaos irrestrito nas redes e comunidades é só que ninguém mais compartilha nada – pois não raro os questionamentos são levados à frente ou de forma compulsiva (um mal das gerações nascidas entre os anos 80 a 00), sem motivo construtivo algum (muitas vezes carregadas de conteúdo inconsciente destrutivo, aliás) – ou, pior ainda, de forma fanática (com gente que se acha arauto discordiano, e que no fim consegue ser tão tóxico quanto o evangélico que ora a deus para que você se converta ou tenha câncer e morra).

 

 

Ainda assim, ironicamente, a própria Chaos Magick como um todo também foi contaminada pela internet – servidores coletivos, assim como o processo de criação de formas-deus, viraram joguetes na mão do velho embate entre neo-ateus (agora neo-magos) e grupos religiosos exotéricos ortodoxos. Há grupos de “magos do chaos” (!) que até mesmo buscam ativamente elevar servidores ao status divino (!!), com o objetivo final (!!!) de servir a um deus (!!!!) que eles mesmos criaram (!!!!!). ²

 

 

E isso ainda seria o.k., não fossem as absurdas deturpações que surgem na própria egrégora da Chaos Magick – com “poluição” mental e astral tão visível que mesmo os deuses negros de filmes pop, as succubus alimentadas a sêmen de adolescentes carentes e os old ones ficam com nojinho de se meter ali às vezes.³

 

Nem satã quer perder tempo com isso mais.

 

Bem. Se isso é causa, consequência, ou uma mistura de ambos, não importa realmente. Esse texto, afinal, é um comentário a respeito da ironia presente em Chaos. E essa ironia, bem, ela é fantástica.

Começa, é claro, na própria ideia de Chaos Magick. Chaos não se propõe a ser um sistema de magia. Existem sistemas que são baseados na filosofia caoísta – mas para aqueles que ainda não perceberam, Chaos Magick NÃO É uma forma de magia. É uma filosofia.

 

 

Chaos está para magia assim como cristianismo está para gnose, ou umbanda sagrada para pontos riscados de magia divina – ele é a base filosófica, metafísica, pela qual se determinam fundamentos que, quando organizados de certa maneira por um certo grupo de pessoas, geram assim um sistema de magia. É absurdamente irônico que as pessoas se digam praticantes de magia do caos. Isso é o mesmo que se dizer praticante de cristianismo.

Não existe, a miúde, “prática cristã”. Existem “práticas católicas”, “práticas pentecostais”, “práticas essênias” e assim em diante. E o mesmo com Chaos Magick. Não existe prática de chaos. Não existe magia do chaos . Existe prática da IOT, ou prática do Spare, ou práticas de sigilação do autor X ou Y. Existe até complementação filosófica de Spare, ou da IOT, e assim em diante. Isso, podemos dizer, são “Escolas Chaóticas”. Mas não existe prática de “mágica de chaos” em específico.

As PRINCIPAIS seitas/igrejas cristãs. Note que cada uma tem bíblias, doutrinas, rituais e interpretações totalmente diferentes da vida e universo em geral.

 

Irônico que tanta gente se diga maga do caos e que a filosofia em si se chame “magia do chaos”… quando não é um sistema de magia.

[Brotip: Quando for usar Chaos Magick, lembre-se disso na hora de dar um nome para seu sistema. Não diga “eu sou um mago do caos” ou “eu estou fazendo magia do caos”. Crie, por exemplo, o “Sistema Transcendente-Atônito”, e seja um “Mago Transatônito”. Esse sistema pode ter todas as bases filosóficas de Chaos Magick -como, por exemplo, a percepção de sigilos como forças lançadas de forma independente da crença e da magia como algo baseado principalmente em fé, e não em objetos em si – mas ele terá um SISTEMA, uma forma de agir no mundo – por exemplo, pelo uso de uma certa técnica de sigilação ou outra.]

 

Um mapa mais completo das seitas judaico-cristãs e suas origens. Disponível maior abaixo.

 

Link para o mapa acima em versão maior

 

Aliás, falando dos fundamentos de Chaos, eles são putamente irônicos.

Chaos é um meta-sistema (filosófico metafísico, não magístico) de análise meta-mental. O que isso significa é que ele é uma ferramenta mental criada e voltada para a análise da realidade a partir da inclusão do fato de que quem faz a análise é uma mente – e que, portanto, não se pode tratar a realidade como um sistema fechado e isolado. Magia do Chaos é muito como ciência nesse aspecto e foi muito influenciada por psicologia – você não pode fazer um teste de produto farmacêutico, por exemplo, entregando o produto para as pessoas testarem com os médicos e enfermeiras sabendo qual dos grupos está recebendo o remédio e qual deles está recebendo apenas um placebo.

 

Nos testes duplo-cegos, nem quem dá o medicamento nem quem o recebe sabe quem está recebendo qual produto. Só quem analisa os resultados é que sabe.

 

Isso porque os médicos e enfermeiros terão reações inconscientes que trarão esse conhecimento aos pacientes que, por sua vez, irão afetar os resultados de suas próprias curas (ou falta delas) dado o efeito placebo. Isso é o princípio dos experimentos duplo-cegos: onde nem quem é testado, nem quem aplica o teste, sabe o resultado final.

Chaos tem coisas parecidas. Por exemplo, em uma análise de um sistema mágico e de se ele é a “verdade única do universo”, Chaos propõe que você não pode analisar apenas se a pessoa que realiza os feitos mágicos tem resultados. Isso porque duas pessoas, igualmente crendo que acharam o segredo oculto do universo, realizando operações totalmente diferentes, ou a mesma operação, mas totalmente deturpada do ponto de vista da outra pessoa, ainda assim conseguem obter os mesmos resultados (às vezes).

 

Mage Awakening grupo
Coisa interessante : O jogo de RPG “Mago : O Despertar” caracteriza bem o que vemos na cultura esotérica – diferentes sistemas, que até contradizem um ao outro, ainda assim FUNCIONAM. Porquê ?

 

Chaos explica: não acredite que a explicação do porquê algo funciona é necessariamente verdadeira. Duas pessoas conseguem produzir a mesma coisa, mesmo acreditando que o que fazem é que é o certo, e que o outro que está errado. Contudo, Chaos também nos diz que as coisas de fato dependem de alguma coisa para funcionar.

Às vezes, a filosofia Chaoísta é bem hermética e vai nos dizer que tudo depende da crença do magista – se ele acredita que a magia que está fazendo vai funcionar ou não. Às vezes, ela sai dos trilhos e se pergunta o que a pessoa está chamando de “resultado”, porque ela pode dizer que ela mesma existe e outras questões muito apropriadas a uma sessão de uso de enteógenos de forma ritual – mas que só trazem mesmo confusão inútil pra muita gente. O fato é que Chaos não descarta a existência de algo que de fato seja objetivo. Veja lá, tanto o hermético quanto o pagão tradicional acreditam que os seus métodos funcionam. Talvez o que seja necessário para a magia funcionar seja fé.

 

 

 

É uma ideia Chaoísta. Mas veja lá, será que não existe magia independente de fé? E as pessoas que fazem magia de forma inconsciente e coisas que independem da sensação de crer ou descrer? É um questionamento Chaoísta. Mas, acima de tudo, Chaos nos lembra que pensar, que ter ideias, que questionar, e que até mesmo acreditar ou não, são todos atos mentais e que, se são todos atos mentais, talvez nenhum deles faça sentido.

É irônico como Chaos é absurdamente mental – e invalida a si mesmo enquanto filosofia norteadora de vida, de fato servindo como uma ferramenta de evolução, mas jamais de estabilidade. Irônico como tantos buscam Chaos fugindo de sistemas “repressores”, mas não percebem que se eles se sentiram reprimidos em seus sistemas de origem em primeiro lugar, é porque não estavam olhando para si mesmos – e que, nesse caso, Chaos não irá dar uma resposta a eles – pois tudo que eles usarem para tentarem se apoiar como fatos do mundo, como buscas por alguma verdade, qualquer que seja ela, não será Chaos.

Assim como a ciência, há muitos que buscam nela segurança e escape. Escapam da religião, dos pais, da moral, da sociedade. Escapam de tudo com as desculpas da ciência. Das últimas revistas de publicação científica. Mas no fim das contas nenhum dos progressos realizados em nome da ciência é ciência. Pois o método científico é só um método, para que ele seja útil, algo tem que ser apresentado para ele – e as deduções que se tira depois dele, não são mais ciência – são meramente evidências.

 

Fé excessiva na ciência é um erro epistemológico.
Fé excessiva na ciência é um erro epistemológico.

 

Não existem “fatos científicos”. Não existe “comprovado pela ciência”. Não existe sequer “evidência científica”. Ciência não é adjetivo. É verbo. Se faz ciência. E depois de feita, qualquer pensamento, dedução ou matutação em cima dos resultados já não é ciência: é dedução, matutação, pensamento. Com Chaos é a mesma coisa, mas elevada ainda a uma nova potência.

Chaos é verbo. É desconstrução brutal de pensamentos, sistemas, doutrinas, ideias. É um estado de espírito, mais até do que uma filosofia em si – afinal, sendo uma meta-filosofia, ela deixa de ser quando esse estado de espírito se infla ao ponto de consumir até mesmo a “âncora” mental usada para se acessá-lo (a Magia do Chaos). E todos os outros resultados – sejam a crença de que magia depende de fé, ou que é algo psicológico, ou até mesmo as matutações do que é ou deixa de ser chaos – não são chaos. Simples e irônico.

[Brotip: Chaos é muito útil, mas não se jogue muito nele. Chaos não é espiritual. Não é iluminação. Não é magia. É uma ferramenta mental para evocar forças emocionais, físicas e outras, para então interferir no funcionamento da mente em si. Chaos é um pensamento feito para parar seus pensamentos. Um programa feito para dar pane no seu processador, para sobrecarregar sua memória RAM. Útil para duas coisas – a primeira, para explorar a própria mente, seus limites e assim em diante, recebendo dessa maneira uma sabedoria não-mental e impossível de ser transmitida mentalmente, ainda que perigosa, que nem hipnose (mudança em certos níveis da mente podem trazer loucura, morte ou outros). A segunda, para dar pau na tua mente igual quando se aperta o botão de “reset” no pc, ocorrendo, por exemplo, do Coreldraw (Hermetismo, Gnose, Psicologia, Satanismo… qualquer sistema de pensamento) travar tudo, até mouse e teclado. Usar sigilos não é Chaos. Usar servidores não é Chaos. Isso pode ser IOT, Spare ou o que for, mas desencane de achar que um velhinho barbado passou uma magia primordial em frente – sigilo é sigilo. Servidor é servidor. Chaos é chaos. Os primeiros são magia. O último é um sistema filosófico/espiritual. Os primeiros podem te dar poder. O último pode te dar evolução e expansão de horizontes.]

 

Uma teoria corrente, muito apoiada, é a de que a Originalidade nada mais é que o resultado de se unir várias peças mentais de uma forma ainda não feita por outros – Algo que é propagandeado como o foco da chaos magick – exceto que os “magos do chaos” parecem ter poucas peças demais para as encaixarem de formas originais.

 

Ah, sim, e falando das coisas produzidas e agregadas ao Chaos, o mais irônico de tudo é a originalidade. As comunidades de Chaos estão tão cheias de apelo à originalidade, que alguém que ouça falar por cima acha que vai chegar lá e encontrar mais sistemas de magia que rolhas em uma cachaçaria. Milhares de pessoas discutindo seus sistemas, trabalhando com ideias originais, canalizando coisas que parecem saídas de uma mistura de Sutra hindu com blues e batuque de candomblé. Ao invés disso, o que mais se vê são cópias e frustração. E não digo em sentido pejorativo apenas.

É frustrante entrar em uma comunidade e ver as pessoas tão preocupadas com “paradigmas” que se esqueceram que desconstruir paradigma é um ato tosco e mínimo, que, aliás, muitas das vezes não significa o que eles estão querendo dizer.4 Pior ainda, confundem desconstruir paradigmas com evolução espiritual, ou com usar Chaos como forma de evolução.5 É certamente frustrante ver a desconstrução de paradigmas elevada ao patamar de busca pela verdade, caminho para iluminação, fator para parar o outro de fazer as coisas dele ou até mesmo como forma de contra-argumento, quando paradigmas deveriam, isso sim, ser abraçados e lambidos por qualquer magista do caos – afinal, são a fonte de onde muito da energia para se usar caos vem.6

Mas isso, apesar de também não ser originalidade alguma (todo grupo de magia tem seus fetichezinhos chatos, e o do povo do Chaos parece ser meter o bedelho no paradigma alheio e proteger o seu). O mais irônico é como Chaos é, e sempre foi, pura e simples cópia frankestein de todo o resto por aí. O princípio do mentalismo vem do hermetismo. O uso de sigilos existe desde a época em que os hominídeos faziam desenhos na parede das cavernas para terem sorte na caçada. A ideia de que magia é psicologia vem da paranormalidade. A ideia de “teste: o que funcionar, mantenha; o que não funcionar, descarte” é totalmente produto de cientificismo. Nem mesmo o “sem desinteresse, sem expectativas” é coisa de Chaos. É princípio básico de praticamente todas as doutrinas mágicas, já que o estado de expectativa é um estado ansioso improdutivo e lerdo, visto como estúpido até por uma criança que tenha um mínimo de contato com magia.

Nenhum mago jamais ficou expectando  que algo acontecesse ou se livrou dos “desejos mundanos” e com isso perdeu interesse na vida. E nenhum gado também faz isso com todas as coisas do seu dia-a-dia. Só costuma fazer com as coisas importantes (onde a taxa de falha aumenta exponencialmente – justo por causa desse misto de ansiedade e depressão que a psiquiatria bem conhece como estado bipolar).

E o questionamento da realidade? E a ideia de quebrar os sistemas de magia e montar o seu próprio? Desde o dia que o primeiro aprendiz discordou do primeiro xamã e mudou algo no seu ritual que isso já acontecia. No fim das contas, Chaos Magick não só não é original, como é feita de não-originalidade pura. E, em meio aos chamados por originalidade (por alfabetos mágicos pessoais, por servidores, por novos deuses a quem cultuar, por pensamentos que desafiem a mente e o espírito), é ironiquíssimo que Chaos Magick seja um dos campos menos originais dentro da magia, o que não deixa de ser algo a se esperar.

 

Vovô porquê você bate o tambor desse jeito ? E porquê nossas peles estão branquelas ?

 

O que cansei de ver foram Umbandistas tendo contato com chaos e usando o conhecimento para expandir os fundamentos de seus terreiros (depois de muito teste, prática, e do uso consciente e responsável de chaos). Aspirantes a xamãs ou cultistas de deuses perdidos que, ao terem contato com essa filosofia, acharam ali motivação para buscarem os deuses eles mesmos, entrar em contato com a natureza e com os deuses, efetivamente se tornando tão capazes, conhecedores e sábios quanto qualquer linhagem xamânica ancestral.

Eles só não voltaram para as comunidades de Chaos Magick depois. Ao contrário, estabeleceram o que a própria comunidade desprezaria como sendo um monte de “cagação de regra” – seus próprios sistemas, suas próprias interpretações, suas próprias buscas, explorações, contatos com o divino – indo muito além do servidor pueril para pegar menininha na balada ou da “quebra de crença limitante” que surge de um rabo bem aberto à sensação confusa de alguém que odeia o deus dos seus pais e quer fazer teatrinhos públicos de repúdio a algo que não está fora dele.

Bem. Chaos foi uma ferramenta para essas pessoas. Chaos é uma muleta para a maioria dos “chaoistas”. Um lugarzinho quentinho e seguro onde podem se esconder dos monstrinhos malvados chamados “crença”, “princípios”, “premissas” e, pior de todos, “instituição”.

Durmam bem, crianças. Os monstros vão continuar comendo seus pés enquanto vocês não perceberem que ou vocês criam monstros sob seu controle e sob sua consciência, ou sua mente vai continuar criando esses daí, que vocês acham que vem dos outros. Quem não cria uma ideia na mente do que é ter ideias, uma crença do que é ter crença, uma premissa quanto a ter premissas, uma instituição a respeito de instituições, não se incomoda com nada disso na pessoa alheia – pois não sabe o que é.

 

De novo Larry… aquela sensação de que tem algo em cima da cama.

 

Enfim. É irônico que Chaos seja uma ferramenta fantástica nas mãos de seus “não-praticantes”, uma ferramenta de auto-melhoramento e expansão de horizontes e limites e uma muletinha mequetrefe nas mãos de seus fãs e adoradores. Não surpreende. Chaos é que nem uma planta de poder, um tambor, um cajado, um tarô ou uma espada.

[Brotip: Não endeusem seus instrumentos de trabalho mágico. Especialmente aqueles mais perigosos. Acesso aos Arquivos Ocultos do Sistema não vai te transformar no he-man, ou, pior ainda, impedir que teu pai saiba o que você olhou pelo histórico da internet. Algumas coisas simplesmente não são feitas para serem usadas como desculpas para fugir de si mesmo e da realidade. Chaos é uma delas. Pisa macio no mental bro. Pisa macio no mental.].
E no próximo texto, as legendas que explicam as notas (¹,²,³, etc) nesse. Até lá!

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