A Verdadeira História dos Chakras

Esse post é uma tradução do post original por Christopher Wallis (Hareesh), de seu blog Tantrikstudies.

Eu pessoalmente não conheço as técnicas aqui apresentadas, mas já tive experiências que comprovam a validade do uso do mantra “LAM” em outros chakras além do primeiro, incluindo em todos os chakras (para um efeito de ancoramento no plano físico e redução de dores/desconfortos).

Para ler o texto no original, basta seguir esse link.

 

“As Seis Coisas Mais Importantes Que Nunca Te Contaram A Respeito dos Chakras.

 

Nos últimos cem anos ou algo assim, o conceito de chakras, ou centros de energias sutis dentro do corpo, cativou a imaginação ocidental mais do que praticamente qualquer outro ensinamento das tradições yogi. Ainda assim, como a maioria dos outros conceitos derivados de fontes em sânscrito, o ocidente (exceto por alguns poucos especialistas) falhou quase totalmente em entender o que os chakras significam no seu contexto original e como uma pessoa deveria usá-los para prática. Esse post busca retificar essa situação em algum nível. Se você tem pouco tempo, você pode pular os comentários contextuais que estou prestes a fazer e ir direto para a lista do seis fatos fundamentais a respeito dos chakras que os yogis modernos não conhecem. (Veja o epílogo para uma definição precisa do que é um ‘chakra’).

Primeiro, deixe-me clarificar que com ‘ocidente’ eu digo não apenas a cultura euro-americana, mas também aspectos da cultura hindu moderna que foram criados pela matriz cultural euro-americana – Já que hoje em dia é quase impossível achar uma forma de yoga na índia que não tenha sido influenciada pelas ideias euro-americanas a respeito do que é yoga, quando uso o termo ‘ocidental’ eu incluo todos os ensinamentos de yoga na Índia moderna que existam na língua inglesa.

Certo, vou ser curto e grosso: em sua maioria, a yoga ocidental não entende quase nada do que os criadores originais do conceito de chakras achavam importante saber a respeito deles. Se você ler um livro como o famoso ‘Wheels of Life’¹ de Anodea Judith, ou outros livros inspirados por ele, você não está lendo um tratado de filosofia yogi, mas sim de ocultismo ocidental, baseado em três fontes principais: 1 – Tratados de ocultismo ocidental anteriores, que usam os termos em Sânscrito sem realmente entendê-los (como o livro ‘Os Chakras’² do teósofo C.W. Leadbeater, 1927) ; 2 – Uma tradução falha, por John Woodroffe, em 1918, de um texto sobre os chakras – esse escrito em sânscrito em 1577 ; e 3 – Livros do século XX escritos por gurus indus que, eles mesmos, se baseiam nas fontes 1) e 2). Livros a respeito dos chakras baseados em uma compreensão profunda dos textos em sânscrito original só existem na Academia.

¹(N.T. não publicado em português)

²(Publicado em português pela editora Pensamento)

‘Mas isso realmente importa?’, um yogi me pergunta. ‘Eu me beneficiei tanto de livros  como o de Anodea Judith, não tire isso de mim!’. Eu não quero nem posso. Qualquer benefício que você recebeu, de qualquer que seja a fonte, é real se você diz que é. Eu só estou aqui para te dizer duas coisas: Primeiro, que quando autores ocidentais modernos falam sobre os chakras dizendo que estão apresentando ensinamentos de tempos antigos, eles estão mentindo – mas eles não sabem que estão, por que eles não podem verificar a validade do que dizem suas fontes (já que eles não leem sânscrito). Segundo, para aqueles que estão interessados, eu estou aqui para te deixar saber um pouco a respeito do que os conceitos yogi significam em seu contexto original (já que eu sou um especialista em sânscrito, e um mediador que costuma preferir os formatos tradicionais). Só você pode decidir se isso é benéfico a você. Eu não estou dizendo que mais antigo é intrinsecamente melhor. Eu não estou tentando implicar que não haja valor espiritual no ocultismo ocidental. Eu estou apenas aproximando a verdade histórica de palavras simples em português, o melhor que posso. Então, vou começar agora: Os seis fatos fundamentais a respeito dos chakras que os yogis modernos não conhecem. (Novamente, por favor veja o ‘p.s.’ no fim para a definição de o que um chakra é.).

 

 

1. Na tradição original não há apenas um sistema de chakras, há vários.

 

Muitos! A teoria do corpo sutil e de seus centros de energia chamados cakras (ou padmas, adharas, laksyas, etc) vem da tradição do tantra yoga, que floresceu entre 600 a 1300 d.c., e vive até hoje. Na maturidade do trantra yoga (depois do ano 900, mais ou menos), cada uma das muitas escolas da tradição articulou um sistema de chakras diferente, e algumas articularam até mais do que um. Sistemas de cinco, seis, sete, nove, dez, quinze, vinte-um, vinte-oito ou mais chakras são ensinados, dependendo de qual texto você está estudando. O sistema de sete (ou, tecnicamente, 6 + 1) chakras que os yogis ocidentais conhecem é só um de muitos, e se tornou o sistema dominante mais ou menos a partir do século XVI (veja o ponto #4 mais abaixo).

Bem, eu sei o que você está pensando – ‘Mas qual desses sistemas está certo? Quantos chakras realmente existem?’. E isso nos traz ao nosso primeiro dos grandes mal-entendidos. Os chakras não são como órgãos no corpo físico; eles não são coisas materiais que nós possamos estudar como médicos estudam gânglios nervosos. O corpo de energia é extremamente fluido³, como deveríamos esperar de qualquer coisa não-física e suprasensorial. O corpo energético pode apresentar, experimentalmente falando, qualquer número de centros de energia, dependendo da pessoa e da prática yogi que ela está fazendo.

Dito isso, há alguns poucos centros que são encontrados em todos os sistemas – mais especificamente, chakras no abdome inferior, no coração, e no topo da cabeça, já que esses três locais no corpo são locais onde humanos do mundo inteiro experimentam fenômenos tanto emocionais quanto espirituais. Contudo, além desses três, há uma enorme variedade nos sistemas de chakras que encontramos na literatura original. Um não é mais ‘correto’ que outro, exceto relativo a uma prática em específico4. Por exemplo, se você está fazendo uma prática com cinco elementos, você usa um sistema com cinco chakras5 (veja o ponto #6 mais abaixo). Se você está internalizando a energia de seis diferentes deidades, você usa um sistema de seis chakras. Óbvio, né? Mas esse pedacinho crucial de informação ainda não chegou à yoga ocidental.

E nós apenas começamos a descer esse buraco de coelho, Alice. Quer aprender mais?”

Notas do Tradutor:

3 – Os corpos de energia apresentam, de fato, inúmeras formas de divisões, muitas delas didáticas. Barbara Ann Brenman, os sistemas de centros de energias do espiritismo, o sistema do Teoria dos Chakras de Motoyama… entender que essas podem ser divisões diferentes e didáticas de um mesmo agrupamento de corpos sutis é importante, pois essas divisões acabam só sendo válidas para o sistema em que se encontram. Para fazer uma correlação entre sistemas, é necessário praticá-los e dominá-los todos, e daí avaliar um ao olhar do outro. Por exemplo, os chakras de Barbara Ann se relacionam com os centros de energia espíritas de que maneira? E com os chakras segundo a teosofia? Isso é um estudo a ser feito em algum ponto no futuro.

4 – Esse é um ponto importante do texto, que passa batido para a maioria das pessoas. Os sistemas de chakras são ferramentas para práticas yogi. Isso significa que eles possuem alguma lógica sutil, e que seu estudo aprofundado pode nos levar a um conhecimento maior sobre a composição anatômica dos corpos sutis. Contudo, como dito, esse é também um conhecimento a ser pesquisado, testado e compreendido.

5 – O sistema iniciático de Bardon é um exemplo de sistema ocidental, muito famoso e respeitado, que utiliza-se de 5 elementos, 5 tattwas e 5 chakras.

 

 

“2.Os sistemas de chakras são prescritivos, não descritivos.

 

Esse pode ser o ponto mais importante. Fontes em inglês tendem a apresentar o sistema de chakras como um fato existencial, usando uma linguagem descritiva (como ‘o chakra muladhara está na base da espinha. Ele tem quatro pétalas,’ e assim em diante). Mas na maioria das fontes em sânscrito, nós não estamos sendo ensinados a respeito da maneira como as coisas são, nós estamos sendo dados uma prática yogi em específico: é esperado que nós visualizemos um objeto sutil feito de luz colorida, com o formato de uma lótus ou de uma roda em movimento, em um local específico do corpo, e então ativar as sílabas mântricas nele, para um propósito em específico. Quando você entende isso, o ponto #1 acima faz mais sentido. Os textos são prescritivos – eles dizem ao que você deve fazer para alcançar um certo objetivo por meios místicos. Quando o sânscrito literal diz, em seu estilo poético, ‘um lótus de quatro pétalas na base do corpo’, é esperado que entendamos ‘o yogi deve visualizar um lótus de quatro pétalas…’. Veja o ponto #5 para mais informação a esse respeito. 6

N.T. 6 – Isso abre a possibilidade para experimentarmos diversas práticas diferentes segundo diferentes sistemas. Devemos tomar cuidado, contudo, pois, como disse antes, deve existir uma lógica sutil para esses sistemas. É possível que um conflite com outro, e que a prática de um determinado sistema depois de se praticar outro cause danos aos corpos sutis. Essa é uma pesquisa perigosa a se realizar sem mais conhecimento e experimentos anteriores. Por motivos de segurança, recomendo que os leitores evitem esse tipo de ação.

 

 

“3. Os estados psicológicos associados com os chakras são completamente modernos e ocidentais.

 

Em inúmeros sites e em inúmeros livros, lemos que o chakra muladhara está associado com sobrevivência e segurança, que o chakra manipura está associado com força de vontade e auto-estima, e assim em diante. O yogi instruído deveria saber que todas as associações dos chakras com estados psicológicos são inovações ocidentais modernas que se iniciaram com Jung. Talvez tais associações representem realidades para algumas pessoas (ainda que usualmente não sem priming ). Nós certamente não achamos eles nas fontes em sânscrito. Há apenas uma exceção que eu conheço, e esse é o sistema de 10 chakras para músicos yogi a respeito de que escrevi um post. Mas naquele sistema do século XIII, nós não encontramos cada chakra associado com uma emoção ou estado psicológico em específico; na realidade, cada pétala de cada chakra-lótus é associada com uma emoção ou estado psicológico distintos, e não parece haver nenhum padrão pelo qual possamos determinar um chakra inteiro como gerando tal ou qual emoção ou estado.

Mas isso não é tudo. Praticamente todas as muitas associações achadas no livro Wheels of Life de Anodea Judith não têm base alguma nas fontes hindus. Cada chakra, Judith nos diz, está associado com uma certa glândula, mal função corporal, certas comidas, um certo metal, um mineral, uma erva, um planeta, um tipo de yoga, um tipo de tarot, uma sephira do misticismo judaico (!), e um arcanjo do cristianismo (!!). Nenhuma dessas associações é encontrada nas fontes originais. Judith ou seus professores as criaram baseados em similaridades percebidas por eles. Isso também vale para os óleos essenciais e cristais que outros livros e sites dizem corresponder a cada chakra. (Eu deveria adicionar que Judith de fato inclui informação de uma fonte original em sânscrito [isso é, o shat-cakra-nirupana, veja mais abaixo] intitulada “símbolos de lotus” para cada chakra. Eu também deveria notar que Anodea é uma pessoa muito amorosa cujo trabalho beneficiou muitas pessoas. Isso não é pessoal.)

Isso não quer dizer que, quando você estiver com questões de auto-estima, colocar um certo cristal na sua barriga e imaginar ele purificando seu chakra manipura não vai te fazer sentir melhor. Talvez faça, dependendo da pessoa. Enquanto essa prática certamente não é tradicional e não foi testada através de gerações de yogi (o que é o ponto de se seguir a tradição, sério), deus sabe que há mais entre o céu e a terra do que é imaginável pelo meu cérebro racional.

Mas, na minha visão, as pessoas deveriam saber quando o pedigree de uma prática é de algumas décadas, não séculos. Se uma prática possui valor, então você não precisa falsificar sua origem, certo?

 

 

4. O sistema de sete chakras popular hoje em dia deriva não de um texto sagrado, mas de um tratado escrito em 1577.

 

O sistema de chakras que os yogis ocidentais seguem é aquele achado em um texto em sânscrito escrito por um cara chamado Purnananda Yati. Ele completou seu texto (o shat-chakra-nirupana ou ‘Explicação dos seis chakras’, na realidade um capítulo de um tratado maior) no ano de 1577.

Em uma versão anterior desse post, eu disse que o sistema de 7 chakras era ‘tardio e de certa forma atípico’. Mas após alguns dias, percebi que estava enganado – uma versão mais simples do mesmo sistema de 7 chakras é encontrada em um texto pós-escriptural7 chamado de Saradatilaka (‘Ornamento de Sarasvati’), ainda que aquele texto claramente reconheça que hajam múltiplos sistemas de chakras (como sistemas de 12 ou 16 chakras). Contudo, a maioria dos yogis (tanto hindus quanto ocidentais) conhece o sistema de 7 chakras apenas através do sistema de Purnanada, do século XVI, ou, melhor, através de uma tradução relativamente incoerente e confusa dele, feita por John Woodroffe em 1918. Ainda assim, o texto é importante para muitas linhagens na Índia hoje em dia. Teria sido assim sem a tradução de Woodroffe? Eu duvido que fosse, já que há muitas poucas pessoas na Índia de hoje que leem sânscrito fluentemente.

Mais importante, contudo, é o fato de que a tradição considera os textos sagrados como infalíveis e autores humanos falíveis, então é irônico que yogis modernos tratem o sistema de 7 chakras de Purnananda como revelação divina. Pessoalmente, eu não estou certo de que qualquer coisa escrita em palavras pode ser considerada infalível, mas se você deseja reverenciar um ensino yogi como revelação divina, faz mais sentido fazer isso com um texto que efetivamente diz ser tal – como as escrituras tântricas originais (escritas antes de 1300). É claro, Purnananda de fato baseia seu trabalho em fontes anteriores, sagradas – mas isso não significa que ele entendeu-as perfeitamente (veja o ponto #6 abaixo). De forma resumida, então, o sistema de sete chakras que você conhece é baseado em uma tradução mal feita de uma fonte humana, não sagrada. Isso não elimina seu valor, mas problematiza sua hegemonia como “a” fonte correta.

Note que o Buddhismo Tântrico (i.e., do Tibet) comumente preserva formas mais antigas, e de fato o sistema de cinco chakras é dominante naquela tradição (assim como o fundamental sistema de três bindu). Para um sistema de chakras típico, como achado no tantra clássico, veja a página 387 do meu livro, Tantra Illuminated.”

N.T. 7 Pós-escriptural, ou “post scriptural”, no original, é o nome completo do nosso famoso “p.s.”, também chamado “epílogo”

 

 

“5. O propósito do sistema de chakras é servir como uma base para a prática de nyasa.

 

Tanto quanto podemos perceber da intenção dos autores originais, o principal propósito de qualquer sistema de chakras é funcionar como uma base para nyasa, isso é, a instalação de mantras e energias de deidades em pontos específicos do corpo sutil. Então, ainda que milhões de pessoas estejam fascinadas com os chakras hoje em dia, quase nenhuma delas os está usando para o propósito que foram criados para cumprir. E isso está ok. Novamente, eu não estou aqui para dizer que ninguém está errado, só para educar o pessoal que estiver interessado em aprender.

As mais impressionantes características dos sistemas de chakras nas fontes originais são essas duas: 1) que os sons místicos do alfabeto sânscrito estão distribuídos pelas ‘pétalas’ de todos os chakras do sistema, e 2) que cada chakra está associado a uma deidade hindu específica. Isso é porque o sistema de chakras é, como eu disse, uma base para nyasa. Em nyasa, você visualiza uma sílaba mântrica em um local específico de um chakra específico em seu corpo energético, enquanto silenciosamente entoando o seu som. Claramente, essa prática está enraizada em um contexto cultural específico no qual os sons da linguagem sânscrita são vistos como vibrações de poder incomparável que podem formar parte efetiva de uma prática mística que traz liberação espiritual ou benefícios mundanos a partir de meios mágicos. Invocar a imagem e energia de uma deidade em específico em um chakra em específico é também algo culturalmente específico, ainda que se yogis ocidentais venham a entender o que essas deidades significam, a prática possa potencialmente possuir significado para eles também, ainda que talvez nunca um significado tão profundo quanto aquele acessado por alguém que cresceu com essas entidades como parte de seu paradigma de vida, como ícones que adornam sua mente subconsciente.

As assim chamadas deidades causais (karana-devatas) aparecem largamente em todos os sistemas de chakras. Essas deidades formam uma sequência fixa. Do chakra mais inferior ao mais superior, elas são Indra, Brahma, Vishnu, Rudra, Isvara, Sadasiva e Bhairava, com o primeiro e o último destes comumente não aparecendo, dependendo do número de chakras. A última deidade da lista de deidades causais nunca é a última deidade do sistema em questão8, pois essa deidade (qualquer que seja), está entronada no shasrara9, presente no, ou acima, do topo da cabeça (que tecnicamente não é um chakra, já que chakras, por definição, são trespassados pela kundalini em sua ascensão, enquanto sahasrara é sua destinação). Assim, Bhairava (a forma mais esotérica de Shiva) só é incluído na lista de deidades causais quando ele é transcendido pela deusa10.”

 

N.T.

8 – É importante sabermos que os diversos sistemas hindus NÃO compartilham uma mesma hierarquia fixa para o panteão. Há panteões onde Brahmah é o senhor do universo, há panteões onde Shiva é que é. Por isso se fala da “última deidade do sistema em questão” – cada sistema terá uma deidade que é a “maior de todas”, e que não necessariamente será a mesma em todos os sistemas.

9 – Sim, aqui se fala do famoso sétimo chakra, ou chakra da coroa, no topo da cabeça. E sim, o autor está dizendo que, em termos técnicos, ele NÃO é um chakra – pois não seria trespassado pela kundalini em sua ascensão. Por isso, lá atrás, ele disse que o sistema de “7 chakras” na verdade era de “6 + 1” chakras – Seis chakras de fato, e o sahasrara.

10 – Há tradições hindus onde a deusa (Pavarti, esposa de Shiva, em alguma de suas Formas – por exemplo Durga ou Kali) é a Senhora do Universo, e não Shiva, seu esposo, que seria por ela transcendido em sacralidade.

 

“6. Os mantras silábicos que você pensa que são dos chakras, na verdade são dos elementos que, por acaso, são normalmente instalados nesses chakras.

 

Isso é mais simples do que parece. Disseram a você que o mantra silábico (bija, ou mantra de uma sílaba só) do chakra muladhara  é LAM. Não é. Não em nenhuma fonte em sânscrito, nem mesmo na mistureba sincrética de Purnananda. E o mantra do chakra svadhisthana não é VAM. Pera, como? É simples: LAM é o mantra silábico do elemento terra, que na maior parte das práticas de visualização de chakras é instalado no muladhara. VAM é o mantra silábico do elemento água, que é instalado no svadhisthana (ao menos, no sistema de sete chakras que você conhece). E assim em diante. RAM é o mantra para fogo, YAM para vento, e HAM para espaço; ainda que eu deva dizer de forma breve que, na yoga tântrica esotérica, as sílabas mântricas elementais tem diferentes sons vogais que, se acredita, são muito mais poderosos).

Então, o ponto principal é que os mantras fundamentais associados com os cinco primeiros chakras em todo site que você acha no google na verdade não pertencem a esses chakras, mas na verdade aos cinco elementos instalados neles. É importante saber disso caso você algum dia queira instalar um desses elementos em outro lugar. ‘Quê? Dá pra fazer isso?’ Sim. O que você pensa que pode ser o efeito, nos seus relacionamentos, de sempre instalar o elemento vento no seu centro cardíaco? (Lembre-se, YAM é o mantra para ar/vento, não do chakra anahata). Você já notou que os yogis americanos modernos tem relacionamentos muito instáveis? Será que isso pode estar conectado com continuamente invocar vento para seus corações? Naaaah…. (eu posso fazer piadas agora porque apenas uma pequena porcentagem dos meus leitores leu até aqui). Então talvez você queira instalar um pouco de terra no coração de vez em quando, já que aterrar é bom para seu coração. Nesse caso, é meio que útil que saber que LAM é o mantra do elemento terra, não do chakra muladhara. (Note que, tradicionalmente, ainda que os elementos possam ser instalados em diferentes partes do corpo, eles não podem mudar sua sequência. Isso é, eles podem ir para cima ou para baixo dependendo de cada prática, mas terra é sempre o primeiro, depois água, etc).11

Além de que, algumas das figuras geométricas associadas com os chakras hoje em dia também pertencem aos elementos. A terra é tradicionalmente representada por um quadrado amarelo, a água por uma meia-lua prateada, o fogo por um triângulo vermelho voltado para baixo, vendo por um hexagrama ou estrela de seis pontos, e espaço por um círculo. Então, quando você vê essas figuras desenhadas em ilustrações dos chakras, saiba que eles são, na realidade, representações desses elementos, não de uma geometria inerente ao chakra ele mesmo.

E isso me traz ao meu último ponto: mesmo um autor que tenha escrito em sânscrito pode se confundir. Por exemplo, no texto do século XVI de Purnananda, que é a base para o popular sistema moderno de chakras, os cinco elementos são instalados nos cinco primeiros chakras de um sistema de sete chakras. Mas isso não funciona de verdade, porque em todos os sistemas clássicos, o elemento espaço é instalado no topo da cabeça, já que ali é onde o yogi experimenta uma abertura expansiva para o espaço infinito. Espaço é o elemento que se mistura ao infinito, então ele tem que estar na coroa. Eu especulo que Purnananda colocou espaço no chakra da garganta porque ele vivia em um tempo de crescente aderência dogmática à tradição recebida, sem reflexão crítica (uma tendência que tristemente continuou), e a tradição que ele recebeu era uma tradição Kaula12 onde as deidades causais clássicas foram jogadas para escanteio para dar espaço para deidades mais tardias e superiores (especificamente Bhairava e a deusa), e os elementos foram, sem reflexão, mantidos fundidos com as deidades e chakras com os quais eles estavam associados anteriormente. (Dito isso, o fato de que Purnananda estava bebendo de fontes Kaula não é óbvio, porque ao invés de entronar a deusa em sahasrara, conforme esperaríamos em um sistema de 7 chakras Kaula, nós achamos Paramasiva, provavelmente dada a influencia de Vedanta. Veja os comentários no site do autor para mais a respeito disso).

Bem, nós mal-mal arranhamos a superfície desse assunto. Não, eu não estou brincando. É um assunto realmente complexo, como você pode perceber dando uma olhada na literatura acadêmica específica, como o trabalho de Dory Heiligers-Seelen, ou no de Gudrun Buhnemann. É necessária incomum paciência e foco para até mesmo ler esse tipo de artigo, que o diga produzi-lo. Logo, aqui está o que, eu espero, será o resultado desse post: alguma humildade. Um pouco menos de apelos à autoridade no que diz respeito a assuntos realmente esotéricos. Talvez alguns professores de yoga a menos tentando dizer a seus estudantes tudo o que os chakras significam. Raios, eu estou me sentindo diminuído pela complexidade das fontes originais, e isso é tendo doze anos de sânscrito no bolso.

Esse é um território em sua maioria ainda não mapeado. Então, quando o assunto chegar nos chakras, não diga que você sabe o que eles são. Diga aos seus estudantes de yoga que todos os livros atuais sobre chakras são só modelos possíveis do que eles sejam. Nada escrito em inglês é realmente respeitável para praticantes de yoga. Então, por que não tratar mais gentilmente as crenças que você adquiriu sobre yoga, mesmo enquanto você continua aprendendo?13 Vamos admitir que nós não entendemos muito bem essas práticas antigas de yoga ainda; e, ao invés de buscar ser uma autoridade em alguma versão hipersimplificada deles, você pode pode convidar a si mesmo, e a seus estudantes, a olhar mais claramente, mais honestamente, mais cuidadosamente e mais livre de julgamentos às suas próprias experiências interiores.

Afinal, tudo que qualquer mestre de yoga já viveu está dentro de você também.”

 

N.T. :

11 – Isso, juntamente com o fato de que as deidades precisam seguir uma ordem e que , significa que, se colocarmos LAM no chakra cardíaco, e sabendo que HAM tem de estar presente no chakra da coroa, algum dos chakras deve ficar sem um elemento – pois são cinco elementos, e há apenas 4 chakras disponíveis. Isso, claro, considerando que coloquemos LAM no chakra cardíaco inteiro, e não apenas em uma de suas pétalas. Contudo, cada pétala significa uma coisa diferente em um sistema diferente (por exemplo, no sistema de 10 chakras para músicos citado no texto, há uma pétala para “inveja”, e uma para “mantra que purifica demônios”. Obviamente você vai querer evitar de colocar QUALQUER energia na pétala da “inveja”, e vai preferir colocar na de “purificar demônios”). Por esse motivo, não recomendamos aos leitores que testem por conta própria – vale mais a pena obter mais informações antes, posto que práticas errôneas usando esse conhecimento podem trazer grande dor e sofrimento.

12 – Kaula é um secto hindu cujas práticas esotéricas estão ligadas ao culto a Shakti. Shakti, por sua vez, é o “primum mobile”, a força anterior à criação e que a mantém em movimento. Na tradição Kaula essa força é uma deusa, mas em outras tradições ela pode ser associada com a esposa de Shiva (pavarti), ou com a parte feminina de Shiva (que em algumas tradições se separa dele, abandonando sua forma não-dual, formando assim o par Shiva-Pavarti, que é dual).

 

“P.S: Esse post está com uma maior circulação do que estou acostumado, e algumas pessoas que não me conhecem interpretam meu tom sarcástico como arrogância ou sarcasmo de fato. Na realidade, eu sou um cara de coração mole. Por favor, leia minha biografia de modo com que você possa saber minhas qualificações para fazer as afirmações que eu faço. E se você está na Bay Area ou em Colorado, venha a um dos meus eventos de ensino ao vivo!
P.S.2: Alguns me lembraram que eu não ofereci uma definição do que são chakras nesse post. Então, aqui está : “Nas tradições tântricas, chakras (em sânscrito cakra) são pontos focais dentro do corpo humano, usados para meditação e visualizados como estruturas de energia que lembram discos ou flores, nesses pontos onde um número de nadis ou meridianos13 converge. Eles são estruturas conceituais, e, ainda assim, baseadas fenomenologicamente, já que eles tendem a estar localizados onde seres humanos experimental energias emocionais e/ou espirituais, e já que a forma em que eles são visualizados reflete experiências visionárias tidas por meditadores.”

 

N.T.

13 – Não sei de onde o autor compara os nadis com os meridianos, mas de um ponto de vista da MTC, de fato, os chakras se encontram por sobre pontos de grande concentração de energia, onde diversos meridianos se encontram, como VC1, VC17 e VG20. A ideia de que as visualizações dos chakras servem para imprimir energias divinas exteriores naquele local, contudo, já faz total sentido perante a MTC, já que há técnicas esotéricas para o uso de pontos específicos pelos quais determinadas energias divinas podem ser acessadas pelo praticante de Qigong ou outras artes esotéricas chinesas. Esse texto é de extrema valia para todos aqueles que buscam a conexão perdida entre a Ayurveda e a MTC e entre as práticas esotéricas da Índia, China, Tibet e Japão.

2 Comentários

  1. surprise, its me… again!

    Gostava de ler um texto seu sobre geometria sagrada! (posso partir do principio que tenha informações tão ou mais relevantes que esta)

    Mas para isso, continue com piadas, uma das razoes para me estar a tornar uma stalker- psicoleitora é por essa!

    1. Olá teresa. Obrigado pelas palavras. Não sou especialmente versado em Geometria Sagrada, mas quando puder falar algo a respeito, falarei :)

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