Os Corvos de Óðinn e a Alma Humana

two-ravens-in-flight-[1]

Os povos germânicos desenvolveram seus próprios conceitos a respeito de uma estrutura para a alma humana, hoje debatida por diversos autores. Enquanto alguns apresentam estruturas complexas com muitas subdivisões outros apresentam mais simples, sendo possível encontrar até mesmo fazem esquematizações ilustradas. Este estudo pode ser uma boa ferramenta para autoconhecimento, por isso apresento aqui em uma versão mais sucinta e prática.

O conceito nórdico para a alma era chamado principalmente de Hamr, palavra que pode ser traduzida como “forma”. Com crenças profundas em projeção astral, era dito que o hamr poderia deixar o corpo temporariamente e transitar com menos restrições de espaço e tempo, tanto pelo mundo espiritual quanto físico; também acreditavam que, durante estas projeções, o hamr poderia assumir a forma de um animal. Muitos vêem cenas onde heróis e magos se metamorfoseiam em animais presentes nas lendas como metáforas para práticas xamânicas e de projeção astral.

Dentro da hamr está localizada a mente humana. Era dividida entre “Pensamento” (“Hügr”) e “Memória” (“Münr”), associados diretamente com os corvos de Óðinn – Huginn e Muninn. Ambos voavam pelos Nove Mundos e, no fim do dia, retornavam ao senhor de Asgard para relatar em seu ouvido tudo aquilo que viram. Aqui estão as principais ferramentas do estudo do mapeamento da alma para o autoconhecimento.

“Huginn e Muninn/voam todo dia/sobre a vastidão da terra;/preocupo-me com Huginn,/que não retorne;/entretanto temo ainda mais por Muninn.” – Grimnirsmál (“Os Ditos de Grimnir”), stanza 20; Trad. Pablo Gomes de Miranda

40f77502b98f2204034d12ccd8853685[1]

Hügr: o “pensamento” incorpora não apenas as nossas capacidades racionais e consciência analítica ativa, como também os nossos sentidos. É a percepção sensorial imediata, e também nossa interpretação e resposta; podemos dizer que atua como um “filtro” – captando o externo, e transmitindo o interno. Sendo assim, a primeira forma que temos de trabalhar nosso hügr é através de exercícios de “observação dos pensamentos” – sentar-se de forma confortável e apenas notarmos os pensamentos e impressões que surgem em nossa mente, sem tentar reagir, analisá-los ou formatá-los. Treinar para esvaziar a mente e manter o foco apenas naquilo que é desejado também nos ajuda a controlar nossos próprios pensamentos.

É importante também observamos e controlarmos nossas reações. Muitas coisas podem nos causar uma aversão ou emoção imediata, desencadeando diversos pensamentos que acabam controlando nossas reações; e elevar-los ao nível da consciência nos permitirá neutralizar estímulos. Ao notar padrões repetitivos, podemos por exemplo consagrar um pouco de água para diluirmos os pensamentos improdutivos ou apenas nos concentrarmos de forma que se dissolvam.

Münr: à primeira vista, o depósito da “memória” e das impressões captadas pelo hügr. Porém, devermos ter em mente de que nossas experiências nos moldam e também são nosso referencial para ações futuras; por isso, muitos vêem o münr como uma fonte de sabedoria. O nome “Mímir”, dado a uma fonte onde Óðinn bebeu em busca de conhecimento quanto ao gigante que a guarda, também é um sinônimo de “memória”, “lembrar” e “sabedoria”. Buscar contato com münr é procurar em nossa própria essência quais são as memórias que definem aquilo que somos hoje e através de onde que estamos tomando nossas decisões.

Alguns autores contemporâneos entendem a depressão como uma doença que ataca a münr. A apatia que faz com que não vejamos mais sentido naquilo que antes nos motivava é vista como resultado da deterioração deste aspecto da mente, significando também em uma perda de nossa identidade. O 20º verso do poema éddico Grimnirsmál, onde Óðinn afirma temer que seu corvo Muninn não retorne de sua vigília dos Nove Mundos, é tomado como uma metáfora para o medo de perder o referencial de si mesmo.


 Além destes dois aspectos da mente, podemos encontrar no ponto mais elevado da hamr“óðr” (“inspiração”); uma estrutura cuja interpretação varia entre autores, e já recebeu um artigo próprio debatendo o meu ponto de vista e como buscar contato. A tradição germânica também nos fala de partes da alma que são externalizadas e até mesmo poderiam ser interagidas como se fossem uma entidade separada, como a fylgja e a hamingja. Em breve, estes aspectos também receberão sua análise!

Sjáumst bráðlega!

—Ravn

Posts relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *