A Trindade Draconiana: Pomba-Gira a Senhora do Desejo

The Awakening of the Will II – Copyright© 2017 Luciana Lupe Vasconcelos 

Seguindo com o segundo texto sobre a Trindade Draconiana, hoje falaremos sobre o arquétipo da Mulher Escarlate, representado popularmente no Brasil pela Pomba-Gira.

No texto anterior Exu o Senhor do Vazio, fiz uma analogia com o arquétipo de Senhor das Trevas. Agora falarei sobre o Arquétipo Pomba-Gira e como ele se encaixa na visão Draconiana sobre o Desejo.

Começarei falando sobre a ideia que Crowley propagou sobre “A Prostituta Sagrada”.

Ave, Babalon! – Copyright© 2017 Luciana Lupe Vasconcelos 

A virgindade feminina está relacionada a pureza do coração. A pureza do mundo interno. Nesse sentido, toda vez que uma mulher se apaixona ela é virgem. A ideia moderna de virgindade é só uma piada de mau gosto, escravizante e estéril de mentes envenenadas pelo cristianismo. A grande contribuição de Crowley, nesse sentido, foi da transgressão do conceito sagrado de desejo, tesão e da própria sexualidade feminina. Babalon foi uma divindade supostamente descoberta pelo Crowley, enquanto explorava os Aethyrs Enochianos. No contexto sagrado, o desejo é aquilo que nos move, sendo complementar a Vontade, que é aquilo que fazemos. O desejo move a ação, na Via Draconiana, nós falamos que o Desejo combusta a Vontade.

Babalon é chamada de Senhora das Abominações, porque transcende o status quo da mulher puritana e submissa. Ela é a representação da liberdade sexual. Nesse contexto, o Desejo Sagrado, é a ruptura com todo o mundo estagnado e restritivo. Babalon é o próprio Desejo. Associada a Binah, o Desejo é aquilo que dá forma ao Universo, pois a forma dá a beleza das coisas.

To Babalon – Copyright© 2017 Luciana Lupe Vasconcelos 

Outro arquétipo conhecido, é Lilith. Na tradição hebraica, ela seria a primeira esposa de Adão. Porém, como ela foi criada independente, ela não foi submissa. Por isso, ela saiu do paraíso. Carrega em si o arquétipo da liberdade, pois o Desejo não se submete a uma vontade que não a própria.

Mais um exemplo que pode ser citado, é o de Freya. Lembrando que cada divindade é uma consciência diferente, Babalon não é Freya, que não é Pomba-Gira, mas seus arquétipos estão alinhados com o conceito de Desejo.

Pomba-gira, na religião de Umbanda e Kimbanda, representa a liberdade feminina. Ela se apresenta com roupas extravagantes, jóias, maquiagem e uma bebida de cor rosé. Este mistério está ligado a liberdade, pois o líquido vermelho, faz alusão ao sangue menstrual. Pomba-gira representa o Desejo, a liberdade da sexualidade feminina. Esta bebida representa o ciclo que findou, mas não gerou frutos. O sexo por prazer, que não está limitado a procriação, também, um símbolo de liberdade. A champanhe rosé traz em si a doçura do prazer que não é submetido nem subjugado. Pomba-gira é símbolo daquilo que não pode ser possuído.

Conseguimos fazer uma analogia com a virgindade de Maria, ela enquanto virgem, não é de ninguém, é pura no sentido que ela é apenas de si mesma. Com isso nós conseguimos fazer um paralelo entre a virgindade e a liberdade sexual, pois nos dois casos, a mulher é dona de si. O erro que a visão de virgindade transmite, é de que ela deve ser dada a alguém, mas mulher nenhum poderá dá-la, pois ela é a expressão de si para si mesma e nada tem a ver com o sexo, a virgindade não é a ausência de relações sexuais, ela é a pureza de ser dona de si. Assim a mulher livre sexualmente, também é dona de si, virgem e pura. Não damos nada a ninguém, trocamos, compartilhamos um momento.

XV – Copyright© 2017 Luciana Lupe Vasconcelos 

O Desejo per si é a ausência, ao mesmo tempo ele é o combustível que impulsiona a Vontade. Sem Desejo, não podemos ter nada, mas o Desejo precisa da ação para se concretizar, por isso apenas desejar algo não fará com que aquilo aconteça. Tanto que na maioria das práticas mágicas, o que acontece é uma barganha, uma troca.

“Eu quero dizer algo”, quer, mas não diz nada, pois o querer precede o dizer, se nada for dito, a ausência implícita do querer se mantém e o desejo também. Normalmente desejamos aquilo que não queremos ter, pois quando temos aquilo que queremos, o desejo cessa.

Quando falo que “quanto menos você querer algo, maior a chance de tê-lo”, a complexidade dos termos infelizmente faz a maioria dos magistas cair em erro, porque não faria sentido você não desejar algo que você quer. Por isso, o melhor termo que ilustra o real sentido é o tesão. Quando você tem tesão por algo, você procura, vai atrás, o tesão por alguém implica em que você vá fazer algo com aquela pessoa, o tesão por algo que você realmente tem paixão de fazer ilustra isso. Reflita: quando você quer algo, você sente tesão por isso? O quanto de paixão existe no seu desejo de realizar alguma coisa?

O Desejo como Tesão é o que combusta a Vontade. O desejo simplório é apenas a ausência, o Desejo Sagrado é o Tesão que essa ausência gera, para que haja movimento e esse movimento faça a Vontade se realizar.

Invocation – Copyright© 2017 Luciana Lupe Vasconcelos

No próximo texto sobre a trindade, falarei sobre Exu-Mirim, como o Senhor do Movimento.

Todas as imagens podem ser encontradas em www.lupevision.com

ARN
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2 Comentários

  1. Lembro que quando li o primeiro volume da Trilogia Tifoniana esta relação da triade Draconiana com as entidades dos cultos afro-brasileiros surgiu. Fui questionar minha mãe de santo e ela me explico que o que existe é uma ligação de fundamento mágico, já que ambas as religiões (Thelema e cultos afro) tem um fundamento comum, mas com mitologias e roupagens diferentes. Muito bom o texto.

    1. Obrigado pelo comentário! A ideia era traçar um paralelo, não limitando nem o arquétipo de PG nem o da Mulher Escarlate. Caso te interesse, recomendo ler Apophis do Michael Kelly. A maioria das ideias foi baseada na visão dele.

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