Os bons samaritanos, Chesed e megalomania

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“Ame os outros como a ti mesmo”, Levíticus, Rabi Akiva, Hillel, Jesus, há quem diga que Confúcio também, e, no Egito, seria um ensinamento ligado a Ma’at dois milênios mais antigo.

— Samaritanos. Quem foram?

Se tu te acha rebelde… os Samaritanos discordavam das regras do Templo em Jerusalém, mandaram o clássico “f*ck’ll that, eu construo meu próprio Templo”, e assim o fizeram. Deixaram Jerusalém, e edificaram o Templo samaritano no monte Gerizim. O Templo samaritano, ao que tudo indica, possuía a mesma configuração interna, com três divisões, igual ao Templo em Jerusalém. Os samaritanos reconhecem apenas a Torah (o Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia) como sagrados. Os demais são considerados apócrifos ou simplesmente ignorados. Também não reconhecem importância para o Talmud judaico. Os samaritanos possuem sua própria interpretação da Torah. A versão da Torah guardada pelos samaritanos é escrita em hebraico-samaritano, uma versão mais próxima ao paleo-hebraico do que ao hebraico da Torah judaica. O texto possui diferenças, como, por exemplo, a menção ao Monte Gerizim no décimo mandamento.

O Bom Samaritano

A pergunta da história é “quem é o próximo?”. A quem devemos “amar como a nós mesmos”?

A parábola do bom samaritano conta rapidamente: um homem foi assaltado e espancado pelos assaltantes em seu caminho de Jerusalém para Jericó. O homem foi deixado para morrer na estrada. Um sacerdote judeu passou e o viu caído. O sacerdote nada fez. Um levita passou e viu o homem caído. Também nada fez. Finalmente, um samaritano passou e viu o homem caído. Colocou o homem quase morto em seu cavalo, levou-o até uma hospedaria. O samaritano pagou pela hospedagem do homem e para que cuidassem dele até que o samaritano retornasse de viagem.

O samaritano é, então, quem se coloca como “próximo” ao homem que necessita de ajuda.

A ideia aqui é que os dois judeus de castas altas (“sacerdote” indica um Cohen e “levita” indica a tribo de Levi), embora obviamente conhecessem a instrução “ame o próximo”, não se achavam semelhantes o suficiente ao homem em necessidade. O samaritano, no entanto, mesmo sendo de um povo com ideologias conflitantes às dos judeus (há registro de ataques e conflitos entre os dois povos inclusive) via-se suficientemente igual ao judeu para ajudá-lo.

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— Judeus e samaritanos hoje

O argumento é interessante, mas vamos completar o raciocínio por um viés um pouco mais moderno:

O Seminário Teológico de Princeton participou de um experimento há alguns anos. O objetivo era exatamente observar a reação de seus alunos à parábola do bom samaritano. Alguns de seus alunos foram selecionados para que fizessem uma palestra sobre o texto d’O Bom Samaritano. Teriam alguns dias para estudar. Receberiam um horário, uma sala designada e um público. Falso.

No caminho para a sala em que a palestra seria oferecida, um ator vestido de mendigo pedia ajuda. O real experimento era saber se aqueles estudantes tão ávidos por demonstrar o saber sobre o que era ser um bom samaritano, teriam compaixão com o mendigo no caminho de sua apresentação.

O resultado, por mais variáveis que pudessem ser recolhidas, demonstrou que apenas uma variável era importante. Idade, tempo de estudos, conhecimento sobre as Leis, conhecimento sobre Compaixão e sobre a parábola do “Bom Samaritano”; nada importava. O que definia se o estudante iria parar para ajudar ou não era o TEMPO DISPONÍVEL. O tempo que o aluno dispunha antes de sua apresentação.

— “E se não for agora, quando?”

A ciência também gosta de dar nome às coisas. Empatia tem três: empatia cognitiva, empatia emocional e preocupação compassiva. Uma coisa é saber o que o outro sente. Outra é sentir o que o outro sente. Mas o impulso para agir em favor do outro é distinto daquelas duas empatias.

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Os estudantes de teologia não tinham impulso para agir em favor do mendigo necessitado. Eles sabiam que deveriam ajudar. Talvez até sentissem a dor do mentido. Mas seus impulsos eram os de cumprir tarefas acadêmicas “urgentes”.

Se eu não for por mim, quem será por mim? E, se eu for só por mim, quem sou eu? E se não agora, quando? (Hillel)

Rabi Hillel deu o mesmo ensinamento em forma de questionamento: “Se eu não for por mim, quem será por mim? E, se eu for por mim, quem sou eu? E se não agora, quando?” O tempo não era visto como o vemos até poucos séculos atrás. Quando os herméticos criaram suas tabelas sobre as sefirot, colocaram “tempo” ligado à Binah, associada a Saturno. Mas Chesed, misericórdia, é emanação direta de Binah e rege a fartura não só material, mas de tempo também.

Sem esse tempo “farto”, não conseguimos acessar a misericórdia, a abundância. Quaisquer sentimentos de falta, nos impede de chegar a Chesed, mesmo o sentimento de falta de tempo.

Hillel traz a questão da urgência: se não for agora, quando? Eu tenho de ser por mim, é da natureza autopreservar-se, cuidar das próprias coisas, ser autossuficiente. Mas se eu for “só” por mim, “quem” sou eu? Se eu cuido de melhorar a mim mesmo e apenas a mim mesmo? Se eu deixo o mundo para que cuide de si mesmo, quem eu sou?

Quer ser egoísta, tudo bem. Mas quão importante é a pessoa que não causa efeito no mundo fora de si?

Seja misericordioso, nem que seja por megalomania.

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4 Comentários

  1. Pergunta: temos a tendência de sermos empáticos se tivermos tempo pra isso ou se nos julgamos como semelhantes daqueles em necessidade? Tenho grande dificuldade em sentir empatia pelas pessoas e luto muito contra meu egoísmo, que acho que ainda é inerente a muitas pessoas nessa experiência terrena. E por que temos essa tendência tão forte? (Alguns). E como combatê-la?

    Converso muito com pessoas que possuem o mesmo desejo de se melhorarem e debatemos sobre os seguintes argumentos: é necessário que se rompa a barreira da luta pela sobrevivência para que possamos nos dedicar a um propósito ou a ajudar de fato as pessoas? Já que não temos mais aquela urgência em correr para fazer dinheiro ou simplesmente viver para pagar contas?

    Grande abraço!

    1. Rafael

      Vamos em partes: temos tendência de agir de acordo com a necessidade de outros quando não sentimos falta em nós mesmos. Precisamos sentir que temos o que precisamos e que aquela ação compassiva não vai nos prejudicar.

      Do ponto de vista do judaísmo, a ação no mundo é importante.

      Pode ser que a pessoa “saiba” o que o outro está sentindo. Pode ser que “sinta” o que o outro está sentindo. Mas enquanto não agir, o judaísmo pouco sabe sobre essas outras “empatias”.

      E se tu ajudares outras pessoas simplesmente para ter “fama” de alguém bondoso? E se financiar uma ONG fosse prova de que és rico? Quão “egoísta” tu realmente és? Se houvesse uma competição de quem faz mais caridade, competirias?

      Eu, particularmente, acho muito fácil ajudar aqueles com quem nos identificamos. Está no nosso DNA, na nossa cultura. Dividíamos a colheita dentro da nossa tribo. Mas se chegasse alguém com um nariz diferente, um sotaque diferente, esse alguém era “o outro”. E “o outro” era maligno, competia por nossos animais, comia nossas frutas, poluía nossa água.

      Ir contra o instinto de autopreservação é parte da luta. Nossa “má inclinação”, a parte de nós que diz que precisamos fazer o mal a outro para sobrevivermos. Mas quão diferente alguém tem que ser para ser realmente parte de “outro grupo” hoje em dia?

      E quão pobre temos de ser para vermos concorrência em todas as outras pessoas?

      — Shbaa.

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