O Amor foi uma Invenção

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Um cantor e um alaúde. Amor cortês. Amor romântico. Romance. Romantismo.

Dizem que o Amor foi inventado por um poeta anônimo do século XII. Assim mesmo, inventado. Algum cantador com um alaúde debaixo do braço teve uma ideia tão melosa e atraente que se multiplicou feito um câncer. Talvez tenha doído. Dói inventar tamanha mentira.

Resgatar a amada ou encontrá-la pela primeira vez; encontrar a roupa certa, o perfume certo, aquela palavra certa para salvar a princesa; salvar o guerreiro do instinto autodestrutivo; curar aquele que não sabe amar; querer exclusivamente e à primeira vista e ser quisto em retribuição; ter falta de ar quando o outro falta; chorar no travesseiro só.

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Tudo isso não é só parte da cultura ocidental, é central a nossa cultura. Livros, filmes, músicas repetem o mesmo mito entoado pelo alaúde medieval.

Quando alguém me pergunta para que serve a cabala, imediatamente penso nessa mentira que criou o Amor.

Hoje — centenas de anos depois daquele sujeito com o alaúde debaixo do braço — nossos filmes, novelas, romances, poemas e músicas carregam um pedaço daquela mentira. Mudamos nossas vidas, escolhemos onde morar, quais móveis são mais importantes, a que famílias nos unimos, com quem conversamos no dia-a-dia, que roupas vestimos, que carreira podemos seguir. Quem nos contará que temos escolhas, que nossas ações no mundo causam efeitos muito maiores do que podemos enxergar?

Quem é o herege a dizer que Amor é uma ilusão?

O novo Amor das cortes do século XII nasceu da contradição entre o desejo erótico e a plena vivência espiritual entre dois indivíduos. De contradição, virou complemento. A experiência erótica entre duas pessoas leva à plenitude espiritual.

Antes do cantor e do alaúde, o Amor surgia como consequência do casamento. O rito de passagem que unia duas pessoas — duas famílias, duas cidades — servia para iniciar o sentimento entre essas duas pessoas. Uma vez casadas, não cabia outra atitude senão o Amor.

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Depois do cantor e do alaúde, pessoas decidiam realizar o rito como consequência do Amor. Outras deixaram o rito de lado, pois se provara desnecessário. A união espiritual poderia, então, ser obtida pela experiência erótica. União de corpos, cheiros, beijos, desejos. O século passado reconstruiu “magias sexuais” exatamente com esse objetivo.

A banalização do divórcio é consequência da onipresença tirana do mito do Amor. Somos obrigados à felicidade. Não encontrar o Amor é, hoje, falha de caráter.

Não que as pessoas não se separassem antes do cantor e do alaúde. Ou pelo menos não deixassem de viver o Amor dentro do casamento. Traições e “casos paralelos” sempre existiram. É o ritual do casamento que deixou de ser necessário. Uma tirania sobre pessoas que ainda nem decidiram que se amam.

Precisamos de um novo Amor.

Não se usa cabala para obter Amor. A cabala serve para criar o próximo Amor.

Não se usa cabala para obter Amor. Ela serve para desdobrar, descobrir, desvelar a realidade. Se o Amor for real, ele aparecerá. Se for ilusão, se desmanchará em cacos espelhados. O espelho está morto, longa vida ao espelho! A cabala serve para criar o próximo Amor.

O que será esse novo Amor?

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Não sei, ninguém sabe ainda. Ou quem sabe não contou. Quem não acompanha o movimento da roda fica fora do círculo. Gira fora do eixo. Roda sem centro. Etimologia de excêntrico.

Sejam mais excêntricos.

Inventem um sentimento que justifique a vida de madrugada. Criem um rito novo que justifique o viver de amigos. Projetem uma razão para acordar às 4h da manhã. Comecem uma profissão que pague em acesso e confiança. Inutilizem as trocas simbólicas em favor das sentimentais.

A menos que você seja diabético. Daí troque o que tiver por insulina.

Sejam mais excêntricos.

Criem o próximo Amor.

Shbaa.

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