E quem é você para ter a audácia de se declarar um nada?

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Em pleno Dia do Perdão, o presidente da sinagoga, em meio ao coro de preces que pediam pela retificação dos erros, se levantou visivelmente emocionado e confessou:

— Meu Deus! Quem sou eu? Eu sou um nada.

Logo depois, seguindo seu exemplo, levantou-se o diretor cultural da sinagoga, que também admitiu:

— Meu Deus! O que sou eu? Eu sou um nada. — voltando a sentar-se com um ar constrito.

Na sequência, o chazan, o cantor da sinagoga, levantou-se e proclamou com sua bela voz:

— Meu Deus, o que sou eu, então? Eu sou mais um nada.

Animado pela seqüência, o shamash, o zelador da sinagoga, fica de pé e confessa:

— E eu, Meu Deus, quem sou eu? Eu sou um nada.

De imediato, várias pessoas protestam:

— E quem ele acha que é para se declarar um “nada”?

Humildade é uma qualidade ambígua para na tradição do judaísmo. Não só pela sua tradução imprecisa, mas pela sua elevação ao grau de virtude.

Humildade seria originalmente a capacidade de uma pessoa de compreender seu lugar no mundo. Saber o que ela pode e não pode fazer. Saber o que é seu papel e o que não é seu papel. Por exemplo, uma pessoa pode querer livrar um amigo da dependência do álcool. Mas pode não ser seu papel fazer essa escolha pela pessoa. Ou a pessoa pode querer tocar música em homenagem aos amigos que se casam, mas não é realmente bom em nenhum instrumento. Ou ainda a pessoa pode presenciar um atropelamento e, apesar de achar que sabe apenas o básico de primeiros socorros, é a única pessoa no local com alguma capacidade de ajudar o acidentado. Nesse último caso, a “humildade” está em assumir o papel de agente da solução, em vez de se retirar. Quer dizer, humildade não era apenas nos colocarmos como “menor” do que os outros, mas também compreender quando nós somos “maiores”.

Mas, no sentido contemporâneo, “ser humilde” parece algo de que as pessoas se orgulham. Isso é contraditório?

É parte do mito atual que grandes personalidades tenham vindo da pobreza. Steve Jobs iniciou a Apple em sua garagem, Bill Gates criou a MicroSoft em um dormitório de faculdade – a qual ele nunca concluiu – e Page e Brin criaram o Google em uma casa alugada onde jogavam ping-pong. Ninguém quer saber se Steve Jobs e Bill Gates vinham de famílias milionárias ou se o Google já recebia milhões de dólares de investimento antes mesmo de seus “fundadores” alugarem tal casa.

Nossos cantores se enchem de ouro em videoclipes e, na entrevista, dizem que ainda são as crianças pobres da vila pobre da cidade pobre do interior. Por dentro, pelo menos.

  • Como vamos reconhecer uma pessoa humilde mesmo?
  • Sendo a humildade uma virtude elevada, quem tem o direito de se declarar humilde?
  • A quem autorizamos a virtude de ser humilde?

A tradição judaica nos conta dos mendigos que se recusam a receber esmolas, porque acreditamos que eles estão errados. Deveriam se rebaixar mais. A tradição judaica também nos fala de como deveríamos pedir perdão e, raramente, de como deveríamos exigir perdão. Mas não há nada como a humildade de colocar D’us em seu lugar – particularmente, meu conto favorito.

A culpa é sempre do outro.

Neste ano, com a chegada de Rosh Hashanah e de Yom Kipur, o exercício que se pede é o de assumir responsabilidades. É tempo de repensar nossos erros, mas não os erros ativos. Esses eram fáceis. É a vez de pensar as omissões.

  • Onde fomos menor do que deveríamos?
  • Onde nos furtamos de agir?
  • Onde acreditamos ser incapazes, impotentes, ignorantes?
  • Onde nos escondemos na humildade?

É hora de subir um degrau, expandir o círculo de influências, crescer.

Não é permissão, é dever.

Shbaa.

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