Duas mulheres, com profissão, sem pais, nem maridos, circa 1.400 a.C.

midwivesQuando o Faraó decidiu mandar matar todos os meninos hebreus que viessem a nascer, mandou chamar pelo nome duas mulheres: Shifra e Pua.

— Shifra e Pua, façam com que não nasçam mais meninos hebreus vivos! Quando vocês foram chamadas às casas das mulheres prestes a dar à luz e for um menino, asfixiem-no e digam à mãe: “sentimos muito, mas seu filho nasceu morto”.

Para mim, o mais interessante não é nem a confiança que o Faraó tinha em sua própria voz de comando, mas o fato de essas duas mulheres terem profissão e não terem marido ou família registradas na Torah. Não é só curioso para mim. Isso deve ter atraído a atenção de diversos estudiosos ao longo dos anos, pois diversas tentativas de explicações aparecem nas discussões rabínicas.

Em uma solução, Shifra e Pua não são mulheres reais, mas nomes genéricos para parteiras. Shifra viria da palavra para “acalentar” e Pua, da palavra que dá nome ao som engraçadinho que fazemos ao tentar conversar com um bebê. Outra solução é a proposta de que Shifra e Pua são “nomes de guerra” dessas duas parteiras. Elas seriam, na verdade, Jochebed e Miriam. Mãe e irmã de Moisés. Não só a solução coloca Shifra e Pua em uma linhagem, mas as legitima através da personagem mais forte da Torah, Moisés. Ambas soluções condenam Shifra e Pua ao obscurescimento histórico.

Mas quaisquer outras possíveis identidades não importa, para nós, porque a Torah já atribuiu a elas uma identidade própria, sem maridos ou pais para legitimá-las. São parteiras e se recusaram a matar bebês recém nascidos. Desobedeceram a ordem direta do Faraó.

Existem, claro, outras tentativas de explicar como os bebês dos hebreus sobreviveram às ordem do Faraó. Uns dizem que os bebês eram jogados no rio Nilo boiavam até uma caverna onde D’us os alimentava com leite de pedra (literalmente, as pedras jorravam leite na boca dos bebês). Outros dizem que os bebês afundavam e começavam a respirar debaixo da água (!?). E quando o decreto para matar bebês hebreus foi suspenso, os bebês anfíbios emergiram das águas de volta a suas casas.

Eu prefiro acreditar nas parteiras.

Shifra e Pua não só desobedeceram a ordem do Faraó, como também mentiram diretamente para ele:

— As mulheres hebreias não são como as egípcias — disseram Shifra e Pua ao Faraó — elas sabem acelerar o parto para que os bebês nasçam antes de chegarmos a suas casas.

O livro de Shemot/Êxodo registra que, por causa das parteiras, o povo hebraico multiplicou-se e ficou mais forte. Em algum lugar, dizem que foi graça de D’us. Suspeito que o povo seria forte com Shifra e Pua mesmo sem D’us. Mas não seria forte com D’us e sem Shifra e Pua.

Shbaa.

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