Cabala Judaica #1: Cabala é mera poesia

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Cabala, sod, raz. Torah, instrução. Cabala, tradição.

Um estudante ficou de pé diante da turma e perguntou: “Meu mestre, os acadêmicos de hoje insistem que os textos da Torah são só contos e que o que preservamos é só um conhecimento anedótico de gerações e gerações perdidas na história. Podes responder, meu mestre, se cabala é mera poesia?”

Diz a lenda que, uma vez, há muito, muito tempo, todos sabiam o que o cajado de Moshé simbolizava, assim como hoje todos sabem que três luzes de cores vermelha, amarela e verde formam um semáforo. Ou uma sinaleira, ou um farol. Mesmo que discordassem do nome pelo qual chamar o cajado, a “coisa de bronze”, nechosheth, era algo do cotidiano.

A própria palavra usada para nomear esse tipo de simbolismo mudou conforme o tempo. No início, o conhecimento oculto era chamado “sod”. Literalmente, oculto. De forma conotativa, espiritual.

O significado fica mais claro na comparação com outras formas de interpretação de texto usados na leitura da Torah (exegese judaica):

  • Peshat: “superfície”. Interpretação literal.
  • Remez: “pistas”. Alegorias e metáforas da construção narrativa.
  • Derash: “busca”. Significado dependente de pesquisas. Em geral, significados que podem ser descobertos ao se comparar textos semelhantes ou os diversos usos de uma mesma palavra dentro da Torah.
  • Sod: “oculto”. Significado além do literal, além do alegórico e além do que se pode descobrir pesquisando mais.

Na tentativa de justificar essa ou aquela interpretação da Torah, diz-se que quando as leis foram entregues a Moshé, foram entregues a Torah e uma “Torat haSod”, uma Torah Oculta. Esse mesmo “ocultamento” da sabedoria apareceu através da palavra “raz”, de raiz árabe, dando também à futura cabala a alcunha de “Razei Torah”.

Com o tempo, e com mais número de estudiosos sérios focados na interpretação dos textos do misticismo judaico, o “oculto” deixou de ser o foco e a palavra “cabala” passou a ser usada. Na tradução literal, a raiz de cabala é “receber”. Assim como Moshé “recebeu” a Torah e a entregou para o povo judeu, a cabala é algo “recebido”. Mas na tradução mais aceita, cabala é “tradição”, porque foi recebida dos antepassados.

Muito do que o ser humano sabe, ou acha que sabe, vem de um conhecimento tácito, cotidiano. Esse conhecimento não é escrito, nem mesmo falado de forma explícita. É o conhecimento que está nas entrelinhas das conversas, no subentendido das lições, no entretexto da leitura. Para acessar essa espécie de sabedoria cabalística, no sentido mais mundano da palavra, é preciso experimentá-la.

O título “Cabala é mera poesia” se encaixa em todos esses sentidos. Tem origem anedótica. É fácil de confundir sua interpretação literal, e sua interpretação através de “pesquisa”, uma vez que, no original, os textos místicos são cheios de aliterações, ecos e reiterações de ritmos, trocadilhos e alegorias, metáforas de menor e maior dificuldade de interpretação, mensagens ocultas, ilusórias e mesmo imaginadas. Encerra em si significados sobre a postura que se deve ter em relação à própria cabala. E responde a pergunta de o que é cabala.

Por extenso:

  • Cabala: “tradição”. Conhecimento social, tácito e cotidiano, que ajuda a interpretar as instruções, a Torah.

Em comparação,

  • Torah: traduzida muitas vezes como “lei”, em caráter definitivo, mas a tradução ideal é “instrução”. É o texto pedagógico escrito em metáfora ou alegoria para ser mais conciso de ensinar.

A cabala explica o que a Torah expõe de forma concisa e, de certo modo, oculta daqueles que não conhecem as tradições e a cultura da sociedade que escreveu (ou a quem se destinam) as instruções.

• Mera: simples, genuíno, puro.

• Poesia: do grego poiesis, criação, construção.

Todos esses sentidos constituem cabala, assim como em um texto po(i)ético adjetivos multiplicam os significados. O poema diz “O lápis azul embala a mão que esboça sofrimento”. O leitor deve ler que a ferramenta de escrita feita de um cilindro de madeira que envolve um grafite é da cor azul e faz movimentos para cima e para baixo enquanto desenha algo triste. Mas deve captar de “lápis” o processo de escrita. Deve obter de “azul” a imagem do céu e do mar. Deve ouvir “lápis-lazúli”. Deve sentir de “embala”, o balanço do berço e do oceano. E deve duvidar se “esboça” é o ato de fazer desenho um desenho simples ou de demonstrar sinais do sofrimento.

O mesmo exato efeito ocorre na manipulação do texto cabalístico. A nachash nechosheth de Moshé é cacofônica. Seria como dizer “cobra de cobre”. Escreve-se nun-chet-shin (serpente) nun-chet-shin-tav (bronze). Nechosheth é, assim, “serpente mais tav”, sendo tav sinal da materialização da serpente, a ligação entre a forma ideal de yesod e a forma material de malkuth. Importa também que Moshé tem controle da serpente, não o contrário. Nachash é a mesma palavra para a serpente de Adam e Chava, mas soma 358, mesmo valor de Meshiach. Logo, ocultam em si a mesma energia. Todos esses sentidos precisam entrar em consonância, para criar o significado completo da tal “coisa de bronze”. Esses sentidos só são atingidos na contemplação de todas as partes. Mas esse é o início de outro longo caminho.

Em resumo, por um lado, cabala é mera criação — expressão de uma realidade. Os ensinamentos da cabala têm o objetivo de habilitar o ser humano a entender sua própria influência no mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo, cabala é criação pura. Entendendo sua influência no mundo, o ser humano pode agir nele da forma mais limpa, simples, direta e correta possível. E, como ser é algo reflexivo, a simples criação é a cabala. Todo o ato de criar, alterar, construir, mover o mundo é cabala.

Um outro estudante de aparência mais velha se levantou, caminhou até o estudante mais jovem e respondeu: “Não sei. Mas gostaria de um dia responder que sim.”

Shbaa.

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