Acher, o outro

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Um dia, o grande rabino Elisha ben Abuya decidiu deixar o judaísmo. É aparente nos escritos judaicos um certo rancor com essa escolha. Mas, apesar de deixar claro o descontentamento com o caminho tomado por ben Abuya, o judaísmo não conseguiu esquecê-lo.

Nascido pelo ano 70 EC, pouco se sabe sobre sua vida. Ou talvez os registros tenham sido apagados. Sabe-se que nasceu na região da Palestina provavelmente em uma família muito rica. O jovem Elisha teve chance de dedicar-se ao judaísmo, mas também de viajar e conhecer outros povos.

Sabemos que foi um grande rabino, pois há ao menos uma decisão rabínica registrada em seu nome no Talmud. Talvez, outras decisões tenham sido posteriormente atribuídas a seus alunos ou de outros rabinos.

A lenda sobre ben Abuya diz que ele se elevou espiritualmente até o ponto em que foi capaz de ver o trono de D’us. E ben Abuya viu Metatron sentado no trono. Como o judaísmo crê que apenas D’us pode se sentar no trono, ben Abuya teria se perguntado “Será que há na verdade duas forças supremas?” A partir deste dia, Elisha ben Abuya teria recebido a alcunha de Acher, “o outro”. E seu nome passou a ser omitido.

Acher é uma palavra pesada. Ela é usada para substituir nomes que possam trazer desgraça. No judaísmo, a palavra e a coisa são interligadas. Na verdade, “palavra” e “coisa” são chamadas “d’var”. A carne de porco, rejeitada como exemplo maior de comida imprópria para consumo, é chamada de “d’var acher”, outra coisa.

A análise linguística dos textos judaicos sabe, por exemplo, que as referências a Metatron começaram cerca de 500 anos após a morte de Elisha ben Abuya. Mas a lenda é tida como verdadeira pela maior parte da história do judaísmo. Sobre Acher, dizem “não deixe sua boca fazer sua carne pecar”. Pois a pergunta de Acher “Será que há na verdade duas forças supremas?” fez com que ele fosse contra o cerne da religião.

Outras versões – mais céticas – creem que Elisha ben Abuya era na verdade contra a versão de judaísmo seguida pelos Filisteus. E foi deles que ele se separou ao invadir escolas rabínicas para pedir que os estudantes deixassem os estudos para pegar em armas durante a revolta liderada por bar Kochba em 132 EC.

A frase sobre Acher teria o significado de “não deixe sua boca”, seu discurso, “fazer sua carne”, seus pupilos, os estudantes, “pecarem”.

Também ficou registrado no Talmud que “a língua de Acher não se cansa de cantar canções gregas”. Tendo conhecido tantas outras religiões da babilônia e talvez da própria Grécia, Acher não teria como deixar de usá-las para exemplificar seus conhecimentos e decisões.

Para ben Abuya, cumprir as mitzvot era tão importante quanto estudar a Torah. Sobre a hagadah (o conjunto de leis) ele diz: “A quem um homem que cumpre as mitzvot e estuda a Torah se compara? A quem constrói a casa preparando a fundação primeiro e depois levantando os tijolos, para que as águas, mesmo que muitas, ao passarem ao lado da casa nunca a levem. E a quem se compara um homem que estuda a Torah sem cumprir as mitzvot? A quem constrói a casa levantando os tijolos e depois jogando as pedras da fundação por cima. Então, mesmo as poucas águas da chuva desmancham a construção.”

Mas, pessoalmente, acho que a melhor frase registrada de Acher é:

“Aprender a Torah quando jovem é como escrever em papel novo. Aprender a Torah em idade avançada é como escrever em um palimpsesto.”

Ao mesmo tempo que fala sobre a necessidade de se levar educação cedo às crianças, também fala da dificuldade de se conformar com a religião depois de ter conhecido diversas outras ideologias. Dificuldade essa que provavelmente Acher também encontrou.

No fim das contas, sabe-se apenas que, um dia, o grande rabino Elisha ben Abuya decidiu deixar o judaísmo. Ele teria visto uma criança morrer logo após cumprir dois mandamentos que garantem uma “vida longa” (dar liberdade a uma mamãe passarinho e honrar pai e mãe). Ao mesmo tempo, viu um homem descumprir essas mesmas duas leis, e nada lhe acontecer.

Acher deixou o judaísmo e, ainda assim, permaneceu como um dos maiores rabinos lembrados pelo Talmud.

Shbaa.

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