A Primeira Família em um trem que nunca vai chegar

cabala-banner

Aquilo que entendemos como “o Mal” nos acompanha desde sempre. Ou desde que o tempo é tempo. Em Adão e Eva, em Caim e Abel. A cada momento em que nos desconectamos do Todo; quando deixamos a humanidade de lado. Sitra Ahra. O Outro Lado. As qlifot, kelipot, qliphoth. As cascas.

A ideia não sabe bem ao judaísmo. Já vimos isso antes. Foram estudantes contemporâneos de outras vertentes da magia que catalogaram e nomearam as cascas. O conceito é antigo, mas, apesar de tudo, ele nunca foi realmente necessário aos judeus para compreender a cabala.

As cascas da árvore da vida, na visão judaica, são um pouco como Arte. Não servem para nada, mas causam ostranenie. Não é palavra hebraica. É russa: “остранение”. Indica a sensação de desconhecer aquilo que, até há pouco tempo, era familiar. É como olhar a fotografia dos nossos pais tirada antes de nascermos. São as mesmas faces, as reconhecemos. Mas ainda não estão “prontas”.

Dizem que Sócrates não gostava da palavra escrita e que Platão odiava a Arte. Pior de todas as Artes: a poesia. A palavra usada não era exatamente Arte, era mimesis, imitação. Sócrates rejeitava a palavra escrita, pois enfraqueceria a memória. Platão repudiava a Arte, porque a Arte tem aparência de verdade mas não é a verdade. Isso confunde os homens. Também não era fã da palavra escrita, mas porque considerava a palavra escrita uma palavra morta. As obras de Platão, pois, registram diálogos. Uma forma de tentar manter a palavra viva.

A raiz de остранение é a mesma de ostracismo. No grego, όστρακα, óstraka, pedaços de vasos quebrados para servirem de cédulas de votação, quando se devia votar para expulsar uma pessoa da cidade. Eram preferíveis ao pergaminho e demais materiais por serem extremamente baratos. Eram barro quebrado, afinal.

O poeta em mim adora essa proximidade circular entre palavras, ideias, dvarim. Arte, aparência de verdade, ostranenie, ostracismo, óstraka, nomes escritos nas cascas de potes de barro.

A aparência da verdade, a Arte, já era algo perigoso para o filósofo grego. A aparência da verdade era inimiga da verdade, já na base de nossa civilização. Deixe-me apresentar um pequeno pedaço dessas cascas.

Trem, de Brenda Romero, e a aparência das coisas

Para ajudar a experimentar a aparência do mal, Brenda Romero criou em 2009 um jogo, ou assim é classificado, no qual interação era a mensagem. Entre o jogo de tabuleiro e a instalação de arte, a experiência é única, individual e quase incomunicável.

Trilhos de trem e vagões de brinquedo montados sobre uma janela de vidros quebrados.
Trilhos de trem e vagões de brinquedo montados sobre uma janela de vidros quebrados.

O objetivo do jogo é levar pessoas do ponto A para o ponto B, colocando-as em um vagão de trem e pondo-os em movimento. Participam três jogadores de cada vez (o jogo foi concebido para ter o número fixo de três trilhos). Cada jogador pesca cartas de uma pilha. As cartas podem impedir outros jogadores de seguir adiante ou podem liberar o jogador de obstáculos. O primeiro jogador a chegar a atingir o ponto B vence. O destino só é conhecido quando o vencedor vira a carta da linha de chegada.

Uma nova janela é quebrada a cada novo início de jogo, para garantir a representação silenciosa da violência da Kristallnacht. Os cartões com as ordens aos jogadores foram datilografados em uma máquina de escrever autêntica usada pela SS e adquirida apenas para esse propósito. Sem palavras, no silêncio lúdico do jogo, cada indivíduo precisa compreender individualmente o que acontece por trás das ordens que precisa executar. Alguns não veem nada demais. Alguns perdem de propósito. Alguns preferem não jogar.

Os seres humanos no jogo de Brenda Romero são representados por bonecos amarelos genéricos de jogos de tabuleiro. Uma vez que os jogadores se dão conta do que está acontecendo, os bonecos genéricos se tornam pessoas. Inicialmente, jogam os bonecos para dentro dos trens tentando enfiar o máximo de passageiros em cada viagem. Uma vez que os jogadores entendem o que está acontecendo no jogo, cada participante, sem comentar a respeito, ajeita cuidadosamente os bonequinhos passageiros dentro dos vagões. As pecinhas se tornam pessoas. E o jogo toma um ar pesado.

Brenda Romero prefere não explicar seu jogo. Não há palavras que registrem a experiência viva de jogá-lo. A simulação que se dá em cada partida é a mensagem. Quaisquer registros são post mortem.

Do ponto de vista da cabala, o que vemos é uma demonstração de como a aparência de seguir as regras, sem intenção, sem finalidade, sem luz, pode ser perigosa. Ao mesmo tempo, esse vazio de justificativa é o que permite a cada um preencher a casca consigo mesmo. É o que nós trazemos para o jogo que conta, não as regras do jogo ordenam. A ligação primordial entre os humanos é o que preenche a casca de sentido. Nós sermos capazes de enxergar semelhantes naquelas pequenas pecinha de plástico é essencial ao humano em nós. A empatia além da explicação.

Retornando à Arte escrita, a representação da aparência das coisas, a mímesis, imagem sem justificativa, sem imposição de sentido, constrói uma imagem alimentada apenas pelo humano em nós. No poema abaixo, não há nada (não se engane), exceto a empatia que nós trouxermos para o texto:

O poema em si é demonstração da Arte esvaziada de sentidos. Em hebraico, são 18 palavras em 6 linhas. É necessário que o leitor traga a partir de sua vivência significados para o texto. As palavras “transporte” e “vagão” são as únicas dicas intratextuais. Fora isso, seria necessário conhecer a biografia do autor para decodificar os versos.

Dan Pagis foi poeta, conferencista e professor de Literatura Hebraica Medieval. Sobreviveu ao Holocausto, chegando em Israel em 1946, onde trabalhou como professor em um kibbutz. Seus primeiros poemas com referência direta ao Holocausto foram publicados em 1970 em uma coletânea chamada Gilgul.

Pagis encontrou, na imagem de um vagão de trem selado a caminho de um campo de concentração, a Primeira Família. Imagem desoladora e bela, personagens separados por dores e distâncias extremas, finalmente reunidas, ao menos em uma curta estrofe.

Lápis cinza sobre a imagem de ferro de um vagão.

Vagão lacrado, sem saída.

Aqui, de dentro dos acontecimentos. O Talmud nos ensina a ler os mínimos detalhes. Há uma narrativa na qual rabinos decidem quais são os únicos 3 motivos para o autossacrifício. Ela começa com “Foi decidido no sótão de uma casa em Lod”. Os rabinos que tomaram essa decisão estavam no sótão, pois se escondiam de alguma ameaça. Logo, eles precisavam tomar a decisão para si, não para outros. A solução que encontrassem era importante naquela hora para eles. Sofrer as consequências de suas escolhas, estar lá presente nos acontecimentos é importante no registro de tais decisões.

Com Abel, o que morreu, o irmão mais novo.

Se você vir, condicional de uma mãe pedindo a ninguém, pois a mensagem deixada para trás pode nem encontrar destinatário.

Caim filho de Adão, ao mesmo tempo filho dela, mas distanciado, filho de outro. Teria sobrevivido o filho “mal”? Ou seria Caim o executor oculto? Em Bereshit/Genesis, Caim pergunta “Sou eu o responsável por meu irmão?” Por que Caim não está protegendo o irmão agora?

Diga-lhe que eu — eu o quê? “Eu o perdoo”? “Eu também o amo”? “Eu estou bem”, e o vagão era de um trem para fora da Alemanha?

Quais desses fins vocês escolheriam?

Há um outro diálogo interrompido na Torah. Em Bereshit/Gênesis 4:8,

“Caim falou para Abel […] e ocorreu que, estando eles no campo, Caim se ergueu contra Abel e o golpeou.”

Muitas traduções inserem “Vamos para o campo.” como a fala de Caim. Mas não há esse registro. Não sabemos o que Caim falou, ou mesmo se falou algo específico. Talvez o autor do texto não conseguiu pensar em nada que Caim dissesse que pudesse realmente ludibriar Abel. Talvez o verbo falar não signifique o que pensamos que signifique. Mas a frase fica na metade, como a frase de Eva no poema de Dan Pagis.

Eva completa o ciclo. Responde a Caim na mesma moeda. Devolve o silêncio.

Agora é nossa vez.

Shbaa.

Posts relacionados

3 Comentários

  1. Bom dia.

    “Escrito a Lápis num Vagão Lacrado” deve ser a tradução , pois não tem 15 palavras nem 6 linhas.
    Você pode informar o texto em hebraico?

    Obrigado

    José Elias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *