Perdão, Assassinatos e Azazel

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– Como saberei, Rav, que D’us perdoou meus pecados?
– Quando não mais os cometê-los, jovem padawan.

Para os mais religiosos, o ritual do bode expiatório se originou na morte de dois filhos de Aarão, que entraram no Kodesh haKodashim/Santo dos Santos sem permissão. Para os mais céticos, o texto de Vayikrá/Levíticus 16 foi inserido depois da consolidação da Torah por Ezra e Nehemias, por volta de 400 aEC.

0De acordo com Flávio Josefo, Bagoas conspirou para substituir o Sumo Sacerdote Johanan pelo irmão mais novo, Jeshua. Johanan confrontou Jeshua dentro do Templo e o matou. Esse assassinato causado pelo próprio Sumo Sacerdote profanou o Templo de maneira sem precedentes.

A teoria da conspiração de Yom Kippur nos diz que a cerimônia – o jejum, o arrependimento, o bode expiatório, a oferenda queimada – teria sido inventada, então, para poder reparar tamanho dano. Posteriormente, o ritual seria inserido na Torah, na narrativa da morte dos filhos de Aarão, para legitimá-lo.

Mas o ritual não era exatamente novidade. Registros apresentam o mesmo motivo de “bode expiatório” desde o século 24 aEC (dois mil anos antes do ritual judaico!). Um bode, nesse caso uma cabra, carrega uma placa de prata com inscrições. O “mal” seguiria a cabra para fora do povoado.

Os gregos possuíam ritual semelhante, usando a palavra “pharmakos” (sim, de fármaco e farmácia). Mas os gregos usavam um ser humano.

As peculiaridades do ritual judaico reforçaram a mitologia em torno do ritual. Nada é mais importante do que o cumprimento do rito, aliás. Um homem deve ser escolhido para levar o bode expiatório para fora da cidade. Se o animal estiver doente – o que impediria seu uso como sacrifício – ainda assim, o homem pode carregar o animal nos ombros para cumprir o sacrifício. Se for Shabat – quando é proibido carregar objetos fora de casa – ainda assim, o homem pode carregar o animal. Nada deve impedir que o ritual seja cumprido no 10o. dia de Tishrei.

Inadvertidamente, talvez, o ritual acabou criando um novo demônio a ser temido. Na verdade, existem dois bodes no ritual de Yom Kippur. Um deles recebe uma placa em ouro na testa com o texto “l’IHVH”, para D’us. O outro, uma placa com o texto “l’Azazel”, de tradução difícil. A tradução mais aceita é “para total remoção”, supondo remoção dos pecados. A tradução menos mística, embora presente nos comentários rabínicos, é “azaz-eil”, acidentado com força. Uma alusão ao fato de que, quando o homem carregasse o bode, ele deveria arremessar o animal de cima de um precipício para que este se destruísse na queda.

“Azazel” foi mais tarde tomado como uma outra entidade, antagonista de IHVH. Inicialmente, um anjo, responsável pela purificação dos homens. Depois, um anjo caído. Por fim, um demônio. 

Nos manuscritos do Mar Morto, Azazel era o anjo caído que ensinou aos homens as artes da guerra – e às mulheres a usar maquiagem… concluam vocês.

Enoch o coloca como chefe dos anjos caídos que se reproduziram com mulheres humanas. A midrash introduz os B’nei Elohim, anjos que se reproduziram com mulheres humanas, como dois anjos chamados “Az” e “Azael”. Eles queriam fazer parte da História humana, mas acabaram pervertendo o ser humano, permitindo que eles agissem de forma contrária às leis de D’us.

 

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O Apocalipse de Abrahão associa Azazel tanto com um pássaro que se alimenta de sacrifícios, como com a serpente e o próprio inferno.

Os próprios judeus, durante a Idade Média, associaram Azazel com Samael. Maimônides, no entanto, sempre mais racional, insistia que a cerimônia nada podia fazer quanto aos erros e pecados das pessoas. Seu caráter era apenas simbólico. “Azazel” simbolizaria a exclusão do convívio com a comunidade e, consequentemente, com D’us.

Ainda para Maimônides, o verdadeiro perdão ocorreria quando o pecador se depara com a oportunidade de repetir o erro e não o faz. Por isso, talvez, a literatura apresenta histórias de pecadores que encontram sempre as mesmas tentações. Cada uma delas é uma oportunidade para corrigir os erros, inclusive os anteriores.Sem Título

Shbaa.

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5 Comentários

  1. Eu não conhecia nenhuma explicação do significado da palavra AZAZEL.Pelo visto,, não há consenso.
    Só havia lido o texto que está no Pentateuco, em que é prescrito, como parte de um ritual, que um bode seja dado a Azazel, e colocado p fora do acampamento.
    Gostei muito de ler o artigo.

    Lá em cima diz que o texto é publicado por “Shbaa”, mas o nome do autor não é revelado.

  2. Esqueci de dizer que pensava que nós , seres humanos aqui , vivendo na Terra, fôssemos todos Bnei Elohim, esse pensamento deve vir de algum artigo que li, e que entendi ( talvez) errado.
    “A midrash introduz os B’nei Elohim, anjos que se reproduziram com mulheres humanas”

    1. O termo B’nei Elohim é usado inicialmente como indicação dos anjos “descem” à Terra, no livro de Genesis. Mas o termo se torna mais genérico para “Filhos de Deus”. Nesse caso, o próprio Jesus teria se identificado como “Filho de Deus” (o que o tornaria herege na visão judaica da época). E, posteriormente, “Filho de Deus” passou a ser um termo popular para os seres humanos, como em “somos todos filhos de deus”.

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