Game of Thrones e Mitologia Contemporânea

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“A Canção de Gelo e Fogo” é uma série de livros iniciada em 1996 por George R. R. Martin, hoje muito popular devido a sua adaptação para televisão “Game of Thrones” (indo ao ar pela primeira vez em 2011). Através de ambas as vias, diversos elementos da mitologia emergiam do Inconsciente Coletivo e se tornaram mais uma vez cotidianos para as pessoas que as acompanham. Para mostrar a grande capacidade de remanifestação destes elementos, iniciamos essa série de posts com análises fazendo a ponte entre os mitos antigos e contemporâneos.

Os textos terão como referência primária os livros, podendo haver grandes diferenças em relação ao que é apresentado na série de TV. Além disso, para permitir uma análise mais profunda, poderão conter spoilers.

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Deuses modernos: Qfwfq e o conhecimento através experiência humana

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Deuses imaginados. Talvez todos os deuses tenham sido imaginados um dia antes de existirem. Com o seriado Deuses Americanos trazendo o livro de Neil Gaiman de volta ao mainstream — ou pelo menos ao nerdstream — nós voltamos também nossa curiosidade aos deuses modernos. Quem são? O que fazem? Como se relacionam? Trago um destes deuses contemporâneos. Fraco em culto, talvez, mas culto em sua natureza. Ele representa um acesso intermediário ao conhecimento científico através da experiência humana comum.

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31 de maio, sonhos e a virada cultural de Shavuot

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Tikun leil shavuot. A retificação da noite de Shavuot.

Quanto mais estudamos durante o dia, mais se aprende durante o sono… Estudos contemporâneos também demonstram a importância do sono para a consolidação do aprendizado. E é possível argumentar que a cabala já dizia isso.

Claro que as explicações são distintas. A cabala aponta que o estudo durante o dia facilita a elevação da alma para que ela aprenda “nos Céus” durante a noite.

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Magia Rúnica – Ontem e Hoje

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O uso das runas como um alfabeto magístico hoje em dia é muito amplo, não sendo incomum sua apropriação para contextos que diferem muito do paganismo germânico e desconsiderem por completo sua utilização história. Os sistemas que as utilizam atualmente, mesmo dentro de um meio pagão, são construções contemporâneas que divergem do que os resquícios históricos nos mostram. Agora, vamos comparar ambas as formas que a magia nórdica escrita se manifesta no decorrer dos séculos.

Imagem destacada: parte do Codex Runicus, escrito por volta de 1300 para

registrar a lei nórdica, preservado na Dinamarca.

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Verbos declarativos, o jussivo e o coortativo

Cursor_e_Photo_by_Clark_Young___Unsplash

Não, isso não é aula de português. Até porque isso é matéria que todo mundo deveria aprender na escola. Só vamos repassar um pouco a ligação do tema com cabala…

Não confundam com PNL, na mesma linha do post sobre Saussure e a conexão entre magia e linguagem, alguns verbos se distinguem do uso comum da língua por não apenas simbolizarem algo, mas serem essa ação. Essas são formas especiais de verbos declarativos.

Verbos declarativos são fáceis de identificar. Quando usados na primeira pessoa (eu), o uso do verbo indica uma ação e é essa ação ao mesmo tempo. Por exemplo, se eu digo “eu juro“, o verbo indica meu juramento e é o juramento em si. O juramento se executa no momento em que eu pronuncio o verbo.

Também pode ser: eu prometo, eu confirmo, eu aceito, eu nego, eu confesso, eu concordo, eu desculpo, eu insisto, eu proclamo.

Falar e agir são a mesma coisa.

De forma semelhante, o verbo jussivo é o uso do verbo para fazer um pedido. Em hebraico, o verbo é conjugado no chamado “imperfeito”; em português, a tradução normalmente é feita colocando o verbo no modo subjuntivo. Em ambos os casos, o contexto é que auxilia na identificação do verbo jussivo. Ele aparece como reforço de um desejo ao se dirigir a quem pode satisfazer esse desejo.

São exemplos: lembre-te de tua promessa, queira o Rei ser piedoso, tragas* dinheiro e prosperidade.

*diferente do imperativo, que é uma ordem, o jussivo se mantém no presente do subjuntivo.

Já o verbo coortativo é aquele que indica a vontade do falante em fazer uma ação. No hebraico, ele aparece na primeira pessoa, não raro, no plural. Na tradução ao português, é comum colocar o verbo no futuro. “Desçamos e confundamos” é coortativo (Genesis/Bereshit 11). O plural costuma confundir. O verbo pode ser interpretado como uma ordem (“vocês desçam e vocês confundam”) ou como uma indicação de promessa de que o falante tomará tal ação (“eu descerei e eu confundirei”). Por isso, o papel dos anjos na confusão das línguas em Genesis/Bereshit 11 sempre foi um problema.

São exemplos de uso coortativo: observarei tuas leis, firmaremos uma aliança, chegarei em casa antes da meia-noite.

Algumas vezes, as traduções colocam o verbo “quero” (“quero observar tuas leis”), mas isso me parece enfraquecer o uso do verbo. Eu posso querer alguma coisa e nunca tomar nenhuma atitude a respeito. Mas o verbo coortativo claramente tem o objetivo de garantir as ações futuras, seja de si ou de outras pessoas. E, diferente do imperativo, não é uma ordem, mas uma declaração de vontade.

Para que servem?

Parece óbvio, mas eu vou escrever assim mesmo. No uso da palavra em rituais, é necessário precisão. Eu sei que muito já se disse sobre como a vontade é importante e sobre como a emoção basta e sobre como o amor salvará a todos no final e blá blá blá. Então, tomem este texto como uma ferramenta. Ou melhor, como uma forma de calibrar as ferramentas.

Há diferença entre dizer:

  • Eu quero ter sucesso.
  • Eu juro que terei sucesso.
  • Eu terei sucesso.

Ou entre:

  • Eu quero que me tragas sucesso.
  • Queiras tu, ó entidade, que eu seja bem sucedido.
  • Teremos sucesso nesta empreitada.

A escolha do verbo altera o modo como a ação toma forma no mundo material. Ou, se tu não acreditas nisso, muda como ela é projetada para fora de ti. A atenção dispensada nesse planejamento de como a ideia se transformará em ação retorna em energia para o ritual.

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A Força, Hércules, a Bela e a Fera e J-RPG

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Os Arcanos do tarot são arquetípicos, podendo se manifestar como personagens específicos, cenas ou mesmo o tema de contos inteiros. O arcano d’A Força possui diferentes formas de representação em todas estas formas, e pode ser visto até mesmo como uma expressão do método de busca de algumas linhas magísticas. Analisaremos aqui alguns destes diversos modos que foi retratado, traçando os paralelos entre eles.

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Entre o hebraico e o caos: Ferdinand de Saussure

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Tudo daqui pra frente é um truque elaborado para te enganar.

Parece normal, quando alguém quer estudar magia, que esqueça que nosso entendimento se sustenta em séculos de pensadores iniciados e leigos conversando entre si. Até mesmo de séculos em que não havia diferença entre o pensamento do leigo e o do iniciado. Nos estudos de cabala judaica, é importante compreender o pensamento de onde a ideia de magia das palavras se inicia: a palavra imanente ao objeto. A cabala sustenta que a palavra hebraica é tão pura e original que está diretamente ligada à essência imanente das coisas.

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