É permitido fumar: o lugar do pecado na prática espiritual

Alguém perguntou sobre o cigarro no judaísmo. Sendo o suicídio condenado na religião judaica, alguém perguntou, não seria o fumo uma espécie de suicídio lento e portanto proibido? Nosso rabino respondeu que não, e acendeu seu cigarro.

Há uma questão (taxonômica talvez) aqui: quão devagar seria permitido causar mal a si mesmo e ainda não ser classificado como “suicídio”? Quero dizer, seria permitido pelo judaísmo, em algum grau, fazer mal a si mesmo? Aqui me parece que há a questão do ponto de partida e do caminho desejado.

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Vou buscar fama entre deuses esquecidos…

As pessoas buscam fama na internet, porque, no fundo, não acreditam.

Não acreditam que seus crochês são bem costurados, que suas sobrancelhas foram bem desenhadas, que leram os livros certos, que o que fazem da vida é importante. Precisam confirmar que estão certos.

Aos berros, querem convencer que nazismo é de esquerda, que a Terra é plana, que migrantes a pé são um Walking Dead da vida real, que vencedores de Reality Shows são pessoas legais, que, se eles não podem abortar, ninguém mais pode, que todos devem se sentir culpados por gostar de mais de uma pessoa que de outras, que o sapato de solado vermelho é sempre do mesmo número mas serve em todo pé.

Precisam impor justiça, porque seu deus é impotente.

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O Holobionte e a Practognose

Holobionte: ser vivo (teórico) formado pela soma de organismos (micro e macro) que estão em simbiose. Nós, nossas bactérias e nossos vermes.

A discussão sobre o conceito não é tanto se a teoria está correta, mas, sim, se ela é necessária. Não vale a pena simplesmente aceitarmos que consciência e decisão não são tão individuais assim?

Practognose: conhecimento prático e corporal que precisa ser acessado sem a consciência/cognição, porque é interrompido por processos cognitivos conscientes. Quem dança ou pratica artes marciais entende bem o conceito.

O termo foi cunhado por Merleau-Ponty, mas não costuma ser muito utilizado fora de estudos específicos. É mais fácil encontrar o termo “apractognose”: incapacidade de por em prática habilidades motoras, como vestir as roupas. Diferente de falta de coordenação motora ou falta de cognição, a apractognose aparece na aplicação da ação nessas habilidades do dia-a-dia, que deveríamos ser capazes de fazer sem problemas, mas que, por algum motivo, quem sofre de apractognose não é capaz de completar.

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Venci Alexandre, o Grande, em 2010. Venço Isaac Luria este ano. Ano que vem vencerei Chopin.

Alexandre, o Grande, conquistou o ocidente e morreu aos 30 anos de idade. Venci Alexandre em 2010. Ano que vem, eu chego à idade de Chopin. É interessante pensar em como deixamos essas coisas passar sem comemorar, sem enxergar grandiosidade desses fatos.

Frederic Chopin nasceu em uma aldeia pequena da Polônia, chamada Zelazowa Wola, em 1810. Compôs pelo menos 74 Opus (obras que recebem numeração) e morreu aos 39 anos. Se compôs a primeira aos 15 anos, foram menos 3 por ano. Dizem que odiava tudo que fosse lento.

Venço esse homem ano que vem.

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David, o perigoso – ou como desobedecer o rei

E ele mudou sua fala diante seus olhos, e ele fingiu insanidade em suas mãos. E ele arranhou as portas e deixou a saliva escorrer em sua barba. (1 Shemuel/Samuel 21:13)

A interpretação comum é que David, com medo de ser morto pelo rei, fingiu estar louco. Se jogou contra a porta e babou. Dizem que esses gestos se assemelhariam a um ataque epilético. E, na época (como hoje), as pessoas têm medo de se aproximar de epiléticos. O rei, assim, em vez de considerar David uma ameaça, manda apenas que o expulsem do palácio.

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As Chaves e suas Fechaduras

Um símbolo é, em primeiro lugar, um grafismo ou ícone; aquilo que ele irá significar depende de lugar, época, contexto. Tendo isto em mente, podemos deduzir que o sagrado para um sistema não é o símbolo em si, mas sim aquilo que estamos buscando através deles. Tornamo-os chaves, meios simples de abrir um imenso repertório de imagens e sensações – é por isso que dizemos que “o Segredo protege a si mesmo”, conhecer os símbolos é inútil sem consciência daquilo a que se deve remeter. Logo, um sistema com simbologia similar ou mesmo igual a outro pode estar lidando com energias completamente diferentes – e para ilustrar essa ideia, farei uma análise partindo da iconografia nórdica com que trabalho.

Imagem destacada: “Vejviser lønnøgle”, arte de Ræveðis

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