Duas mulheres, com profissão, sem pais, nem maridos, circa 1.400 a.C.

midwivesQuando o Faraó decidiu mandar matar todos os meninos hebreus que viessem a nascer, mandou chamar pelo nome duas mulheres: Shifra e Pua.

— Shifra e Pua, façam com que não nasçam mais meninos hebreus vivos! Quando vocês foram chamadas às casas das mulheres prestes a dar à luz e for um menino, asfixiem-no e digam à mãe: “sentimos muito, mas seu filho nasceu morto”.

Para mim, o mais interessante não é nem a confiança que o Faraó tinha em sua própria voz de comando, mas o fato de essas duas mulheres terem profissão e não terem marido ou família registradas na Torah. Não é só curioso para mim. Isso deve ter atraído a atenção de diversos estudiosos ao longo dos anos, pois diversas tentativas de explicações aparecem nas discussões rabínicas.

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Magia Rúnica – Ontem e Hoje

O uso das runas como um alfabeto magístico hoje em dia é muito amplo, não sendo incomum sua apropriação para contextos que diferem muito do paganismo germânico e desconsiderem por completo sua utilização história. Os sistemas que as utilizam atualmente, mesmo dentro de um meio pagão, são construções contemporâneas que divergem do que os resquícios históricos nos mostram. Agora, vamos comparar ambas as formas que a magia nórdica escrita se manifesta no decorrer dos séculos.

Imagem destacada: parte do Codex Runicus, escrito por volta de 1300 para

registrar a lei nórdica, preservado na Dinamarca.

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O Ginnungagap como um Modelo de Magia

No primeiro post sobre modelos de magia baseados na simbologia nórdica, exploramos um interno baseado na hamr. Agora, discutiremos um modelo mais voltado para o exterior baseado no mito de criação apresentado nas Eddas. Ambos são complementares, e são de grande proveito se usados simultaneamente.

Imagem destacada: o vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia. Segundo estudiosos dos mitos, a dualidade “gelo&fogo” pode só ter adquirido a importância que observamos hoje entre os colonizadores da ilha. Uma possível anterior, apontada em poemas rúnicos, pode ser “inverno&verão”.

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A hamr como um Modelo de Magia

Anteriormente, conhecemos um mapeamento para a alma humana (hamr) baseado na simbologia nórdica – dividido na mente, na aura e na Consciência. Agora, cruzaremos estes conceitos para criar um modelo de magia, com um enfoque para o autoconhecimento. Para isto, discutiremos formas de se obter um entendimento prático dos símbolos apresentados.

Imagem Destacada: RAIDHO

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Um Banimento Germânico

Algo comum na magia prática e em certas linhas pagãs porém muitas vezes negligenciado no paganismo germânico é o ritual de banimento. Com a função de abrir trabalhos, gerar uma fonte de energias e criar barreiras de proteção, entre os mais famosos praticados hoje em outras linhas magísticas podemos citar o “Ritual Menor do Pentagrama” do hermetismo (base para muitos outros) e o “Rubi-Estrela” de Aleister Crowley. Apresentarei aqui o banimento que eu utilizo em meus rituais dentro da egrégora, modificado a partir do “Ritual do Martelo” proposto pelo autor Edred Thorsson.

Imagem Destacada: Jerome/Yggdrasill

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Kohelet / Eclesiastes

Maravilhoso. No nome em hebraico, aquele-que-reúne, mas traduzido para aquele-que-professa. Dizem que são palavras do próprio Shlomo haMelech, o rei Salomão, se dirigindo a uma assembleia. Linguisticamente, o texto se coloca entre 450aEC e 330aEC. A poética empresta palavras do persa e do aramaico. O conceito central, hevel é vapor, sopro. Traduzido como “vaidade”, deve ser entendido como “a qualidade de ser vão”. Todo o trabalho do ser humano sobre a Terra é vão, é vapor, é efêmero como o sopro.

Kohelet é um longo exercício de meditação em busca do sentido da vida através dos entremeios da poética e da retórica cabalística. A vida do ser humano é uma longa repetição de ciclos sem sentido. Ao mesmo tempo, Kohelet destrói a própria imagem do Humano na criação, insistindo que o girar da terra, o nascer do Sol, o fluxo dos rios, o caminhos dos ventos, tudo reduz o Humano a sopro, vapor, vaidade. Não só. Mas a vaidade das vaidades, construção idiomática para superlativo: a coisa mais vã que pode existir.

P.S.: Ignorem os versculos Kohelet/Eclesiastes 12:9–14. Esse não é um texto religioso.

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O príncipe que pensava ser um peru e o sábio que o curou sentando-se nu debaixo da mesa

A seguinte história é creditada ao Rabino Nachman de Bratzlov, ou Rav Nahman Breslover, bisneto de Baal Shem Tov. Utilizava o conceito de hitbodedut, uma espécie de “solidão intencional” na qual a pessoa poderia conversar com D’us em voz alta, como se conversa com um velho amigo. Também apresentou o conceito de “retificação geral” (ou seria “retificação genérica”?). Através dos Tehilim/Salmos 16, 32, 41, 42, 59, 77, 90, 105, 137 e 150, poderia-se remediar pecados graves como o de “derramar a semente”. Se você é um dos “derramadores de semente”, sugere-se ler esses Tehilim/Salmos uma vez por dia em voz alta e em ordem.

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Shulkhan Arukh, “Mesa Posta”, de Yossef Karo

A Mesa Posta — tradução literal do título — é uma compilação da Halachá que veio a substituir a Repetição da Torah (Mishneh Torah) escrita por Maimônides no século XII. Escrita por Yossef Karo e publicada no século XVI, é aceita pela maior parte das congregações judaicas ortodoxas.

Divide-se em

  1. Orach Chayim – leis que regulam as preces, a sinagoga, o Shabbat e feriados.
  2. Yoreh De’ah – leis que regulam a alimentação, a conversão ao judaísmo, o luto; leis pertinentes à Terra de Israel e leis de pureza familiar.
  3. Even Ha’ezer – leis que regulam o casamento, o divórcio e demais assuntos relacionados como partilhas e heranças.
  4. Choshen Mishpat – leis que regulam responsabilidades fiscais e financeiras, danos (pessoais ou financeiros) e aquelas que regem o Bet Din — Tribunal Rabínico —, o comportamento do Tribunal e de testemunhas perante o Tribunal.

Cursor_e_SA-EE1b_pdfEm especial, é interessante obter uma cópia — ou imagens digitais — das páginas comentadas em hebraico que preservem a diagramação histórica da obra. É interessante ver como a grande quantidade de informação de diversos comentaristas se intercala. Isso tudo, séculos antes do que conhecemos como hipertexto. Mas a sabedoria do judaísmo funciona assim, em amarrações textuais e comentários sobre comentários.

 

Em livro separado ou — dependendo da versão — em um mesmo volume, os comentários do rabino Moshe Isseries indicam onde as tradições sefaradi e ashkenazi diferem e são conhecidos como mappah, a “toalha de mesa”, e são hoje compreendidos como a mesma obra.

 

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