A Cabeça do Escorpião.

                Agora que falamos um pouco sobre as Divindades Draconianas vamos tratar um pouco do sistema de treinamento mágico dentro desta visão. Como disse anteriormente o sistema Draconiano, principalmente o escrito por Michael Kelly acaba por adequar-se a diversos paradigmas da mão esquerda, e alguns da mão direita também.

                Claro que esse currículo irá usar a imagem do Dragão, a Besta Perfeita, como uma analogia para os seus iniciados. No caso é usada a figura de Tiamat e suas sete cabeças. A própria pode ser tópico de um texto mais a frente. As sete cabeças são:

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DIVINDADES DRACONIANAS.

Não é segredo nenhum que o Caminho do Dragão possui suas divindades, a saber: O Senhor da Escuridão, O Dragão, a Musa e o Daemon. Cada um deles está ligado a um aspecto micro e macro, são divindades interiores bem como aspectos exteriores do adepto do caminho. Para pessoas com um passado cristão é complicado entender que existem divindades que não estão nem aí para sua crença, ou para seus louvores, elas não precisam e não querem adoração. Mais difícil ainda é entender que essas divindades são símbolos, representam algo maior, que provavelmente nenhum de nós vai entender completamente, e que elas estão no interior dos humanos e também fora deles. Assim como a mínima partícula contém todo o universo.


O que está em cima é como o que está em baixo.

Mesmo não entendendo por completo essas divindades, devemos nos dedicar ao exercício de sua gnose, para aos poucos atingirmos a compreensão e assimilarmos suas características cósmicas em nossa psique. O primeiro passo é a compreensão intelectual.

O Senhor da Escuridão.

Os seres humanos não são nada além de animais, seres que evoluíram para uma consciência mais aprimorada, uma capacidade analítica que deve ser treinada. Sim ela decai com o tempo e se não for buscada não funciona mais. Para atingirmos essa capacidade sacrifícios foram e são feitos, a luz da razão possui um preço. Qual será o preço de todo o resto, de tudo que a luz da razão não toca, de não precisar mais dessa razão?

Segundo a mitologia fora Pometeus que deu a luz do fogo aos bestiais seres humanos, iniciando a capacidade de criar, construir, conquistar e destruir. Lúcifer também recebe os mesmos louros. E ambos pagaram um preço alto por isso.

Mas não é a luz que interessa, e sim a escuridão que ela não toca. A capacidade de entender a si mesmo e consequentemente o todo sem um discernimento de certo ou errado, isto ou aquilo, ou de separação. Uma consciência absoluta, realmente cósmica. Na minha opinião o termo escuridão é errado, ele deveria ser trocado por VAZIO.

O universo em si é um imenso vazio, mesmo quando não percebemos, se tirarmos todo o espaço vazio da Terra ela ficará do tamanho de uma bola de tênis. O Vazio existe em tudo e em todos, conecta toda existência e o que está fora da existência, é o comum entre os deuses, demônios, heróis e monstros. E por estar em toda a parte ele possui o potencial para tudo, e do meu vazio eu alcanço o vazio do outro lado da galáxia.

O Senhor da Escuridão é quem habita e domina este vazio, capaz de criar dele, andar por ele, viver nele. Ele cria, controla e manipula. Por tamanho poder e conhecimento esta divindade é um pária, um Não-Deus capaz de vencer e testar todos os outros não se importando com os resultados, pois sabe que irá remanifestar em toda sua glória e poder.

Alguns exemplos incompletos de várias mitologias: Exu, Odin/Loki, Lúcifer, Prometeus, Seth, Shiva.

O Senhor da Escuridão está ligado ao elemento Terra, sendo a manifestação, o poder de tirar algo do Vazio para a existência. Lembrando que dentro dessa visão não há diferença entre o corpo e o espírito, tudo é sagrado.

O DRAGÃO.

Enquanto os caminhos da luz rejeitam sua essência bestial e muitas das vezes maléfica, o draconinano entende que isso faz parte de seu Ser, e que colocar a sujeira debaixo do tapete não adianta nada, em algum momento essa sujeira vai sair e tomar toda a casa.

Em diversas mitologias há a figura do Dragão, uma besta indomável, que nada, voa, anda e se não cospe foto é imune a ele. Essa besta representa os quatro elementos fora de controle. Não é incomum o Dragão ser morto por um herói que com esse feito ganha poderes sobrenaturais, e no mais açucarado dos casos casa com a princesa.

Nós sabemos que o Dragão não pode ser morto, ele vive dentro do herói que o assassinou, o mesmo sangue que deu o poder pode ser um veneno cruel, que mata lentamente, corrompe cada molécula do Ser. Estar na frente do Dragão sem uma determinação inabalável, ir apenas por aventura, despreparado, é morte na certa.

Nas mitologias a besta também guarda um tesouro incalculável, montanhas de ouro e pedras preciosas, armas e conhecimentos capazes de tornar o herói e seu reino invencíveis.

Como foi dito o Dragão representa nossa besta interior, o mar de monstros e demônios que carregamos dentro de cada um de nós, essa besta em homens é essencialmente fêmea, e provavelmente em mulheres é essencialmente macho. O primeiro contato com essa besta que sintetiza todos os monstros de nosso Ser é aterrorizante, mas é necessário. Vivemos em um mundo onde nossos supostos líderes são dominados por suas bestas, devoram tudo sem critério algum, espalham caos e destruição. O draconiano rejeita e tem asco desses seres, pois não conhecem o Senhor da Escuridão, e são incapazes de identificar e vencer sua besta, tornando-se uno com ela, caminhando para o domínio de suas emoções e pensamentos.

O Dragão é um ser ardiloso, inteligente e tortuoso, que fará uso das mais diversas armadilhas para não ser percebido, enfrentado e vencido.  Para o adepto ele é o inconsciente e seus monstros e demônios. Traumas, memórias, vivências, dores, capacidades e incapacidades. São as emoções que surgem do nada e tomam conta, possuem o seu corpo e fazem com que faça coisas que se arrependa depois. Ele não habita as águas do inconsciente ele é as águas do inconsciente, o lado terrível dos deuses.

Está relacionado ao elemento água e as emoções que por muitas vezes são incontroláveis, mas que quando vencidas dão ao ser humano um poder incrível.

Nas diversas mitologias ele pode ser: A Serpente Dan, Fafnir, Leviathan, Tiamat.

Mais difícil de entender, um bônus para quem quiser: Yemojo, Olokun.

A MUSA.

Esse é o termo mais comum em algumas correntes, porém é melhor dar o nome correto: BABALON. O problema é que esse nome está na boca do povo com suas representações bregas e feita para punheteiros. Babalon é o fogo do desejo puro, ela inspira, atrai e excita independente de sexo, o que ela desperta é muito mais que um desejo carnal, vai muito além. Ela incita ao desejo, a união com ela, uma união completa, de todo o Ser. Se não for se entregar por completo vai acabar louco buscando um ídolo que não existe.

Cada um irá ver a Rainha do Desejo de uma forma diferente, claro que a princípio ela vai apresentar-se como uma projeção de seus desejos sexuais, porém, ela não é somente isso. Ela inspira a busca pelo maior, pelo mais, pelo melhor. O desejo por fazer, criar, procriar, de sair do não manifesto para o manifesto e depois voltar. O desejo por criar, fazer a arte, mudar, sentir e viver em plenitude.

Não há lugar para machistas ou para o patriarcado, Ela é a Senhora, a Rainha, àquela que coloca a humanidade no caminho certo, o desejo do coração puro.  Vontade e determinação inabalável, a dedicação ilibada. O maior erro foi reconhecer seu título de prostituta e esquecer sua essência de Santa. Uma sociedade corrompida só poder vê-la como vendida, puta e suja. Mas os que possuem o espírito aberto já sabem que ela é a Santíssima, capaz de gerar, que não faz a distinção entre este e aquele.

Quem não for capaz de ter um coração puro e buscar seu desejo mais ardente, não terá nunca seu amor, e ficará pagando por algo que não é seu. Das quatro divindades ela é a mais perigosa, pois coloca o adepto perdido em um labirinto de desejos, enganos e perdições, basta ver nossa sociedade sexista para entender o que falo.

A Santa é muitas em uma só, é perfeita só por existir e inspira o mais inepto a tornar-se herói, ela se entrega para os que se entregam, revela seus segredos mais profundos e lança seus amores para a vitória perfeita. Ela é a rainha das feiticeiras, capaz de fazer tudo com sua magia natural.

Está relacionada ao elemento fogo, e pode ser incontrolável como ele.

Algumas relações mitológicas: Oxum, Oyá, Agbá, Freja, Inanna, Isis.

O DAEMON.

Recebeu muitos nomes e provavelmente o mais famoso é Sagrado Anjo Guardião. Um título brega e um pouco fora do contexto draconiano. O Daemon é essência que habita o vazio, você mesmo feito perfeito, seu espírito heroico, invencível e imortal, capaz dos mais grandiosos feitos. Claro que esses feitos possuem uma direção, que é comumente chamada de Verdadeira Vontade, ou Desejo Puro. Provavelmente o maior erro do esoterismo ocidental é a busca por uma Verdadeira Vontade inabalável, pura e salvadora, quer irá tirar-lhe da vida que você se encontra para algo realmente mágico e miraculoso. Lembra que não há diferença entre matéria espírito? O Desejo Puro é aquilo que vai te dar forças para sair da merda que você se encontra, a saída do labirinto, custe o que custar, demore o tempo que for.

Somente pelo Daemon podemos entender a Trindade Draconiana, que foi descrita acima. Ele sintetiza as três divindades, é puro potencial, porém está afastado de seu cliente, causando pouca influência. A aproximação é lenta, deve ser levada a sério, e não pode ser negligenciada, qualquer meio deve ser usado para a Grande Obra. Com o tempo e uma fanática dedicação a aproximação se inicia e a influência aumenta.

A melhor explicação que encontro para o Daemon é o Ori, aquele que permanece, a cabeça sagrada da Religião Africana, ou de matriz africada. O Ori continua, independente da morte do corpo físico o Ori prosegue sua existência, levando consigo as experiências de todas a suas outras manifestações, porém esse poder está trancado, podendo ser acessado pelos rituais e sacrifícios corretos.

O Daemon é o bom conselheiro, o protetor perfeito e é você mesmo no porvir.

Está relacionado ao elemento ar.

Mitologicamente pode ser comparado a qualquer herói atingindo seu máximo potencial.

                Essa é uma explicação rápida e sucinta sobre as divindades draconianas, muito pode ser alcançado estudando as divindades citadas. Lembrar que o Caminho do Dragão se adapta a qualquer filosofia que busque a evolução do ser humano ao seu potencial máximo, ao pós-humano, não negando os defeitos e males que temos agora em nossa existência.

O Dragão vive!

Akin.

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A Essência da Tradição

A palavra “tradição” nos remete a um apego a um cânone de um determinado grupo, que é passado de geração em geração. Atualmente ela se vê manchada por uma relação com o conservadorismo (que visa tornar este cânone imutável, o que muitas vezes o faz ficar obsoleto quanto a mudanças sociais e gerar problemas), e dentro do meio ocultista protagonizando embates (sobre a necessidade de um cinto de couro de leão) entre magos que se debruçam sobre pantáculos salomônicos e aqueles pragmáticos e pós-modernistas que se denomeiam “caotes”. Tudo isso são reflexos do aspecto mais superficial da “tradição”; buscaremos aqui um mais profundo, que por falta de termos adequados será referido como “Tradição” (com inicial maiúscula).

Imagem destacada: Obon Matsuri, festival tradicional japonês

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O Orvalho da Yggdrasill, o Dragão e o Destino

Existe um mito sobre as Nornir (a tríade do Destino no panteão nórdico) onde além (ou “ao invés”) do papel de fiandeiras seria de sua ocupação regar as raízes da Yggdrasill. Embora já tenhamos analisado a Wyrd em textos anteriores, discutiremos os símbolos usados por esse mito para explicar este conceito que muitas vezes pode soar confuso. Recomendo (re)ler o texto anterior, para se familiarizar não apenas com a noção nórdica de Destino como também com os termos que serão usados.

Imagem destacada: Nataša Ilinčić. Sim, a mesma do artigo anterior; porque não achei nenhuma outra que me agradasse tanto quanto…

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