Game of Thrones e Mitologia Contemporânea

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“A Canção de Gelo e Fogo” é uma série de livros iniciada em 1996 por George R. R. Martin, hoje muito popular devido a sua adaptação para televisão “Game of Thrones” (indo ao ar pela primeira vez em 2011). Através de ambas as vias, diversos elementos da mitologia emergiam do Inconsciente Coletivo e se tornaram mais uma vez cotidianos para as pessoas que as acompanham. Para mostrar a grande capacidade de remanifestação destes elementos, iniciamos essa série de posts com análises fazendo a ponte entre os mitos antigos e contemporâneos.

Os textos terão como referência primária os livros, podendo haver grandes diferenças em relação ao que é apresentado na série de TV. Além disso, para permitir uma análise mais profunda, poderão conter spoilers.

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Why Aren’t Jewish Women Circumcised?, de Shaye Cohen

Captura de Tela 2016-11-26 às 15.07.10O livro do professor Shaye Cohen, PhD em História Antiga e rabino, usa a pergunta “Por que as mulheres judias não são circuncidadas?” para traçar a história da Aliança através dos séculos. Elabora sob diversas óticas o que era e o que é ser judeu em diversos tempos na História. E conclui encontrando identificando os aspectos principais do que é ser judeu e o que é a Aliança.

O livro se separa em duas partes de 4 capítulos cada:

Parte Um:

  1. A canonical history of jewish circumcision
  2. Were jewish women ever circumcised?
  3. Christian questions, christian answers
  4. From reticence to polemic

Parte Dois:

  1. The celebration of manhood
  2. The reduction of lust and the unmanning of men
  3. True faith and the exemption of women
  4. The celebration of womanhood

A primeira parte traz perspectiva histórica da circuncisão. A segunda parte, sendo a mais interessante, traz quatro respostas à pergunta do título. Por que não circuncidar as mulheres judias? Importa aqui a reunião de conceitos legais e culturais judaicos na construção das possíveis respostas. Contorna a crença cristã de que, ao substituir circuncisão por batismo, o cristianismo seria “mais inclusivo”.

Spoiler: diferente do que se pode imaginar, “a circuncisão não é” — conclui o professor Cohen — “um sinal maior da Aliança do que qualquer outro sinal da Aliança”.

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Shaar haKavvanot, de Isaac Luria

Kavvanah significa intenção: os pensamentos que deveríamos ter ao entoar cada prece, cada bênção, cada palavra. Nesse texto, Isaac Luria descreve não como se comportar fisicamente na prece, mas como se comportar mentalmente. Os pensamentos apropriados às ações da fé judaica. Esse livro é especialmente interessante, porque o judaísmo raramente separa ação e intenção. Normalmente, se a ação pode ser concluída, a intenção foi concluída. Ou, em outros casos, a intenção é até mesmo ignorada. O mundo físico é rei.

O título deste livro é diversas vezes traduzido como “Portal das Meditações”, pois é uma ideia próxima a nossa cultura atual considerar estes exercícios “meditações”. Todavia, as “intenções” são uma prática constante. A kavvanah não é um momento em que o judeu se retira de sua prática diária para “meditar”. Cada e toda prece judaica pede que a mente esteja sintonizada na “intenção” correta. Quer dizer, embora haja textos e desenhos — quase diagramas — associados ao Shaar haKavvanot, a prática sugerida não é a de meditar sobre as imagens em si, mas usá-las para compreender o estado mental correto para cada brachah, prece ou texto religioso.

Aos interessados em uma compilação coerente da cabala, Shaar haKavvanot faz parte dos trabalhos conhecidos como “Shemonah Shearim”, os “Oito Portais”. Servem de livro didático para um panorama sobre a visão da cabala a partir de 1600 EC. Os livros que fazem parte dos Oito Portais são:

  • Shaar HaHakdamot – Portal da Introdução / Portal Introdutório: Otztrot Haim, Eitz Haim, Arbah Meot Shekel Kesef, Mavoa Shaarim, Adam Yashar
  • Shaar Mamri RaShB”Y – Portal das palavras do rabino Shimeon bar Yochai
  • Shaar Mamri RaZ”L – Portal das palavras de nossos sábios
  • Shaar HaMitzvot – Portal das Mitzvot / Portal dos Mandamentos
  • Shaar HaPasukim – Portal dos Versos: Likutei Torah, Sepher HaLikutim
  • Shaar HaKavanot – Portal das Intenções: Shaar HaKavvanot, Pri Eitz Haim, Olat Tamid
  • Shaar Ruach HaKodesh – Portal do Espírito Santo
  • Shaar HaGilgulim – Portal dos Ciclos / Portal das Reincarnações
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A Árvore da Morte de Naruto

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Continuando de onde paramos no nosso no último texto, exploremos hoje a Árvore da Morte presente no mangá Naruto.

Como pretendo evitar de trazer o contato com as energias qliphóticas para este post, irei abster-me de nomeá-las ou descrever em detalhes suas características. Irei descrevê-las apenas de forma superficial e dar mais ênfase ao modo com o autor lidou com elas – isso é, à forma como o Herói Solar venceu as qliphot.

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Shaarei Kedusha, de Hayyim Vital

Raramente traduzido, ainda tenho dúvidas sobre a clareza das versões disponíveis em Inglês e Português.

Todavia, o Shaarei Kedusha traz anotações de Hayyim Vital, aluno de Isaac Luria, sobre o método de meditação cabalística. Segundo a obra, os métodos foram experimentados pessoalmente por Vital. A forma da meditação para acessar a sabedoria dos textos sagrados é particularmente semelhante ao que conhecemos hoje como incorporações.

O estudante deve meditar repetindo de forma ritmada um texto do “sábio” com quem quer falar. O “sábio” usará a alma do estudante como roupa e falará através de sua boca. Interessante que o estudante precisa fazer perguntas ao sábio enquanto a incorporação ocorre. Não se previu que haveria uma pessoa ao lado preparada para conversar com o sábio.

Ainda assim, é o mais próximo que há de literatura “aberta ao público” sobre evocações e invocações segundo a cabala judaica.

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Shaar haGilgulim, textos de estudo de Isaac Luria, Yitzchak Bar Chaim, Samuel Vital e Hayyim ben Joseph Vital

É na verdade um conjunto de textos de diversos autores que discorreram sobre a reencarnação do ponto de vista judaico. O conceito tanto significa o ciclo de vida e morte do corpo humano, como os pequenos ciclos dos nossos anos, meses e rotinas diárias. O judeu pode cumprir um gilgul — literalmente ciclo ou roda, traduzido como “encarnação” — mudando de profissão, se divorciando, acompanhando um filho crescer. A obra apresenta também a ideia de fim-dos-tempos, quando nenhuma reencarnação, nenhum giro da roda, seria mais necessária.

Separado em 36 capítulos, trata desde o básico, como os nomes para a alma, até o fim-dos-tempos e a retificação da alma de Caim. Há trechos curiosos, como o que garante que quem der comida imprópria (não-kasher) para um judeu comer reencarnará como uma folha de árvore.

Pela complexidade da obra, versões traduzidas da obra são difíceis (e caras) de se adquirir. Há diversas versões em inglês disponíveis online. Deixo sugestão de versão comentada em: http://www.kabbalaonline.org/kabbalah/article_cdo/AID/378771/showall/1

Também há versão com comentários disponíveis através do site do Chabad Online: http://chabad.org/.

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A Cabala e a Mística Judaica, de Gershom Scholem

Captura de Tela 2016-11-26 às 14.51.02Se existisse uma Escola de Frankfurt para estudos de mistiscismo judaico, essa escola teria sido liderada por Gershom Scholem. Scholem foi amigo de Walter Benjamin. Era historiador, teólogo e filólogo.

O princípio para os estudos dirigidos por Scholem era o de submeter a mística judaica à disciplina da Filologia e da História. Assim, o autor nos apresenta uma cabala viva, mutável e histórica, longe da imposição dogmática. A cabala judaica atual é apresentada como fruto de uma luta entre o monoteísmo e os mitos, luta a qual o monoteísmo nunca conseguiu vencer de forma plena.

Na tentativa de evitar os conflitos doutrinários, o judaísmo escolheu apagar ou esconder o mistiscismo, na tentativa de evitar que o poder fosse imposto de cima para baixo. E, como ato final de conciliação, o judaísmo teria reduzido D’us a um conceito filosófico, impedindo que pudesse ser ator e permitindo que pudesse ser discutido abertamente.

É importante notar que, para Gershom Scholem, em sua interpretação cabalística, o mal não existe. O que chamamos de mal é a ausência do bem, a fronteira do humano. Nossa noção de bem e mal, segundo Scholem, vem mais do neoplatonismo do que de possíveis ligações com o dualismo do zoroastrismo.

É uma visão otimista, mas fundamentalmente judaica.

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Shulkhan Arukh, “Mesa Posta”, de Yossef Karo

A Mesa Posta — tradução literal do título — é uma compilação da Halachá que veio a substituir a Repetição da Torah (Mishneh Torah) escrita por Maimônides no século XII. Escrita por Yossef Karo e publicada no século XVI, é aceita pela maior parte das congregações judaicas ortodoxas.

Divide-se em

  1. Orach Chayim – leis que regulam as preces, a sinagoga, o Shabbat e feriados.
  2. Yoreh De’ah – leis que regulam a alimentação, a conversão ao judaísmo, o luto; leis pertinentes à Terra de Israel e leis de pureza familiar.
  3. Even Ha’ezer – leis que regulam o casamento, o divórcio e demais assuntos relacionados como partilhas e heranças.
  4. Choshen Mishpat – leis que regulam responsabilidades fiscais e financeiras, danos (pessoais ou financeiros) e aquelas que regem o Bet Din — Tribunal Rabínico —, o comportamento do Tribunal e de testemunhas perante o Tribunal.

Cursor_e_SA-EE1b_pdfEm especial, é interessante obter uma cópia — ou imagens digitais — das páginas comentadas em hebraico que preservem a diagramação histórica da obra. É interessante ver como a grande quantidade de informação de diversos comentaristas se intercala. Isso tudo, séculos antes do que conhecemos como hipertexto. Mas a sabedoria do judaísmo funciona assim, em amarrações textuais e comentários sobre comentários.

 

Em livro separado ou — dependendo da versão — em um mesmo volume, os comentários do rabino Moshe Isseries indicam onde as tradições sefaradi e ashkenazi diferem e são conhecidos como mappah, a “toalha de mesa”, e são hoje compreendidos como a mesma obra.

 

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Meguilat Esther, O Livro de Ester, Torah

A narrativa de Esther é um ótimo exemplo de uma lenda judaica construída no exílio da Babilônia e incorporada na forma de pensamento judaica. O leitor mais acostumado com lendas da região ou de religiões afins nota claramente o papel do Calendário na narrativa, incluindo a presença dos 3 dias de escuridão e das 4 fases da Lua.

O cristianismo, no processo de canonização da bíblia, selecionou adições ao Livro. No original judaico, é importante a quase laicidade do texto. D’us não é mencionado. O jejum é feito em nome da própria Esther. E a protagonista é a própria Esther, que articula sua libertação e a libertação de todos os judeus. Na versão cristã, o protagonismo passa a ser de Mordechai, que tem um sonho premonitório, agindo como salvador de Esther.

A narrativa de certa forma concilia o comportamento ambíguo de D’us na figura do Rei Ahashverosh, que condena o povo judeu à morte em um decreto ao mesmo tempo em que assegura ao povo judeu, no decreto seguinte, o direito de lutar pela própria vida.
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Algum filósofo nietzschiano poderia ainda interpretar hoje em dia que D’us ao mesmo tempo cria presa e predador. Validando o comportamento de ambos, cabe a cada um agir conforme sua natureza. A natureza do povo judeu é manter-se unido para sobreviver.

Shbaa.

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