O príncipe que pensava ser um peru e o sábio que o curou sentando-se nu debaixo da mesa

peru

A seguinte história é creditada ao Rabino Nachman de Bratzlov, ou Rav Nahman Breslover, bisneto de Baal Shem Tov. Utilizava o conceito de hitbodedut, uma espécie de “solidão intencional” na qual a pessoa poderia conversar com D’us em voz alta, como se conversa com um velho amigo. Também apresentou o conceito de “retificação geral” (ou seria “retificação genérica”?). Através dos Tehilim/Salmos 16, 32, 41, 42, 59, 77, 90, 105, 137 e 150, poderia-se remediar pecados graves como o de “derramar a semente”. Se você é um dos “derramadores de semente”, sugere-se ler esses Tehilim/Salmos uma vez por dia em voz alta e em ordem.

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Why Aren’t Jewish Women Circumcised?, de Shaye Cohen

Captura de Tela 2016-11-26 às 15.07.10O livro do professor Shaye Cohen, PhD em História Antiga e rabino, usa a pergunta “Por que as mulheres judias não são circuncidadas?” para traçar a história da Aliança através dos séculos. Elabora sob diversas óticas o que era e o que é ser judeu em diversos tempos na História. E conclui encontrando identificando os aspectos principais do que é ser judeu e o que é a Aliança.

O livro se separa em duas partes de 4 capítulos cada:

Parte Um:

  1. A canonical history of jewish circumcision
  2. Were jewish women ever circumcised?
  3. Christian questions, christian answers
  4. From reticence to polemic

Parte Dois:

  1. The celebration of manhood
  2. The reduction of lust and the unmanning of men
  3. True faith and the exemption of women
  4. The celebration of womanhood

A primeira parte traz perspectiva histórica da circuncisão. A segunda parte, sendo a mais interessante, traz quatro respostas à pergunta do título. Por que não circuncidar as mulheres judias? Importa aqui a reunião de conceitos legais e culturais judaicos na construção das possíveis respostas. Contorna a crença cristã de que, ao substituir circuncisão por batismo, o cristianismo seria “mais inclusivo”.

Spoiler: diferente do que se pode imaginar, “a circuncisão não é” — conclui o professor Cohen — “um sinal maior da Aliança do que qualquer outro sinal da Aliança”.

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Shaar haKavvanot, de Isaac Luria

Kavvanah significa intenção: os pensamentos que deveríamos ter ao entoar cada prece, cada bênção, cada palavra. Nesse texto, Isaac Luria descreve não como se comportar fisicamente na prece, mas como se comportar mentalmente. Os pensamentos apropriados às ações da fé judaica. Esse livro é especialmente interessante, porque o judaísmo raramente separa ação e intenção. Normalmente, se a ação pode ser concluída, a intenção foi concluída. Ou, em outros casos, a intenção é até mesmo ignorada. O mundo físico é rei.

O título deste livro é diversas vezes traduzido como “Portal das Meditações”, pois é uma ideia próxima a nossa cultura atual considerar estes exercícios “meditações”. Todavia, as “intenções” são uma prática constante. A kavvanah não é um momento em que o judeu se retira de sua prática diária para “meditar”. Cada e toda prece judaica pede que a mente esteja sintonizada na “intenção” correta. Quer dizer, embora haja textos e desenhos — quase diagramas — associados ao Shaar haKavvanot, a prática sugerida não é a de meditar sobre as imagens em si, mas usá-las para compreender o estado mental correto para cada brachah, prece ou texto religioso.

Aos interessados em uma compilação coerente da cabala, Shaar haKavvanot faz parte dos trabalhos conhecidos como “Shemonah Shearim”, os “Oito Portais”. Servem de livro didático para um panorama sobre a visão da cabala a partir de 1600 EC. Os livros que fazem parte dos Oito Portais são:

  • Shaar HaHakdamot – Portal da Introdução / Portal Introdutório: Otztrot Haim, Eitz Haim, Arbah Meot Shekel Kesef, Mavoa Shaarim, Adam Yashar
  • Shaar Mamri RaShB”Y – Portal das palavras do rabino Shimeon bar Yochai
  • Shaar Mamri RaZ”L – Portal das palavras de nossos sábios
  • Shaar HaMitzvot – Portal das Mitzvot / Portal dos Mandamentos
  • Shaar HaPasukim – Portal dos Versos: Likutei Torah, Sepher HaLikutim
  • Shaar HaKavanot – Portal das Intenções: Shaar HaKavvanot, Pri Eitz Haim, Olat Tamid
  • Shaar Ruach HaKodesh – Portal do Espírito Santo
  • Shaar HaGilgulim – Portal dos Ciclos / Portal das Reincarnações
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Shaarei Kedusha, de Hayyim Vital

Raramente traduzido, ainda tenho dúvidas sobre a clareza das versões disponíveis em Inglês e Português.

Todavia, o Shaarei Kedusha traz anotações de Hayyim Vital, aluno de Isaac Luria, sobre o método de meditação cabalística. Segundo a obra, os métodos foram experimentados pessoalmente por Vital. A forma da meditação para acessar a sabedoria dos textos sagrados é particularmente semelhante ao que conhecemos hoje como incorporações.

O estudante deve meditar repetindo de forma ritmada um texto do “sábio” com quem quer falar. O “sábio” usará a alma do estudante como roupa e falará através de sua boca. Interessante que o estudante precisa fazer perguntas ao sábio enquanto a incorporação ocorre. Não se previu que haveria uma pessoa ao lado preparada para conversar com o sábio.

Ainda assim, é o mais próximo que há de literatura “aberta ao público” sobre evocações e invocações segundo a cabala judaica.

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As Árvores da Vida de Naruto

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Animes e mangás japoneses costumam ter uma simbologia bastante interessante e intricada. Contudo, diferente das obras ocidentais, a ficção oriental é, não raro, mais longa, concisa e detalhada que a ficção ocidental. Onde os quadrinhos ocidentais possuem pequenas histórias que raramente desenvolvem seus personagens ou os colocam em uma estrutura que possua início, meio e fim, os mangás e animes japoneses tendem a ter longos arcos que, a pesar de fechados em si mesmos, progridem a história como um todo. Mas fica a questão – se formos analisar esotericamente esses arcos, como podemos descrever essas estruturas?

Bem, certamente que podemos descrevê-las a partir da árvore da vida hermética e também da Jornada do Herói. Tanto a estrutura dos Arcos individuais de um mangá segue a Jornada do Herói quanto a estrutura geral das obras tende a fazê-lo também. Porém, algo se perde nesse meio.

Vejamos.

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Shaar haGilgulim, textos de estudo de Isaac Luria, Yitzchak Bar Chaim, Samuel Vital e Hayyim ben Joseph Vital

É na verdade um conjunto de textos de diversos autores que discorreram sobre a reencarnação do ponto de vista judaico. O conceito tanto significa o ciclo de vida e morte do corpo humano, como os pequenos ciclos dos nossos anos, meses e rotinas diárias. O judeu pode cumprir um gilgul — literalmente ciclo ou roda, traduzido como “encarnação” — mudando de profissão, se divorciando, acompanhando um filho crescer. A obra apresenta também a ideia de fim-dos-tempos, quando nenhuma reencarnação, nenhum giro da roda, seria mais necessária.

Separado em 36 capítulos, trata desde o básico, como os nomes para a alma, até o fim-dos-tempos e a retificação da alma de Caim. Há trechos curiosos, como o que garante que quem der comida imprópria (não-kasher) para um judeu comer reencarnará como uma folha de árvore.

Pela complexidade da obra, versões traduzidas da obra são difíceis (e caras) de se adquirir. Há diversas versões em inglês disponíveis online. Deixo sugestão de versão comentada em: http://www.kabbalaonline.org/kabbalah/article_cdo/AID/378771/showall/1

Também há versão com comentários disponíveis através do site do Chabad Online: http://chabad.org/.

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Cabala Judaica #20: Qual sou eu?

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Uma amiga perguntou: Na cabala, eu sou Nefesh? Sou Ruach? Eu sou a que está em Malkuth? Sou quem está em Tifereth? Ou existe um ego verdadeiro em Kether? Qual sou eu?

É interessante pensar isso. A resposta, no judaísmo, é muito simples.

Podem ser 3 almas, 4 mundos, 7 corpos, 10 esferas, 22 caminhos. De tudo isso, a maioria das pessoas acha que é apenas seu corpo, que estaria em Malkuth. É possível mesmo acreditar que uma pessoa é só suas vestes, é apenas o vaso onde todo o mar espiritual se deposita?

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A Cabala e a Mística Judaica, de Gershom Scholem

Captura de Tela 2016-11-26 às 14.51.02Se existisse uma Escola de Frankfurt para estudos de mistiscismo judaico, essa escola teria sido liderada por Gershom Scholem. Scholem foi amigo de Walter Benjamin. Era historiador, teólogo e filólogo.

O princípio para os estudos dirigidos por Scholem era o de submeter a mística judaica à disciplina da Filologia e da História. Assim, o autor nos apresenta uma cabala viva, mutável e histórica, longe da imposição dogmática. A cabala judaica atual é apresentada como fruto de uma luta entre o monoteísmo e os mitos, luta a qual o monoteísmo nunca conseguiu vencer de forma plena.

Na tentativa de evitar os conflitos doutrinários, o judaísmo escolheu apagar ou esconder o mistiscismo, na tentativa de evitar que o poder fosse imposto de cima para baixo. E, como ato final de conciliação, o judaísmo teria reduzido D’us a um conceito filosófico, impedindo que pudesse ser ator e permitindo que pudesse ser discutido abertamente.

É importante notar que, para Gershom Scholem, em sua interpretação cabalística, o mal não existe. O que chamamos de mal é a ausência do bem, a fronteira do humano. Nossa noção de bem e mal, segundo Scholem, vem mais do neoplatonismo do que de possíveis ligações com o dualismo do zoroastrismo.

É uma visão otimista, mas fundamentalmente judaica.

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A Primeira Família em um trem que nunca vai chegar

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Aquilo que entendemos como “o Mal” nos acompanha desde sempre. Ou desde que o tempo é tempo. Em Adão e Eva, em Caim e Abel. A cada momento em que nos desconectamos do Todo; quando deixamos a humanidade de lado. Sitra Ahra. O Outro Lado. As qlifot, kelipot, qliphoth. As cascas.

A ideia não sabe bem ao judaísmo. Já vimos isso antes. Foram estudantes contemporâneos de outras vertentes da magia que catalogaram e nomearam as cascas. O conceito é antigo, mas, apesar de tudo, ele nunca foi realmente necessário aos judeus para compreender a cabala.

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