A Cabala e a Mística Judaica, de Gershom Scholem

Captura de Tela 2016-11-26 às 14.51.02Se existisse uma Escola de Frankfurt para estudos de mistiscismo judaico, essa escola teria sido liderada por Gershom Scholem. Scholem foi amigo de Walter Benjamin. Era historiador, teólogo e filólogo.

O princípio para os estudos dirigidos por Scholem era o de submeter a mística judaica à disciplina da Filologia e da História. Assim, o autor nos apresenta uma cabala viva, mutável e histórica, longe da imposição dogmática. A cabala judaica atual é apresentada como fruto de uma luta entre o monoteísmo e os mitos, luta a qual o monoteísmo nunca conseguiu vencer de forma plena.

Na tentativa de evitar os conflitos doutrinários, o judaísmo escolheu apagar ou esconder o mistiscismo, na tentativa de evitar que o poder fosse imposto de cima para baixo. E, como ato final de conciliação, o judaísmo teria reduzido D’us a um conceito filosófico, impedindo que pudesse ser ator e permitindo que pudesse ser discutido abertamente.

É importante notar que, para Gershom Scholem, em sua interpretação cabalística, o mal não existe. O que chamamos de mal é a ausência do bem, a fronteira do humano. Nossa noção de bem e mal, segundo Scholem, vem mais do neoplatonismo do que de possíveis ligações com o dualismo do zoroastrismo.

É uma visão otimista, mas fundamentalmente judaica.

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A Primeira Família em um trem que nunca vai chegar

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Aquilo que entendemos como “o Mal” nos acompanha desde sempre. Ou desde que o tempo é tempo. Em Adão e Eva, em Caim e Abel. A cada momento em que nos desconectamos do Todo; quando deixamos a humanidade de lado. Sitra Ahra. O Outro Lado. As qlifot, kelipot, qliphoth. As cascas.

A ideia não sabe bem ao judaísmo. Já vimos isso antes. Foram estudantes contemporâneos de outras vertentes da magia que catalogaram e nomearam as cascas. O conceito é antigo, mas, apesar de tudo, ele nunca foi realmente necessário aos judeus para compreender a cabala.

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A Viga Milagrosa de Ben Mendelsohn

Esta história é falsa.

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Numa tarde em Vilna, o grande rabino Ben Mendelsohn, conhecido Shem Tov de Julz, chegou à cidade debaixo de chuva.

Parou em frente à estalagem e esperou que o dono o saísse para recebê-lo. Lá dentro, Piotr, dono da estalagem, se ocupava em organizar os hóspedes que se amontoavam próximos à lareira.

O grande rabino Ben Meldelsohn, irritado, mandou chamar o dono da estalagem, mas Piotr deu de ombros e pediu que um criado mandasse o velho à porta entrar sozinho.

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Shulkhan Arukh, “Mesa Posta”, de Yossef Karo

A Mesa Posta — tradução literal do título — é uma compilação da Halachá que veio a substituir a Repetição da Torah (Mishneh Torah) escrita por Maimônides no século XII. Escrita por Yossef Karo e publicada no século XVI, é aceita pela maior parte das congregações judaicas ortodoxas.

Divide-se em

  1. Orach Chayim – leis que regulam as preces, a sinagoga, o Shabbat e feriados.
  2. Yoreh De’ah – leis que regulam a alimentação, a conversão ao judaísmo, o luto; leis pertinentes à Terra de Israel e leis de pureza familiar.
  3. Even Ha’ezer – leis que regulam o casamento, o divórcio e demais assuntos relacionados como partilhas e heranças.
  4. Choshen Mishpat – leis que regulam responsabilidades fiscais e financeiras, danos (pessoais ou financeiros) e aquelas que regem o Bet Din — Tribunal Rabínico —, o comportamento do Tribunal e de testemunhas perante o Tribunal.

Cursor_e_SA-EE1b_pdfEm especial, é interessante obter uma cópia — ou imagens digitais — das páginas comentadas em hebraico que preservem a diagramação histórica da obra. É interessante ver como a grande quantidade de informação de diversos comentaristas se intercala. Isso tudo, séculos antes do que conhecemos como hipertexto. Mas a sabedoria do judaísmo funciona assim, em amarrações textuais e comentários sobre comentários.

 

Em livro separado ou — dependendo da versão — em um mesmo volume, os comentários do rabino Moshe Isseries indicam onde as tradições sefaradi e ashkenazi diferem e são conhecidos como mappah, a “toalha de mesa”, e são hoje compreendidos como a mesma obra.

 

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Meguilat Esther, O Livro de Ester, Torah

A narrativa de Esther é um ótimo exemplo de uma lenda judaica construída no exílio da Babilônia e incorporada na forma de pensamento judaica. O leitor mais acostumado com lendas da região ou de religiões afins nota claramente o papel do Calendário na narrativa, incluindo a presença dos 3 dias de escuridão e das 4 fases da Lua.

O cristianismo, no processo de canonização da bíblia, selecionou adições ao Livro. No original judaico, é importante a quase laicidade do texto. D’us não é mencionado. O jejum é feito em nome da própria Esther. E a protagonista é a própria Esther, que articula sua libertação e a libertação de todos os judeus. Na versão cristã, o protagonismo passa a ser de Mordechai, que tem um sonho premonitório, agindo como salvador de Esther.

A narrativa de certa forma concilia o comportamento ambíguo de D’us na figura do Rei Ahashverosh, que condena o povo judeu à morte em um decreto ao mesmo tempo em que assegura ao povo judeu, no decreto seguinte, o direito de lutar pela própria vida.
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Algum filósofo nietzschiano poderia ainda interpretar hoje em dia que D’us ao mesmo tempo cria presa e predador. Validando o comportamento de ambos, cabe a cada um agir conforme sua natureza. A natureza do povo judeu é manter-se unido para sobreviver.

Shbaa.

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Kabbalah e Êxodo, de Z’Ev Ben Shimon Halevi

Cursor_e_499011-MLB20470366548_112015-C_jpg__400×400_Às vezes, o texto de Z’Ev Ben Shimon Halevi beira o virtuosismo interpretativo. O autor consegue tirar grande número de interpretações de pequenos trechos do livro de Shemot/Êxodo. Mesmo que o leitor não consiga pescar todas as referências, é ótimo exemplo do palimpsesto que é a Torah para o povo judaico.

Palimpsesto é o texto escrito sobre outro texto, em pergaminho usado. Os mitos judaicos já eram, à época do exílio na Babilônia, identificados como misturas de mitos regionais. Acher foi excomungado por dizer isso, mas não foi esquecido. Talvez os grandes rabinos soubesse que alguém precisava dizer tal verdade.

Shimon Halevi não chega ao ponto de blasfemar sobre o judaísmo, mas o bom leitor saberá que ele se refere a mitos externos durante boa parte das interpretações apresentadas na obra. O texto desta coluna “A Criação dos Quatro Mundos e suas Inconsistências” segue as ideias de Shimon Halevi sobre a criação dos mundos.

Shbaa.

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Os Judeus e as Palavras, de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger

Cursor_e_judeus_palavras_-_Pesquisa_GooglePai e filha seguem a longa tradição do debate transgeracional no judaísmo, buscando entender a relação dos judeus com o texto mesmo antes da escrita da Torah propriamente dita. O texto escrito no judaísmo é importante simbolicamente por ser fixo. Mesmo o judeu iletrado aprendeu a decorar a palavra da Torah, repetindo-a para seus filhos e netos. Essa imutabilidade da palavra escrita contrasta com a tradição do diálogo sobre a interpretação da Lei. Se a palavra é fixa, sua interpretação é viva: carrega não só o significado original, mas seu significado histórico e o significado que precisa ter para a vida do judeu hoje.

O livro se separa em 4 capítulos:

  1. Continuidade
  2. Mulheres vocais
  3. Tempo e atemporalidade
  4. Cada pessoa tem um nome; ou os judeus precisam do judaísmo?

O segundo capítulo traça uma visão não-romântica sobre o papel da mulher no judaísmo. Mulheres do povo e mulheres estudiosas de famílias abastadas. A religião institucionalizada parece ter suprimido a voz feminina (literal e metaforicamente), enquanto a religião do povo parece não ter se importando em fazer calar as mulheres.

Usando o Talmud contra ele mesmo, os sábios talmudistas registraram que “das 10 partes da fala, a mulher ficou com nove”. Poderíamos deduzir que se há um Talmud escrito por homens, há nove que as mulheres nunca tiveram permissão de escrever. É sabedoria demais para se perder assim.

O terceiro capítulo interessa para compreender a relação do judaísmo com o tempo — tempo cronológico, mítico e até mágico. As noções de início e fim dos tempos. A relação entre memória e história.

Um ótimo livro para ver como a palavra hebraica adquiriu função análoga à do código genético na sobrevivência do povo judeu.

Shbaa.

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Cabala Judaica: Indicações 2016

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Referências para o iniciante nos estudos da cabala

Judaísmo e cabala. Dois assuntos interligados. A cabala, mesmo para os judeus que não creem em D’us, molda a tradição e o pensamento judaico. E o judaísmo, mesmo para os que operam a cabala apenas como ferramenta mágica, é chave para decifrar os símbolos e a gramática da Criação.

Separei cinco livros sobre judaísmo e cinco livros sobre as raízes da cabala, para construção de um vocabulário operacional útil ao estudo autônomo, independente, questionador da magia por trás do que chamam de cabala judaica. Vou listar os livros neste post e, a cada semana, indico um pouco sobre como ler ou o que procurar em cada uma dessas obras.

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Sukot e Ushpizin, hospitalidade e os antepassados

“Ushpizin” significa convidados ou visitantes em aramaico.

Estamos no final do festa de Sukot, “Tabernáculos”.

A festa de Sukot é uma celebração dos antepassados e dos tempos em que os hebreus vagaram no deserto. Uma vez era uma celebração de extrema importância no ano judaico. Hoje é lembrada, mas pouco ritualizada. Conta-se que, quando Shammai, rabino que viveu entre 50 aEC e 30 EC, soube que sua nora havia lhe dado um neto, destruiu o quarto onde ela e o bebê estavam, deixando apenas a cama intacta. Em seguida, erigiu em torno da cama uma sukah, a tenda debaixo da qual se comemora sukot, para que o neto pudesse participar da celebração de forma apropriada.

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Cabala Judaica #19: A Gramática da Criação

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Tem gente que diz estudar magia, cabala especialmente, e não sabe colocar vírgulas em uma frase. Gente que se vangloria de praticar algum exercício mágico diariamente há 10 anos e não sabe que aquele “há” tem “h” e acento agudo.

cabala etz chayim cf. Isaac LuriaEsses dias, em conversa informal com os colegas deste blog sobre indicações de leitura, respondi que minha sugestão de livro para quem quisesse ser um mago cabalista deveria ser uma Gramática. Resolvi me justificar por escrito. Primeiro, porque achei interessante que minha indicação para um estudo judaico dito “de mão direita” tenha sido um livro didático, enquanto a indicação do meu colega “da mão esquerda” foi um livro de Literatura. Segundo, porque entendo que, embora todos nós entendamos que deva haver liberdade e intuição na prática espiritual, isso não significa que não deva também haver regras.

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