“Onde está você?” e “Onde está seu irmão?”

Paralelos e atemporalidade do texto

“Onde está você?” é a pergunta de D’us para Adão, em Bereshit/Genesis 3:9, logo após Adão comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

“Onde está seu irmão?” é a pergunta de D’us para Caim, em Bereshit/Genesis 4:9, logo após este matar Abel.

O paralelo é importante. Mesmo que os dois tenham sido punidos pelo que fizeram, o erro (crime ou pecado) são bem diferentes. Adão desobedece uma ordem direta de D’us, come da árvore que está no centro do jardim. D’us o chama e ele está escondido por “vergonha” (dizem, vamos ficar com essa resposta agora). É claro que D’us, onisciente, onipresente e tudo mais, sabe onde está Adão. D’us dá uma oportunidade para que Adão retorne a D’us. Adão retorna, admitindo seu erro.

Já quando Caim mata seu irmão, D’us pergunta sobre seu crime. Obviamente D’us sabe o que Caim fez (onisciente, onipresente e tal), mas Caim não aceita a oportunidade. Ao contrário, escolhe se afastar de D’us.

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Vontade de morrer

A discussão sobre a definição de Vontade nos estudos contemporâneos da cabala parecem sempre girar em definições circulares, como um ralo que nunca esvazia a pia.

Tentei condensar a explicação em algumas metáforas simples. A questão é que “vontade” é uma palavra usada no dia-a-dia, mas não está aqui com esse significado cotidiano. Isso acontece com termos técnicos.

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Demônios imaginados: os Shamashim

Em Chanuka, o costume judaico é acender um candelabro, chamado chanukiah, com oito velas. Chanuka é uma festividade de 8 dias. A cada noite acendem-se o número de velas do dia respectivo. Uma na primeira noite, duas na segunda noite, três na terceira… Mas, se você prestar atenção, verá que as representações da chanukiah têm 8 velas. A chanukiah de verdade tem 9 velas. A nona vela é chamada de shamash.

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É permitido fumar: o lugar do pecado na prática espiritual

Alguém perguntou sobre o cigarro no judaísmo. Sendo o suicídio condenado na religião judaica, alguém perguntou, não seria o fumo uma espécie de suicídio lento e portanto proibido? Nosso rabino respondeu que não, e acendeu seu cigarro.

Há uma questão (taxonômica talvez) aqui: quão devagar seria permitido causar mal a si mesmo e ainda não ser classificado como “suicídio”? Quero dizer, seria permitido pelo judaísmo, em algum grau, fazer mal a si mesmo? Aqui me parece que há a questão do ponto de partida e do caminho desejado.

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O Holobionte e a Practognose

Holobionte: ser vivo (teórico) formado pela soma de organismos (micro e macro) que estão em simbiose. Nós, nossas bactérias e nossos vermes.

A discussão sobre o conceito não é tanto se a teoria está correta, mas, sim, se ela é necessária. Não vale a pena simplesmente aceitarmos que consciência e decisão não são tão individuais assim?

Practognose: conhecimento prático e corporal que precisa ser acessado sem a consciência/cognição, porque é interrompido por processos cognitivos conscientes. Quem dança ou pratica artes marciais entende bem o conceito.

O termo foi cunhado por Merleau-Ponty, mas não costuma ser muito utilizado fora de estudos específicos. É mais fácil encontrar o termo “apractognose”: incapacidade de por em prática habilidades motoras, como vestir as roupas. Diferente de falta de coordenação motora ou falta de cognição, a apractognose aparece na aplicação da ação nessas habilidades do dia-a-dia, que deveríamos ser capazes de fazer sem problemas, mas que, por algum motivo, quem sofre de apractognose não é capaz de completar.

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