O sofrimento por uma perspectiva pagã

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Muitos estão tocando no ponto do sofrimento e dos desafios que as religiões propõem às pessoas. Embora muitos autores contemporâneos façam sua própria lista de “atitudes” que um pagão deva tomar, discorrem muito pouco sobre o sofrimento ou por que ele existe no mundo – mesmo possuindo algumas fontes antigas girando em torno do tema. Esta é uma reflexão à partir da minha vivência como pagão.

Imagem destacada: “A Morte de Baldr”, por Nataša Ilinčić

Realmente, talvez na antiga Escandinávia houvesse um pragmatismo que deixava pouco tempo disponível para crises existenciais – afinal, o trabalho no campo era duro e amanhã poderia ter um clima ruim que afetasse sua plantação. Mesmo assim, o tema era abordado nas eddas e sagas; apesar de ser pouco apontado pelos autores atuais, penso ser importante de ser discutido, ainda mais quando lidamos com uma religiosidade que se baseia em um ponto de vista que muitas vezes conflita com o vigente hoje em dia. Afinal, uma criança perguntando “por que temos tempestades que destroem nossa plantação?” poderia estar induzindo uma reflexão sobre isso também.

Um heathen deve em primeiro lugar olhar para a Natureza ao seu redor e tentar se reconectar com ela. Entendê-la como sagrada, bela, uma dádiva. Porém, é parte de seu entendimento ver o quanto ela é terrível, que ela tem sim “tempestades destruidoras” – tanto em seu aspecto climático, quanto metafórico. Podemos buscar essa compreensão ao olhar para os animais – ver como estes seres que são a forma mais primária que temos de consciência já sentem sofrimento. Pesquisas de biólogos nos mostram animais lidando com perda e processos de luto, ou com humilhação após perderem uma disputa territorial por exemplo.

E o pagão não quer “transcender” isso, pois seria se colocar “acima” (ou “além”) da Natureza – nós buscamos a harmonia com ela e a aceitar como é. Sofrimentos e dores fazem parte de seus ciclos, e podemos simplesmente assumir que nada é para sempre e tudo se remanifesta; um dia é da caça outro do caçador, e em algum momento as estações mudarão. A Roda do Ano, o calendário de celebrações sazonais, nos ensina sobre como existe o período de intensa expansão e atividade e aquele escasso onde nos recolheremos e estaremos mais vulneráveis. Para quem está acostumado com visões cheias de “glórias guerreiras” da Ásatrú, esta abordagem pode soar fatalista e desconfortável – mas não podemos negá-la, afinal faz parte da beleza do mundo natural. Não há também no paganismo germânico um compromisso em “remediar” o sofrimento; não apenas como parte da aceitação, como também quando consideramos conceitos de “hospitalidade” que exigiam uma via de mão dupla ao oferecer auxílio à alguém (o “hóspede” deve honrar o “hospedeiro” de alguma forma, e a ajuda pode ser negada à um “mau hóspede”).

Os próprios deuses, por também estarem submetidos às leis naturais (que podem afetar todos os Nove Mundos, não apenas Miðgarðr), passam por diversas situações pesarosas. Þórr já passou por derrotas humilhantes, posteriormente se irritando com a mera menção destes acontecimentos; e temos o luto de Frigg após a morte de Baldr como um grande exemplo de como os deuses também precisam lidar com o pesar. A humanidade é um reflexo dos deuses (ou os deuses são um reflexo da humanidade, como preferirem) – então não podemos esperar escaparmos de dores também.

Também não podemos esquecer do Urðr. O pagão é aquele cujos atos falam mais que suas palavras, e o Destino é inexorável. Muitas vezes nossas ações não terão as consequências mais confortáveis, e Óðinn nos lembra que tudo possui um preço; se não estamos prontos para pagá-lo, não devemos requisitar nada. Embora a máxima “é melhor não pedir que sacrificar em demasia” seja normalmente tomada para oferendas (blót) e outras práticas ritualísticas, podemos estender sua interpretação para as decisões que tomamos em nossas vidas.

“Melhor não pedir/do que sacrificar em demasia,/a dádiva sempre busca pelo pagamento;/melhor não enviar/do que desperdiçar em demasia.” – Hávamál (“Palavras do Altíssimo”), stanza 145; trad.Elton Medeiros

O pagão não vê o sofrimento como uma “punição” ou como algo a ser evitado; é parte do Universo, algo que os próprios deuses estão submetidos. Você pode se mudar para Ásgarðr, que o sofrimento ainda estará presente – apenas em um novo endereço. A Ásatrú reverencia e se reconecta com o mundo natural e suas leis, e consegue enxergar a natureza como uma belíssima dádiva – em sua parte que nos beneficia ou reconforta e em suas dores e tempestades, tudo como uma pequena parte dos ciclos que compõem a essência. Ao nos assumirmos como os donos dos nossos próprios atos, devemos estar prontos também para encarar nosso Destino e lidar com o preço daquilo que queremos ao invés de lamentarmos aos deuses.

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

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