Duas mulheres, com profissão, sem pais, nem maridos, circa 1.400 a.C.

midwivesQuando o Faraó decidiu mandar matar todos os meninos hebreus que viessem a nascer, mandou chamar pelo nome duas mulheres: Shifra e Pua.

— Shifra e Pua, façam com que não nasçam mais meninos hebreus vivos! Quando vocês foram chamadas às casas das mulheres prestes a dar à luz e for um menino, asfixiem-no e digam à mãe: “sentimos muito, mas seu filho nasceu morto”.

Para mim, o mais interessante não é nem a confiança que o Faraó tinha em sua própria voz de comando, mas o fato de essas duas mulheres terem profissão e não terem marido ou família registradas na Torah. Não é só curioso para mim. Isso deve ter atraído a atenção de diversos estudiosos ao longo dos anos, pois diversas tentativas de explicações aparecem nas discussões rabínicas.

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Verbos declarativos, o jussivo e o coortativo

Cursor_e_Photo_by_Clark_Young___Unsplash

Não, isso não é aula de português. Até porque isso é matéria que todo mundo deveria aprender na escola. Só vamos repassar um pouco a ligação do tema com cabala…

Não confundam com PNL, na mesma linha do post sobre Saussure e a conexão entre magia e linguagem, alguns verbos se distinguem do uso comum da língua por não apenas simbolizarem algo, mas serem essa ação. Essas são formas especiais de verbos declarativos.

Verbos declarativos são fáceis de identificar. Quando usados na primeira pessoa (eu), o uso do verbo indica uma ação e é essa ação ao mesmo tempo. Por exemplo, se eu digo “eu juro“, o verbo indica meu juramento e é o juramento em si. O juramento se executa no momento em que eu pronuncio o verbo.

Também pode ser: eu prometo, eu confirmo, eu aceito, eu nego, eu confesso, eu concordo, eu desculpo, eu insisto, eu proclamo.

Falar e agir são a mesma coisa.

De forma semelhante, o verbo jussivo é o uso do verbo para fazer um pedido. Em hebraico, o verbo é conjugado no chamado “imperfeito”; em português, a tradução normalmente é feita colocando o verbo no modo subjuntivo. Em ambos os casos, o contexto é que auxilia na identificação do verbo jussivo. Ele aparece como reforço de um desejo ao se dirigir a quem pode satisfazer esse desejo.

São exemplos: lembre-te de tua promessa, queira o Rei ser piedoso, tragas* dinheiro e prosperidade.

*diferente do imperativo, que é uma ordem, o jussivo se mantém no presente do subjuntivo.

Já o verbo coortativo é aquele que indica a vontade do falante em fazer uma ação. No hebraico, ele aparece na primeira pessoa, não raro, no plural. Na tradução ao português, é comum colocar o verbo no futuro. “Desçamos e confundamos” é coortativo (Genesis/Bereshit 11). O plural costuma confundir. O verbo pode ser interpretado como uma ordem (“vocês desçam e vocês confundam”) ou como uma indicação de promessa de que o falante tomará tal ação (“eu descerei e eu confundirei”). Por isso, o papel dos anjos na confusão das línguas em Genesis/Bereshit 11 sempre foi um problema.

São exemplos de uso coortativo: observarei tuas leis, firmaremos uma aliança, chegarei em casa antes da meia-noite.

Algumas vezes, as traduções colocam o verbo “quero” (“quero observar tuas leis”), mas isso me parece enfraquecer o uso do verbo. Eu posso querer alguma coisa e nunca tomar nenhuma atitude a respeito. Mas o verbo coortativo claramente tem o objetivo de garantir as ações futuras, seja de si ou de outras pessoas. E, diferente do imperativo, não é uma ordem, mas uma declaração de vontade.

Para que servem?

Parece óbvio, mas eu vou escrever assim mesmo. No uso da palavra em rituais, é necessário precisão. Eu sei que muito já se disse sobre como a vontade é importante e sobre como a emoção basta e sobre como o amor salvará a todos no final e blá blá blá. Então, tomem este texto como uma ferramenta. Ou melhor, como uma forma de calibrar as ferramentas.

Há diferença entre dizer:

  • Eu quero ter sucesso.
  • Eu juro que terei sucesso.
  • Eu terei sucesso.

Ou entre:

  • Eu quero que me tragas sucesso.
  • Queiras tu, ó entidade, que eu seja bem sucedido.
  • Teremos sucesso nesta empreitada.

A escolha do verbo altera o modo como a ação toma forma no mundo material. Ou, se tu não acreditas nisso, muda como ela é projetada para fora de ti. A atenção dispensada nesse planejamento de como a ideia se transformará em ação retorna em energia para o ritual.

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Entre o hebraico e o caos: Ferdinand de Saussure

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Tudo daqui pra frente é um truque elaborado para te enganar.

Parece normal, quando alguém quer estudar magia, que esqueça que nosso entendimento se sustenta em séculos de pensadores iniciados e leigos conversando entre si. Até mesmo de séculos em que não havia diferença entre o pensamento do leigo e o do iniciado. Nos estudos de cabala judaica, é importante compreender o pensamento de onde a ideia de magia das palavras se inicia: a palavra imanente ao objeto. A cabala sustenta que a palavra hebraica é tão pura e original que está diretamente ligada à essência imanente das coisas.

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Kohelet / Eclesiastes

Maravilhoso. No nome em hebraico, aquele-que-reúne, mas traduzido para aquele-que-professa. Dizem que são palavras do próprio Shlomo haMelech, o rei Salomão, se dirigindo a uma assembleia. Linguisticamente, o texto se coloca entre 450aEC e 330aEC. A poética empresta palavras do persa e do aramaico. O conceito central, hevel é vapor, sopro. Traduzido como “vaidade”, deve ser entendido como “a qualidade de ser vão”. Todo o trabalho do ser humano sobre a Terra é vão, é vapor, é efêmero como o sopro.

Kohelet é um longo exercício de meditação em busca do sentido da vida através dos entremeios da poética e da retórica cabalística. A vida do ser humano é uma longa repetição de ciclos sem sentido. Ao mesmo tempo, Kohelet destrói a própria imagem do Humano na criação, insistindo que o girar da terra, o nascer do Sol, o fluxo dos rios, o caminhos dos ventos, tudo reduz o Humano a sopro, vapor, vaidade. Não só. Mas a vaidade das vaidades, construção idiomática para superlativo: a coisa mais vã que pode existir.

P.S.: Ignorem os versculos Kohelet/Eclesiastes 12:9–14. Esse não é um texto religioso.

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O príncipe que pensava ser um peru e o sábio que o curou sentando-se nu debaixo da mesa

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A seguinte história é creditada ao Rabino Nachman de Bratzlov, ou Rav Nahman Breslover, bisneto de Baal Shem Tov. Utilizava o conceito de hitbodedut, uma espécie de “solidão intencional” na qual a pessoa poderia conversar com D’us em voz alta, como se conversa com um velho amigo. Também apresentou o conceito de “retificação geral” (ou seria “retificação genérica”?). Através dos Tehilim/Salmos 16, 32, 41, 42, 59, 77, 90, 105, 137 e 150, poderia-se remediar pecados graves como o de “derramar a semente”. Se você é um dos “derramadores de semente”, sugere-se ler esses Tehilim/Salmos uma vez por dia em voz alta e em ordem.

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Os 100 primeiros posts

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Vencemos a marca de 100 posts, e o blog cresce de forma consistente.

Os posts do nosso Desmond Desfables apresentam forte fundamentação teórica sobre diversos aspectos da magia. O post sobre O Mito da Frequência 432 Hz foi o mais acessado do blog, tendo quase o dobro de acessos do segundo post mais visitado. E quase todas suas visitas vieram por busca orgânica a partir do Google. Isso garante ao Platinorum novos leitores diariamente. Desmond já tem novos mitos engatilhados para serem analisados em breve.

O segundo post mais visitado foi o de Magia Prática Nórdica. E o terceiro post mais visitado foi sobre os Sete erros mais comuns de iniciantes e avançados em magia. O post se tornou um dos mais visitados principalmente pela indicação em link por parte da Asatru & Liberdade, a quem agradecemos por divulgar nossos trabalhos.

Não é à toa que a categoria mais visitada é /asatru. Ravn permanecerá dedicado a publicar conteúdo de qualidade em 2017.

Além da página no Facebook do Colégio Platinorum, sabemos que vocês já nos compartilham no Twitter, no Reddit, no Blogger, até no Google+ (que D’us o tenha) e no Stack Exchange (!?). No Tumblr, a entrevista com Bluefluke repercutiu muito bem, abrindo os caminhos para a divulgação do blog.

Agradecemos muito todo o apoio.

Espalhem a palavra!

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Why Aren’t Jewish Women Circumcised?, de Shaye Cohen

Captura de Tela 2016-11-26 às 15.07.10O livro do professor Shaye Cohen, PhD em História Antiga e rabino, usa a pergunta “Por que as mulheres judias não são circuncidadas?” para traçar a história da Aliança através dos séculos. Elabora sob diversas óticas o que era e o que é ser judeu em diversos tempos na História. E conclui encontrando identificando os aspectos principais do que é ser judeu e o que é a Aliança.

O livro se separa em duas partes de 4 capítulos cada:

Parte Um:

  1. A canonical history of jewish circumcision
  2. Were jewish women ever circumcised?
  3. Christian questions, christian answers
  4. From reticence to polemic

Parte Dois:

  1. The celebration of manhood
  2. The reduction of lust and the unmanning of men
  3. True faith and the exemption of women
  4. The celebration of womanhood

A primeira parte traz perspectiva histórica da circuncisão. A segunda parte, sendo a mais interessante, traz quatro respostas à pergunta do título. Por que não circuncidar as mulheres judias? Importa aqui a reunião de conceitos legais e culturais judaicos na construção das possíveis respostas. Contorna a crença cristã de que, ao substituir circuncisão por batismo, o cristianismo seria “mais inclusivo”.

Spoiler: diferente do que se pode imaginar, “a circuncisão não é” — conclui o professor Cohen — “um sinal maior da Aliança do que qualquer outro sinal da Aliança”.

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