Sobre Consagrações – ou tornando objetos mágicos

Em um treinamento magístico conforme realizado por ordens ou mesmo covens, logo depois de aprendermos um ritual de banimento somos ensinados algum feitiço de consagração. Este ato, que separa um objeto comum para o uso na magia, é um dos mais elementares e ao mesmo tempo um dos mais complexos dentro das práticas de um magista. Se trata do método que cria um Instrumento ritual, embora também seja aplicado para a criação de talismãs. Numa série de posts vamos discutir o porquê, buscando analisar detalhes e trazer ideias que possam aprimorar nossas práticas individuais.

 “Consagrar” se define como “tornar sagrado”, destacar aquele objeto do mundo comum e o aproximar de uma dimensão divina, elevada. Este termo carrega consigo a herança religiosa que diversos sistemas possuem; toda religião organizada terá seu ritual para tornar um objeto santo, apropriado para um altar, e que dali em diante só será empunhado cerimonialmente. Essa ideia também pode ser transportada para a magia talismânica, onde um objeto específico (um crucifixo ou outro símbolo religioso, um pergaminho inscrito como nas religiões asiáticas…) deve ser devidamente abençoado e então portado pelo usuário de maneira correta.

Alguns termos mais incomuns porém que eu particularmente gosto bastante são “encantar” e “despertar”. O primeiro nos lembra de algo mais “mágico” propriamente dito, o que pode contrastar com noções muito refinadas sobre sacralidade e relações espirituais que exijam devoção religiosa realmente; porém, remete ao fascínio e a beleza que aquilo que é imbuído de magia exerce sobre nós – seja pela presença de energias ali, ou por remeter ao nosso imaginário místico. A magia envolve algo que está fora do que entendemos como “mundo normal”, além da nossa compreensão material; às vezes isso envolve lidar com um encanto que nos traz uma sensação de maravilha, mas que nem sempre lembrará o êxtase de estar diante de divindades celestiais. Uma faceta da magia que está ligada a um aspecto invisível mas ainda assim muito terreno e próximo de nós, em contraste com o distanciamento que o divino possui.

Já “despertar” envolve uma noção mais animista de magia, onde tudo tem um espírito e usar um objeto na magia exige que o mesmo esteja em acordo com você. Muitas vezes existe a ideia de que um fragmento de pedra (como os cristais que usamos na magia) ou pedaço de uma árvore carrega o fragmento de um espírito maior em si, e esse poder se encontra dormente até ser devidamente avivado. Em outros casos, o objeto deve ser imbuído de essência vital para funcionar – assim recebendo um sopro de vida, que o torna “desperto”. É por isso que sistemas influenciados por esse pensamento vão preferir evitar materiais artificiais como o plástico.

Outro termo recorrente é “imantação”, que pode designar algumas especificidades dentro da prática. Vindo emprestado da física, em sua definição científica é o processo onde um objeto metálico é temporariamente imbuído com as propriedades de um ímã e foi escolhido justamente pelo fator de efemeridade. Seria quando através de ritual ou intervenção de entidades um objeto recebe temporariamente propriedades magísticas, atuando como uma bateria que logo acabará. Alguns desse tipo são “recarregados” posteriormente, enquanto outros descartados.

Mas quem afinal definiu todos esses termos? Qual está certo e qual está errado? Qual vai definir o que exatamente está sendo feito? Bom, aqui entramos no campo do “depende”. Embora, como já definimos, a operação em si seja a preparação de um objeto mundano para o uso mágico temos que ter em mente que sua metodologia é altamente paradigmática. Seria como afinar um instrumento musical – o método e a nota específica sempre dependerá muito de qual música vamos tocar. Cada um deles nos revela alguma visão bem específica da magia e nada excludentes, em minha prática pessoal mesmo eu poderia considerar que os Instrumentos que usam energias imanentes evocadas por mim ou propriamente minhas estariam “encantados”, pedras e itens como varinha (produzida a partir de um galho) estariam “despertos” e aqueles que envolveram rituais sazonais, entidades e divindades “consagrados”.

Aqui já passamos rapidamente pelos talismãs e a questão de por quanto tempo o objeto se mantém mágico, mas essas questões ficarão para o próximo encontro quando discutiremos método. Até lá, me contem: que nome vocês dão e como enxergam o método de imbuir magia a um item?

Até breve!

-Ravn

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