Porque estudar oráculos

A habilidade de “prever o futuro” ou “ler a sorte” sobre foi associada com magistas; em certos idiomas a origem de palavras que em português se traduzem para “feiticeiro” ou “bruxo” vêm de algo que designava ou adivinho ou oráculo (como “sorcerer” do inglês, que se deriva de “sors” – palavra latina que designava a resposta de um oráculo). Ainda hoje, é muito comum que um magista iniciante procurando orientação em grupos seja indicado a buscar um oráculo e estudá-lo em profundidade.

Mas por quê afinal esta habilidade é tão importante? Onde ela impacta no desenvolvimento e prática do magista? E afinal: como é que os oráculos funcionam? Irei expor aqui meu ponto de vista sobre essas questões.

Sim, o nome é por causa daquele Barnum

Patrick Dunn, em seu livro Postmodern Magic, nos aponta que todo oráculo é composto de afirmações que causam o “efeito Barnum” – algo que é dito de forma vaga e por isso se mostra verdadeiro em uma amplitude grande de situações. Particularmente, endosso mais esse ponto de vista do que argumentações que falam sobre os oráculos serem “arquétipos do inconsciente humano”; apesar de conterem imagens arquetípicas e simbolismos, todo oráculo é uma linguagem e está submetido ao seu contexto cultural. Sendo assim, não podemos associar seu funcionamento a algo universal e inerente a experiência humana.

Dunn segue nos dizendo que apesar das ferramentas oraculares fazerem uso do “efeito Barnum”, uma verdadeira divinação envolve um estado receptivo e de concentração profunda que nos permitiria eliminar o “ruído” das afirmações e encontrar quais símbolos realmente ressoam com o momento referido. Dessa forma também teríamos o conceito jungiano de “sincronicidade” em ação – aqui temos uma noção onde o significado atribuído a um evento importa mais do que suas reais causas e conexões com outros. É aqui que o emprego da intuição se torna necessário e que começamos a entender as contribuições que um oráculo tem a oferecer.

Conforme dito, os oráculos são uma linguagem – eles nos dão um terreno que nos permite dialogar com acontecimentos e pensamentos, atribuindo a eles uma representação concreta para que sejam refletidos. Embora a intuição possa parecer uma faculdade irracional, baseada unicamente no “sentir”, ela possui uma faceta racional que pode ser estimulada ao ter símbolos por onde possa falar. O estado de foco e abertura exigido numa leitura profunda de um oráculo também nos prepara para rituais que envolverão a manipulação de energias sutis e lidar com o invisível.

Também é debatível se oráculos necessitam ou não de passar por um ritual de consagração. A questão acaba passando da forma de trabalho de cada magista, porém existem pontos a se considerar: oráculos podem ser considerados instrumentos de medida para energias atuantes em um momento, e consagrar pode tornar a ferramente ainda mais sensível a elas. Além disso, muitos deles possuirão um vínculo egregórico muito grande e o ritual de consagração adequado também teria função de ativação diante dela, tornando-a mais próxima do oraculista através da ferramenta. Os oráculos propõem pegar todo o simbolismo com que trabalhos em nossa prática mágica e que expressam a cosmovisão das egrégoras que acessamos e os transformar em algo vivo e atuante, acontecendo diante dos nossos olhos.

Esse fator egregórico é algo que deve pesar muito na hora de escolher qual oráculo usar. Além de já lidarem com os ícones culturais de onde foram concebidos e portanto se voltarem a visões de mundo bem específicas, oráculos vinculados com egrégoras também exigirão acesso às suas respectivas chaves – o que é particularmente verdadeiro para aqueles que possuem ligações com religiões (como o yijing e – sim – as runas). No ocidente, instrumentos de cartomancia como o tarot e o Lenormand (ou “baralho cigano”) costumam a ser bem conhecidos e não terem uma implicância egregórica tão grande, embora seja comum encontrar baralhos de tarot que lidem diretamente com o hermetismo.

Por fim, penso que é importante nos atentarmos a uma mitificação excessiva quanto a história dos oráculos – muito comum particularmente com o tarot. É comum que as pessoas o associem com povos da Antiguidade e Escolas de Mistérios, quando a origem do baralho em si se associa com o mercado de arte da Renascença e seu uso como oráculo data da França do século 18 (a história do tarot em maiores detalhes é levantada na obra Alquimia&Tarot, de Robert M. Place, com link para compra em nossa bibliografia). Algo similar ocorre com as runas; os oráculos e peças para leitura usados antigamente pelas tribos germânicas possuíam símbolos desconhecidos e não chegaram a nós provavelmente por terem sido feitos em materiais perecíveis, e o oráculo rúnico conforme conhecemos foi concebido na década de 1980 (e por um autor que possuía pouco vínculo com o paganismo, além de não se manter nada fiel à simbologia nórdica…). O que dá a eficácia de um oráculo é o domínio do oraculista sobre sua linguagem e em determinados casos também seu vínculo com uma egrégora, não o quão ancestral ele é.

Encontrem a linguagem que desejam usar para falar consigo mesmos, com os acontecimentos e com o Universo e abram-se para as mensagens sutis. Atuem como tradutores e vinculem os eventos aos símbolos através dos oráculos. Não faz diferença se as respostas dos oráculos podem ser racionalizadas pelo Efeito Barnum ou a quanto tempo o que você usar foi criado – a magia não é inerente a eles, mas sim ocorre quando o oraculista sabe usar corretamente. Além de todo esse potencial de expandir nossa compreensão, essas ferramentas também possuem profundos usos rituais – porém isto ficará para o nosso próximo encontro.

Até breve!

-Ravn

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