A Mão Esquerda da Bruxaria

A bruxaria já teve inúmeras definições, redefinições, nascimentos e renascimentos no decorrer dos tempos. Dentro de um recorte que foca na Bruxaria Tradicional é possível encontrar diversas características em comum entre uma vertente e o outra e também curiosos pontos de encontro com o Left-Hand Path – uma vertente com maior influência do hermetismo e Thelema. Analisaremos essas semelhanças como uma forma de começar um diálogo entre esses dois caminhos mágicos.

llustração de
Christopher Orapello para a “Tradição Blacktree”: símbolos serpentinos ocorrem em ambas as vias

“Bruxaria” é um termo nebuloso e um guarda-chuva, e teremos que começar essa discussão escolhendo uma definição – que será “uma prática magística folclórica e de influência animista”; quaisquer contornos maiores que este dependerão de “quando” e “onde”. Também é importante sabermos que uma völva, um fjölkunningr e outros feiticeiros de períodos pré-cristãos não deveriam ser considerados como “bruxos”, uma vez que tal conceito começa a ser definido após a conversão; a bruxaria não é um sistema pagão, quanto mais uma religião – é uma abordagem específica da magia e dos paradigmas que a percorrerão. Por fim, para fazer o diálogo teremos como referências os livros “Um Guia à Bruxaria Tradicional” e “A Arte dos Indomados” (ambos com links em nossa bibliografia) para a bruxaria e o material da Order of Apep para o Left-Hand Path.

Embora muitas tradições de bruxaria tenham seus mitos fundacionais apontando para tempos passados, normalmente se trata de um sistema moderno que bebe de fontes folclóricas; o que nos dá um surgimento em um período próximo ao do LHP, em contextos semelhantes. Em ambos havia um descontentamento com os paradigmas e dogmas vigentes através do hermetismo, que se traduziu em um interesse pelos Mistérios Noturnos que o mesmo costuma a rejeitar. A ideia de uma iniciadora arquetípica feminina que nos conduz a uma jornada interior e abre o nosso acesso aos mundos externos está presente tanto na bruxaria quanto no LHP, algo muito destacado na ordem Dragon Rouge pela figura de Lilith e na Order of Apep pela “Dama Escarlate”.

Estes Mistérios consistem no reconhecimento daquilo que constitui nossa Sombra, do que é primal, instintivo; de reações que todos nós possuímos e se originam no subconsciente, se manifestando sem passar por nossa mente analítica. Ao invés de rejeitar esse lado “sombrio”, o Mistério Noturno o abraça e faz com que eles dialoguem com a nossa Consciência – assim, começa a surgir a intuição a partir de tudo aquilo que sabemos e compreendemos se conectando por via do instinto. É aqui também que encontramos a valorização do onirismo, de experiências em estados alterados e projeção astral – aquilo que poderia ser “incerto” em outras vias se torna uma forma de contato com nossos aspectos inconscientes e também com outras realidades.

Ícones diabólicos e posturas heréticas estão associadas com bruxaria também na cultura-pop

Com essa contastação é possível dizer que a rebeldia é algo que faz parte de ambos. É fácil encontrar paralelos entre o “Senhor-Bruxo” (uma entidade-guia e mentora da Tradição Blacktree) equiparado ao Diabo e o Lord of Darkness da Tríade Draconiana. Orapello e Maguire nos descrevem como essas entidades e arquétipos nos ensinam sobre nossa própria soberania pessoal, enquanto no LHP a moralidade apresentada pela Mão Direita é tomada como castradora. Ambos colocam o praticante como o senhor que possui autoridade sobre o seu entorno, que não reconhece autoridade que não a própria e encontra valores em aspectos muito primais e intuitivos que seriam rechaçados em outros lugares. Algo que pode trazer este poder é o conhecimento sobre as leis naturais que estão acima de tudo e da própria magia, que nos permitiria dobrar e direcionar seus fluxos ao nosso favor. É desse sentimento de rebeldia e soberania que também vem o sentimento de ser “O Outro” ou um pária, vindo também da perseguição (aberta e violenta no caso da bruxaria histórica) e descrédito de ambas (como algo “superficial”, “antiquado”, “inválido”, “sem base” ou mesmo “maléfico” e “impuro”) por parte das vias predominantes no ocultismo.

Apesar dessas intersecções, nenhum diálogo estaria completo sem discorrer sobre as divergências. Enquanto o LHP se foca em um processo de individuação e auto-aperfeiçoamento que levaria a um estado de divindade, a bruxaria só está preocupada com o “aqui e agora”; há um desenvolvimento pessoal como consequência dos Mistérios Noturnos, porém não necessariamente eles são o foco tampouco algum processo de deificação é buscado. Enquanto a bruxaria busca se “desviar da norma” com um apelo para a ancestralidade e se voltando à própria Terra, ao telúrico, o LHP busca um caminho alternativo para a “iluminação” (um “individuação”, ou “divinização”…).

Lilith pela Dragon Rouge: a Iniciadora nos Mistérios Noturnos

A bruxaria também é um caminho necessariamente animista, onde o espírito de cada elemento a sua volta é reconhecido e profundamente trabalhado; enquanto no LHP uma variedade de paradigmas em relação a entidades é aceito, do psicológico ao espiritualista (onde espíritos e deuses possuem existência externa reconhecida). O trabalho com elementos naturais (como ervas, madeiras e pedras) também é muito mais comum na bruxaria que no LHP.

Por fim, tenhamos em mente que esse diálogo é feito a partir de uma ideia de “bruxaria tradicional” concebida na década de 1960 e que deu início a diversas tradições e movimentos posteriores; em diversos lugares existem manifestações magísticas populares, realmente ancestrais, voltadas às raízes daquele povo – e não é meu objetivo falar delas. E essa intersecção existir não significa que a bruxaria é uma “manifestação da Mão Esquerda” ou algo assim – ambos se encontram em uma encruzilhada, e então escolhem caminhos diferentes que podem se cruzar novamente em algum momento. Não seria correto rotularmos uma via usando termos de uma lógica que não se alinha precisamente com a sua concepção. Estabelecer diálogo significa aprender através da semelhança e da diferença, e quem sabe encontrar o que um pode acrescentar ao outro.

Que os nossos Caminhos Tortuosos e Vias Esquerdas possam se cruzar novamente!

-Ravn

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