Quando surge algo mágico

Conforme avançamos em nosso aprendizado mágico, acabamos nos dando conta em algum momento que tudo possui uma camada oculta atuando sobre nós – que tudo é mágico. Porém, em um mundo onde tudo é mágico isso também significa que nada o é. Perde-se o referencial de comparação. Para que possamos distinguir com clareza um fenômeno ou ato mágico de um mundano, precisamos ter em mente uma definição do que é “mágico” também.

O exercício que envolve consolidar este referencial é uma imensa reflexão sobre nossas visões pessoais e paradigmáticas sobre a própria magia, e proponho aqui que me acompanhem nele.

Imagens do post: tiradas de “Mage: the Awakening“, retratam a “visão arcana” que detecta fenômenos mágicos

Os estudos ocultistas acabam nos dando um novo ângulo para ver o mundo; um mais vibrante, colorido, onde tudo parece falar (seja de forma apenas como uma metáfora para as energias em atuação, ou literalmente no caso de um paradigma animista). Aprendemos que qualquer grupo possui uma egrégora, que qualquer ação envolve uma troca de energias sutis, que estados alterados de consciência vivem acontecendo e que toda manifestação da linguagem (palavras, arte, performance…) possui poder. Como se o mundo por completo fosse mágico.

É muito fácil se perder nessa visão e perder por completo o referencial – então vemos pessoas tendo certeza absoluta que uma determinada cantora pop é um hipersigilo espalhando energias de Thanateros e que rituais complexos estão acontecendo em toda festa. O que então separa um momento mundano, um fenômeno natural, da manifestação da magia?

Entre os povos antigos muitas vezes as transformações da Natureza serão por si só mágicas, o que pode nos levar novamente a uma perda de referencial. Porém também é necessário apontar que eles enxergavam a magia com algo de surpresa e assombro (como na palavra inglesa “awe“); muito disso vinha de uma associação direta da magia com os espíritos e seu mundo invisível. A magia envolvia diretamente algo oculto, a ação e o resultado aquilo que é imaterial. Compreender tais manifestações envolvia entrar em contato com sua própria capacidade de sentir o que não é sólido, falar com o que não tem som – o que se liga perfeitamente com o fato dos nórdicos chamarem a magia de “sabedoria profunda“.

O que deveria saltar aos seus olhos quando busca traços de magia?

Tendo isso em mente, podemos começar a pensar o que é “mágico” a partir da capacidade que um fenômeno possui de vibrar a Outra Margem. Se algo é disperso demais, talvez adquira bastante repercussão astral através de ressonância e atraia espíritos de vibração semelhante – porém não há foco suficiente para causar uma manifestação, e por isso tudo ali segue apenas uma ordem mundana. No caso de fenômenos naturais ou mesmo um desencadeado pela ação social, uma série de fatores pode desencadear um acúmulo de determinada energia e assim gerar o foco – e aí ele conduz ressonância na Outra Margem e se torna mágico, como o caso por exemplo de clareiras de árvores sagradas ou casas assombradas. A qualidade da ligação de um local ou fenômeno com a realidade imaterial pode determinar se há o fator mágico ali ou não.

Mas e quando falamos de ações, como uma ritualística em si ou algo envolvendo performar ou exibir uma peça de arte? Nesse caso, podemos olhar para os desdobramentos dessa ação. Partindo novamente do paradigma ancestral, a magia está ligada com o imaterial e o que não é visto – o que está sob um véu. Aí podemos apontar que o “mágico” surge quando as mudanças e resultados vêm com “coincidências inexplicáveis”, situações e manifestações que parecem “fora de lugar”, que sem “algo” por baixo dos panos manipulando os fios certos não poderia ter chegado ali. Surge o espanto, o assombro, a admiração – olhamos para um fenômeno mágico.

Estas são conclusões tiradas principalmente tendo em vista a ideia de “fjölkyngi” sobre a magia; definições diferentes chegarão a lugares que apesar de parecerem similares trazem em si diferenças bem grandes. Para mencionar alguns exemplos, em um paradigma fora da visão animista a ausência da inerência dentro do natural implicaria em fenômenos só serem percebidos quando houvem alguém ali para presenciar; e enquanto para o paganismo “além do Véu” significa “em outro lugar” ou “em outro estado de existência”, para outras vias envolverá superar uma Ilusão e causar o choque com uma Essência. Por isso, nos digam: quando vocês estão buscando algo mágico, para onde orientam seus olhares?

Agradecimentos ao grupo do Telegram do Vortex Caoscast, que contribuiu muito para a discussão que formou este post!

-Ravn

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