Teoria Popmagick: RPG, atributos e mágic(k)a

“Popmagick” é um termo cunhado na magia do caos e popularizado por Grant Morrison (que também é quadrinista), e designa a apropriação de ícones da cultura pop para a prática magística. Embora este texto seja uma discussão mais conceitual, podemos dizer que ela faz parte da popmagick – usaremos ideias vindas do RPG de mesa para debater diferentes relações entre o magista e a própria magia.

Muitos de vocês já devem o conhecer o RPG de mesa (ou talvez tenham muita vontade de), porém vale a apresentação: o “rolling-playing game” (“jogo de interpretação de papéis”, em tradução livre) é um hobby onde cada jogador elabora um personagem que fará parte do grupo de protagonistas de uma história narrada por um “mestre de jogo”. Como o desenrolar da história dependerá da decisão dos jogadores e de jogadas de dados, seu resultado tende a imprevisibilidade – é uma história que é elaborada coletivamente, conforme cada passo é dado.

Para se jogar RPG é usado um “sistema de regras”, que determina como um personagem é criado e vence desafios, ditando o tom e o cenário da história. Embora muitos magistas tenham em seus corações sistemas voltados para cenários sombrios onde referências ao ocultismo possam ser encontradas, aqui nos voltados para o “Sistema d20” – aquele usado para o famoso e clássico Dungeons&Dragons. Nele, os personagens possuem seis “Atributos” que definem seus dotes físicos e mentais – e é para os segundos que devemos nos atentar, sendo eles “Inteligência”, “Sabedoria” e “Carisma”.

Usuários de magia são chamados de “conjuradores”, e devem usar um dos três como “Atributo-Chave” para determinar seu potencial mágico (o poder de um feitiço, quantos conseguem conjurar antes de ficarem esgotados e precisarem de descanso…). O “Atributo-Chave” também determina muito de como o conjurador enxerga a própria magia, e é aqui que podemos tecer paralelos entre eles e nós magistas. Vamos analisar o que cada um implica, dando inclusive exemplos arquetípicos da cultura pop e de autores ocultistas que julgo se encaixarem em cada caminho; para esta análise, optei por abordar o d20 em uma forma mais genérica (em detrimento daquela usada especificamente no D&D) para facilitar os paralelos.

FullMetal Alchemist: magia refletida em diagramas e equações

Inteligência: neste Atributo está o mago clássico da fantasia. É aquele que se debruça sobre tomos e traça diagramas complexos para compreender a magia, buscando técnicas muito precisas; sua relação com a magia envolve racionalidade. Cada passo é milimetricamente calculado, cada elemento constitui parte de uma grande equação. Para eles, a magia é praticamente uma ciência. Algo que não atenda critérios de estruturação dentro dessas teorias refinadas soará irresponsável, grosseiro ou mesmo inferior para aqueles que se relacionam dessa forma com a magia.

Dentro do ocultismo, podemos dizer que hermetistas seriam conjuradores que usam Inteligência como Atributo-Chave; suas práticas são baseadas em correlações complexas, não sendo raro encontrar muitas tabelas e diagramas em seus livros. É comum ver aqueles que optam por este caminho tentando dissecar símbolos, mitos e ritos para que se encaixem dentro da Árvore da Vida. Apesar disso, como autor podemos citar Peter Carroll, do “lado caoísta da Força” – formado em física e matemática, ele realmente racionalizou a magia e desenvolveu uma equação que explicaria seu funcionamento! Dentro da cultura pop, além dos já citados “magos clássicos” podemos mencionar Li Shaoran (dos mangás da CLAMP) e os alquimistas de FullMetal Alchemist.

John Constantine: o “Mago que Ri” e uma magia baseada em personalidade

Carisma: costuma a medir o magnetismo pessoal e a força da personalidade de um personagem. Para conjuradores, reflete aqueles que lidam com a magia conforme uma arte. Nem sempre teorias complexas e métodos sólidos serão o seu forte, mas eles projetam suas personalidades na magia e encontram poder no ato de “desejar”. Uma forma mais fluida e espontânea de se lidar com a magia, onde uma justificativa segundo sistematização complexa ou o favorecimento das condições externas muitas vezes são ignorados e a principal fonte energética de uma prática virá da capacidade do magista de projetar a si mesmo no ambiente macro.

Embora um de seus expoentes tenha aparecido aqui representando a Inteligência, os magos do caos (ou “caotes”) tendem a ressoar com esse caminho. Pragmáticos, encontrar resultados palpáveis muitas vezes importará mais do que discutir uma teoria ou a “forma correta” de executar uma prática; Tommie Kelly (autor de “Os Quarenta Servidores“) talvez se encaixe bem aqui. Austin Osman Spare, precursor da magia do caos com seu ZosKia Cultus e com uma forma muito mais poética de falar de magia, também se encaixa aqui. Na cultura pop, John Constantine (Vertigo/DC Comics) e Kinomoto Sakura (CardCaptor Sakura, da CLAMP) representam os conjuradores baseados em Carisma.

Yuuko: magia tecida pelo contemplar do destino

Sabedoria: um atributo um tanto que controverso, ele reflete a percepção do mundo e de si mesmo. Engloba sentidos e força de vontade. Para um conjurador, reflete uma magia que vem da observação das circunstâncias no seu entorno. A intuição adquire um papel importante aqui, e ao invés da magia se apoiar em teoremas ou na simples projeção de si ela conta com aquilo que é percebido como uma exigência do momento. A magia adquire contornos filosóficos, contemplativos, sendo que no D&D muitas vezes o atributo é associado com servos de divindades; dentro do ocultismo, é um caminho onde algum conceito de “destino” (como a urðr, o kharma ou o hitsuzen) pode ter um peso muito grande.

A magia pagã (em abordagens tradicionalistas ou reconstrucionistas) e tradições asiáticas (como o taoísmo esotérico ou o onmyoudo) normalmente tendem a esse caminho. Benebell Wen, uma autora taiwanesa-americana com um trabalho muito baseado em oráculos e no quanto as transformações entre os Céus e a Terra favorecem uma prática mágica, se encaixaria bem aqui. Entre personagens de ficção, podemos citar a feiticeira Ichihara Yuuko (de xxxHolic – sim, outro mangá da CLAMP…) e tanto Dr.Strange quanto sua Mestra Anciã (do Marvel Cinematic Universe).

Passada toda essa “conceituação popmagick”, lembrem-se que no próprio Sistema d20, a teoria da magia é baseado em uma “Perícia” chamada “Conhecimento (Arcano)”, baseada em Inteligência – independente do caminho escolhido, o estudo teórico sempre será necessário e se fará presente. Mas também tenham em mente que acima de tudo magia é linguagem e que sempre podemos dizer coisas novas com ela. Não importa se você gosta de teoremas, pragmatismo ou contemplação – sempre há algo diferente a se explorar, algum uso ou ideia que você nunca tentou.

Mas aproveitem esta conversa mais leve e reflitam: qual é o Atributo-Chave que você usa em sua conjuração?

-Ravn

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