“Onde está você?” e “Onde está seu irmão?”

Paralelos e atemporalidade do texto

“Onde está você?” é a pergunta de D’us para Adão, em Bereshit/Genesis 3:9, logo após Adão comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

“Onde está seu irmão?” é a pergunta de D’us para Caim, em Bereshit/Genesis 4:9, logo após este matar Abel.

O paralelo é importante. Mesmo que os dois tenham sido punidos pelo que fizeram, o erro (crime ou pecado) são bem diferentes. Adão desobedece uma ordem direta de D’us, come da árvore que está no centro do jardim. D’us o chama e ele está escondido por “vergonha” (dizem, vamos ficar com essa resposta agora). É claro que D’us, onisciente, onipresente e tudo mais, sabe onde está Adão. D’us dá uma oportunidade para que Adão retorne a D’us. Adão retorna, admitindo seu erro.

Já quando Caim mata seu irmão, D’us pergunta sobre seu crime. Obviamente D’us sabe o que Caim fez (onisciente, onipresente e tal), mas Caim não aceita a oportunidade. Ao contrário, escolhe se afastar de D’us.


Já discutimos o papel da Árvore na criação dos Quatro Mundos. Nela, a árvore é Da’at, entendido como Conhecimento, mas também como Penetração. Adão e Eva existiam em um estado ainda superior ao do mundo material e só depois de Da’at é que completaram suas jornadas ao mundo físico, Assyiah, o mundo da Ação.

De certa forma, a desobediência de Adão é parte do processo pelo qual ele precisava passar. Mas e Caim? Há algo de bom no assassinato do próprio irmão? Não sou eu a dizer que um assassinato é algo bom, mas o fato de ele não ter se arrependido e insistido em esconder o crime de D’us demonstra que ele tinha menos ainda consciência do que havia feito.


Geralmente tentamos encontrar uma comparação entre Caim e Abel, mas Abel é “efêmero”: hevel, vapor, vão. A palavra “vaidade” vem daí, tem o sentido de algo vazio, sem sentido. A vida de Abel foi efêmera, foi um sopro, e sua morte sem sentido condenou os irmãos a reencená-la em diversas reencarnações (mas isso é assunto para outro texto).

Caim era o filho mais velho e, portanto, quem receberia a herança dos pais. Caim seria dono de “tudo”. Mas, condenado a vagar, dá lugar ao terceiro irmão, Seth, o colonizador. O trabalho de Seth veio a ser o de estabelecer a fundação das cidades. Caim era nômade, Seth era sedentário.


Existe até mesmo essa interpretação “científica” da Torah. Adão era um coletor endêmico (se servir das plantas em um lugar fixo); Caim era o nômade, que se servia do que encontrasse; por um breve período de tempo, Abel foi um nômade que levava consigo animais de pequeno e médio porte; por fim, Seth obrigou-se a se estabelecer em um mesmo lugar, onde teria de trabalhar para irrigar o solo, manter lavouras e construir casas que durassem mais do que alguns dias.


Tanto Caim quando Seth tiveram herdeiros chamados Enoch (Chanoch, “dedicado”). Caim tem um filho ao qual dá o nome de Enoch e para o qual se sente impelido a construir uma cidade. Caim, o nômade, constrói uma cidade para seu Enoch… de certa forma, compreendendo que o legado de Seth seria mais adequado à humanidade. Já o Enoch de Seth é seu tataraneto (mais na verdade; é “o sétimo desde Adão”, através da linhagem de Noé). Enoch era tão bom, mas tão bom que D’us decide que a única maneira de manter Enoch puro é leva-lo consigo antes da hora.

Sim, D’us encurta a vida de Enoch para que este nunca se corrompa, dizem os comentários sobre a Torah. Para ser justo, não dizem que D’us matou Enoch, mas que Enoch saiu para caminhar e “foi levado”.


Seria essa uma explicação para a morte de Abel? Será que Caim via que o mundo físico iria um dia corromper Abel? Teria Caim visto sinais de corrupção já em Abel e resolveu se adiantar?


As discussões sobre a Torah não concluem, mas deixam algumas alternativas. A que eu gosto mais é assim:

Caim e Abel estavam discutindo sobre como D’us havia aceitado a oferenda de Abel e rejeitado a de Caim. Caim diz que a divisão do mundo havia sido injusta. Caim ficara com as coisas imóveis, Abel com as móveis. A terra era de Caim, as ovelhas de Abel. Na disputa, Abel teria dito “A roupa que usas é feita da lã das minhas ovelhas, me devolva agora!” Caim teria tirado a roupa, arremessado na cara do irmão e, pelado, teria respondido “O chão é minha propriedade, Abel, agora voa!”

Abel não voou, Caim matou Abel.


Existe uma interpretação “conciliadora”, se é que podemos usar essas palavras. Caim e Abel ficaram em dúvida sobre D’us ser justo ou bondoso. Sendo bondoso, jamais puniria alguém como devia. Sendo justo, não poderia ser bondoso, teria de punir as pessoas pelo mal que fizessem.

Abel propôs que cometessem um crime ao qual D’us não poderia se esquivar de punir.

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