Ame, Ame Desigualmente

Hoje me peguei pensando em vegetarianismo, e uma dúvida que os defensores mais fanáticos de uma doutrina vegetariana/vegana usam: “Se você ama seu animal de estimação, porquê come carne? A carne vem de animais também!”.

Não entrarei muito aprofundadamente nessa discussão, mas achei importante analisar um aspecto espiritual mais profundo da mesma.

O amor, deve ser dado igualmente a todos os seres?

Kibei

Crowley

Já diria o mago inglês: A Lei é Amor, Amor sob Vontade.

Alguns grupos espiritualistas detestam essa frase. Ao colocarem o Amor como a coisa suprema, a ideia de que ele pode estar limitado a algo, ou abaixo de algo, lhes parece diabólica e maldita. Mas será mesmo?


Amor Tóxico

A maioria das pessoas não experimenta amor em seu dia-a-dia. De fato, algumas sequer jamais experimentaram amor na sua vida. O amor é um sentimento que aparece no meio do peito – e que no cérebro humano se manifesta como uma liberação de certos hormônios, associados a sensações fisiológicas como um calor suave e macio pelo corpo, um bem-estar generalizado independente da situação em que se viva, e um contentamento alegre com a vida.

Aqueles que “amam demais” suas namoradas, por exemplo, mas só sentem sensações de ciúmes, desejo, posse ou prazer em tê-las, não, não as amam – as usam como método de escape da realidade, quase como usariam cocaína ou uma bela dose de ácido lisérgico.

O amor de fato é tão libertador e viciante, que podemos estar vivendo o que for, estar com o conflito interior que for, sentir a dor que for – ele ainda nos trará um certo contentamento, pacifismo e bem-estar com a vida e o mundo. Com o sentimento de amor presente, tudo que se vê no mundo parece mais suave, tranquilo e parte de um plano maior de existência – um que vai além do ser.

Mas isso também pode ser ruim.

Mãe, papai não vem?

Um Espírita em Maus Lençóis

Lembro claramente até hoje de um dia em que fui a uma casa espírita aqui da minha cidade. Lá, um homem de meia-idade, talvez se aproximando do seus quarenta anos, discursava apaixonadamente (naquela voz suave, sonhadora e levemente doentia dos locutores espíritas) sobre como amava a todos os seres igualmente, e como acreditava que aquela era a mensagem de Jesus.

“Amar igualmente a todos os seres” era a ideia dele de elevação espiritual. Tanto que, ao achar um menino de rua perdido por aí, passando mal e doente, ele decidiu resgatar esse menino, levá-lo ao hospital e ficar fazendo companhia a ele (que se encontrava inconsciente).

Vejam que não estou inventando. Isso é uma história real que ouvi em uma casa espírita.

Contudo, era aniversário do seu filho mais novo. A esposa chamou por ele pelo celular, e ele disse que não podia ir – pois estava cuidando do pobre menino de rua que havia encontrado.

A esposa, obviamente, ficou arrasada. Seu desejo era de que o marido estivesse ali na festa do mais novo – mas ele insistia que era mais importante que ele ficasse ali, em uma sala de hospital com um garoto que não conhecia e com quem nunca havia trocado palavras, pois isso era prova de amor.

Esse homem certamente amava. Amava de todo coração. E amava todos os seres igualmente – um menino de rua era tão amado por ele quanto seu próprio filho.

Mas vejam só, isso só significa que, perante cuidar do menino de rua que nunca havia visto na vida e passar tempo construindo e melhorando a relação que tinha com o próprio filho, ele preferia ficar ali com o menino – como faria se fosse um outro filho, ou a esposa.

Consequências

Relações humanas são construídas ao se relacionar. Uma pessoa que ama tão perdidamente e tão igualmente todos os seres pode se ver em centenas de relações – mas jamais se aprofunda em nenhuma delas.

Todos tem o mesmo valor, e isso significa que não há porquê dar valor especial a nenhuma relação – todas elas se tornam coisa de minuto, e o que resta, no fim das contas, é meramente uma solidão repetitiva.

O palestrante acima mencionado, à época, já demonstrava os sinais de depressão e solidão esperados de alguém com muitas relações, mas nenhuma delas significativa – olhos fundos de noites mal dormidas, um leve desespero na voz, um conflito mal mascarado entre si mesmo e suas ações ao contar a história de como havia deixado o filho de lado em prol de fazer companhia a um menino de rua.

Seu corpo era excessivamente magro, e um pouco doentio. Os olhos não tinham brilho, e a pele era levemente avermelhada, de um rosa-amarelo estranho.

Por fim, sua postura corporal era uma de quem está a ponto de se desfazer em cinzas. O peito estufado para frente era artificial, e as pernas que não demonstravam nenhuma firmeza se firmavam em pés mal posicionados no chão. Por fim, o quadril levemente tensionado para trás demonstrava as repressões a que ele se submetia.

Esse homem era doente. Amar a todos os seres é de fato algo libertador e que todos nós devemos aprender, mas amar igualmente é doentio – pois que todo amor deve ter uma função espiritual, muito mais do que meramente existir em função de si mesmo, ou de “ser uma boa pessoa”.

Hey, meu halo tá aqui em cima cara. Dá pra parar de só olhar pro meu peito?

O Espírito e o Amor

É quase herege, em uma época de exaltação do amor, dizer que o Amor pode ser daninho, tóxico, ou que deve cumprir uma função perante o espírito.

Contudo, tudo que existe, existe por um motivo. A existência de algo sem propósito, ou com propósitos torpes que, eles mesmos, só se justificam em medos, inseguranças ou sensos de dever seculares, é em si algo que poderíamos dizer ser uma qlipha, uma fornicação.

O Amor fornicante é aquele que serve para algum dos objetivos abaixo:

  • Tornar a pessoa “alguém melhor”.
  • Promover a paz entre os seres.
  • Melhorar a sociedade e o mundo.
  • Tornar alguém mais feliz.
  • Tornar os outros mais felizes.
  • Etc.

Coisas lindas, coisas maravilhosas? Sim, sim, completamente – para um mundo de terceira dimensão, onde os erros e excessos dos mundos superiores ainda são melhores do que as merdas que vivemos aqui.

Sofrimento Versus Expiação

Um mundo de terceira dimensão (como chamaríamos no espiritismo) não é um mundo de sofrimento. É um mundo de expiações.

As pessoas perdem pernas, passam por doenças, morrem, se fodem e passam por todo tipo de coisa horrível – mas não necessariamente sofrem por causa disso. Aqueles que nunca experimentaram amar, se sentirem livres ou de alguma outra maneira abrir o peito e provar o “néctar do amor” são, em si, incapazes de sofrer.

Os mundos de terceira dimensão são locais onde as pessoas passam por dor e coisas ruins – mas não necessariamente sofrem por causa disso.

Os mundos de quarta dimensão, contudo, esses sim são mundos de sofrimento – mundos onde coisas simples como quebrar a unha podem te trazer dores terríveis.

Sabe a comparação com as crianças que estão morrendo de fome na África? Os “problemas de primeiro mundo” ?

Quando uma pessoa sofre terrivelmente por não estar recebendo dinheiro suficiente para ir em todas as festas que quer, isso é um sofrimento típico de mundo de quarta dimensão. Quando a pessoa fica deprimida e se suicida porquê se acha inútil ou incapaz, isso também é típico de quarta dimensão.

Já quando uma criança africana morre de fome, isso pode ser ou não ser algo de quarta dimensão – dependendo de se a criança sofre por causa disso ou não.

Mas qual a importância disso?

Bem…

“Não é o sofrimento que te prende. É você que prende o sofrimento”

Amor, Sofrimento, e Amor Doentio

A ideia do sofrimento, em si, vem do peito – da mesma fonte de onde jorra o Amor. Quando bloqueamos o fluxo do Amor no peito, e ainda assim temos a energia-base que o gera e o espaço interior para que ele se manifeste, sofremos.

Em uma linguágem mais científica, podemos dizer que, tão logo tenhamos as conexões neurais sensibilizadas aos neurotransmissores relacionados a “amor”, em sua falta (por qualquer inibição que seja), passamos pelos sintomas de “abstinência” do mesmo.

Esses sintomas incluem depressão, sensibilidade exacerbada, vitimismo, obtusidade mental, incapacitação do ser para as tarefas mais simples, dispersão, perda de capacidade intelectual, perda de criatividade, perda do prazer de fazer qualquer coisa, e, claro, a crença pessimista de que tudo só vai ficar pior.

Isso pode ser explicado biologicamente, e também misticamente. Mas o importante é compreender que a Dor não é o Sofrimento – que ambos formam pares que parecem impossíveis de serem separados para a maior parte da sociedade atual, onde qualquer dor sentida é uma dor sofrida, mas a dor é meramente dor – o sofrimento é como a calda de miséria que jogamos por cima do sorvete que é a dor.

Assim sendo, os mundos de quarta dimensão (ou “orbes de quarto nível”) são justamente aqueles onde o Sofrimento se torna cada vez mais forte – pois os seres não sabem controlar o seu Amor.

Em termos biológicos, criamos conexões de amor com tudo ao nosso redor, até mesmo com aquilo que não devemos criar. Quando você ama de paixão uma foto antiga, ou uma pedra que recolheu em algum lugar, é impossível não sofrer por conta daquilo – porquê a realidade é que tudo passa e tudo se esvai.

O Amor apegado, ou o Amor dependente de quaisquer coisas que se manifestem nesse mundo, é em si a primeira forma e também a mais doentia forma de amor que a maior parte das pessoas sentem.

Neurologicamente, assim como Espiritualmente, esse tipo de amor gasta energia e molda as ações da pessoa de uma forma obsessiva, onde ela busca sempre proteger algo que, pela natureza do nosso mundo, ela jamais conseguirá proteger.

Nesse ponto, vale ressaltar os ensinos budistas – o apego é a origem de todo sofrimento.

Respeito é a base, tendo ele vem a apreciação. Com ambos, o reconhecimento. Então, o Suporte, e, dele, a Gratidão. Apenas com tudo isso há amor sadio, sentimento que se assenta no topo dessa pirâmide.

Amor Sadio

Ora pois, se tudo isso é amor doentio, isso é, amor que depende de coisas que um dia irão se acabar, e por isso traz sofrimento, o que é o amor sadio?

O Amor sadio é aquele que segue os ditames do Espírito – ou, como poderíamos dizer, que “vem do alto”, ou que “vem de deus”.

Mas o que isso significa?

Significa que, assim como a encarnação física tem propósito, também tem propósito todo prazer que sentimos, todo poder que temos… e todo amor que emitimos.

A fonte original do Amor não está nas coisas às quais somos apegados. Esse é um erro enorme – acharmos, por exemplo, que porquê amamos nossas mães ou namoradas, dependemos delas para sentirmos amor.

Ao contrário! O amor é meramente a liberação, o gozo de uma série de neurotransmissores no nosso cérebro. O que fazemos com o apego é inibir o amor, condicionando ele a certas condições.

Contudo, quando aprendemos a liberar o amor e retirar as inibições que colocamos por sobre ele, começamos a perceber que o amor tem intensidades, cores, gostos, sabores…

O amor que sentimos por uma certa pessoa não é o mesmo que sentimos por outra. O palestrante espírita de que falei mais acima cometeu esse erro – acreditou que tinha que sentir o amor mais apegado e condicional por todos ao redor – ao ponto de ficar ao lado de uma pessoa inconsciente, que ele não conhecia (e que poderia detestar sua presença), para “fazer companhia” para ela.

Ora pois, de onde veio a ideia nesse palestrante de que sua companhia seria algo bom? De onde vem as “ideias de merda” que tanta gente faz “por amor”, e só fazem besteira?

De uma mistura de apego com imaginação e projeções da imaginação.

Quando nos livramos disso, deixamos o Amor correr livremente e agimos alinhados com nosso Espírito, vemos que naturalmente o Amor se equilibra segundo as determinações de uma Força Superior.

Crowley chamou essa Força de “Whilt”, ou “Vontade”, no sentido de ser a “Missão Divina” ou a “Força Divina” que alimenta todos os seres.

A arte costuma ser um local onde podemos facilmente identificar aqueles cuja Vontade está relacionada a ela – pois é relativamente fácil identificar artistas que possuem níveis de habilidade impossíveis de se alcançar sem que a Vontade se manifeste. Ah sim, o autor desse .gif é cego 😉

Vontade

Mas de onde vem essa força? O que ela é?

Todos os seres possuem uma Essência – um algo pelo que seu Perispírito passa e de que se reveste para poder existir em um certo plano de existência.

Esse algo é como que uma engrenagem – não existe um plano de existência próximo ao nosso, e nosso mundo certamente não é desse tipo, onde existam pessoas inúteis ou sem propósito de existir.

Tudo na nossa realidade possui um lugar no universo, é uma engrenagem de uma grande máquina, ou um pequeno componente de um “grande computador”, que por sua vez é regido por diversas formas de Inteligências que o constituem – assim como nossas Mentes são feitas de diversas peças ou “engrenagens” que constituem a nós como Inteligências nós mesmos.

Nossos Espíritos, ao virem a um determinado Orbe como o nosso, assumem para si essa Interface, essa Essência ou Verdadeira Vontade, essa engrenagem do universo – e a partir dela, e só a partir dela, é que conseguem se manifestar aqui.

Qualquer ação que não passe pela Essência, pela Vontade, é em si uma ação de fornicação e que vem de reações quase “inorgânicas” de elementos materiais com o ambiente.

É neutra em sua orígem e só responde às leis de Ação e Reação, da mesma forma que uma pedra rolando morro abaixo depois de ser desgastada pelo vento.

Quando o Espírito se manifesta através da Vontade, ele molda o Amor, o Poder, o Prazer e a Existência do ser no plano físico de modo a alinhá-las com essa Vontade e consigo mesmo.

Isso é o “propósito” de que as coisas devem estar revestidas para serem espirituais, e também o motivo pelo qual o Amor deve estar sob a Vontade – pois, assim estando, ele se torna parte harmônica com o “grande mecanismo do universo” e, em si, se torna sagrado.

Tornando-se harmônico com esse mecanismo, o ser consegue progresso espiritual, bem-estar, evolução consciencial, prosperidade material, aumento da inteligência e da compreensão do universo, e, em outras palavras, saúde.

Já encontrando-se desarmônico com esse mecanismo, o ser adoece, morre, apodrece e “volta ao pó”.

Assim o é que, nesse mundo, aquilo que está revestido de Propósito consegue prosperar até alcançar o posto que lhe é Devido como parte das Engrenagens nesse Universo, assim cumprindo o que deve como “pagamento” pelo “empréstimo” da Vontade feito pelo Orbe ao Espírito.

Já se não manifesta esse Propósito, o ser perde paulatinamente o seu posto, e, sendo inútil ao Orbe e não fazendo parte do “Mecanismo”, é dissolvido em suas partes fundamentais para que uma nova tentativa seja feita de chegar onde se “combinou” com a inteligência do orbe que se chegaria.

Quando o Espírito domina o Amor, quando a Vontade está por Sobre o Amor, é quando o Amor se torna Sagrado, revestido de propósito, saudável e bom para a evolução do ser.

Se isso é certo? Auto-análise é sempre algo bom. Observe sua mente, se pergunte porquê acha que é certo ou errado. Muitas vezes rejeitamos ou aceitamos ideias sem notar que, lá no fundo, elas são mesmo pensamentos intrusos que se forçam por sobre nós.

Pergunte o motivo, e o motivo do motivo. E caso isso não ocorra naturalmente, pergunte-se o que você tem a ver com isso. Se coloque na equação, descubra como você está envolvido nisso. E aí as coisas vão ficando mais claras.

Cada uma é uma, diferentes todas das outras – mas às vezes parecem ser exatamente a mesma coisa

O Propósito e a Individualidade

Uma das coisas que ocorre com cada vez mais frequência em nosso Orbe é a sensação de que somos só mais uma máquina. De fato, ao desvendarmos o mecanismo da Vontade, podemos pensar isso. “Sou só mais uma engrenagem”.

Contudo, esse Orbe não faz desperdícios. Cada Engrenagem é diferente, cada Essência é diferente – mesmo que as diferenças sejam pequenas, os Fluxos Divinos que carregam cada um por esse Orbe serão diferentes para cada Essência.

Esse é o princípio da Individualidade e, perante ele, todos os que nesse plano de existência habitam devem se dirigir ao local que lhes cabe – ao menos caso queiram de fato fazer uso desse Orbe para sua própria evolução, ao invés de ficarem parados em Acídia, esperando o dia em que algo vai acontecer que lhes trará o desejo de evoluir espiritualmente.

Nada contra quem o faz, mas infelizmente isso não funciona por muito tempo. Como disse, esse não é um orbe que tolera desperdícios…

Pois bem. Ao deixarmos de manifestar a Essência, o Orbe deixa de nos suportar. Como que “retira o empréstimo” que fizemos para poder nos manifestar aqui, e nossos corpos vão adoecendo um a um – o físico, o mental, o astral, o espiritual próximo… em último nível, quando um ser é Degredado desse Orbe, isso significa que a Essência que lhe foi emprestada foi tomada de volta, e ele perdeu essa oportunidade.

Por isso não adianta culpar as falanges dos espíritos que estão aqui. O Degredo é um movimento de Expulsão das Inteligências do Orbe em si, daquelas forças que permitem a manifestação do ser nesse plano de existência e que tem todo o direito de tomar de volta aquilo que deram – pois esse é “o combinado”.

Somente por meio do Propósito, por meio da Individualidade, é que podemos alcançar um estado de Harmonia verdadeira com todos os seres – onde todo tipo de Doença, Sofrimento, Desarmonia e similares se desfaz, e todos os seres convivem em um mesmo fluxo espiritual de evolução.

Dessa maneira, da próxima vez que te perguntarem como você ousa gostar de um animal e comer o outro, veja se ao se alimentar você está o fazendo com Propósito.

Caso esteja, então responda que: “Cada animal é um. Cada humano é um. Cada homem e cada mulher é uma estrela”. Alguns você come, outros você ama com carinho e protege. Assim o é que ser humano ou animal, de tal ou qual classe ou raça, só importa aos que Fornicam constantemente – pois dois seres da mesma classe, espécie, e com qualquer e todas as semelhanças, ainda assim… são seres diferentes.

E, dependendo da Essência de cada qual, será a hora de comer ou ser comido pelo outro. “Os Escravos Servirão”… está você em um momento de ser Senhor ou Escravo? Sua Essência, perante as demais e dentro do Orbe como ele está hoje em dia, deve obedecer ou comandar ? Só seu Espírito pode responder.

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