Bardon

Bardon, tão famoso, tão bom, e difícil!

Existe um consenso dentre os praticantes de magia: os livros de Franz Bardon são difíceis!

Faz muito tempo que fui apresentado ao Iniciação ao Hermetismo, em uma rápida leitura vi que o livro é uma promessa grandiosa, cada capítulo apresenta uma teoria simples, exercícios de maneira didática e aparentemente, pelo menos para os incautos, simples. Cada capítulo também é um sistema de níveis a ser seguido e superado, passou o primeiro vai para o segundo, e assim por diante, tudo muito bem explicado, certo? NÃO! O tormento começa quando você inicia a obra, vai adiante e se vê paralisado no Grau 1. O livro também não facilita, começa com o pé na porta e só vai melhorando. Alguém terminou o Iniciação ao Hermetismo com sucesso completo? Provavelmente nem o Bardon. Alguns exercícios demoram anos para serem completados com algum sucesso.

Qual é o problema desse método?

Existem vários, vou tentar esclarecer alguns aqui, apesar de não ser dono da verdade, estou envolvido com as obras do Bardon a alguns anos, tanto que recomecei o Iniciação ao Hermetismo três vezes e acredito que na terceira vez eu acertei um pouquinho.

1 – Os livros do Bardon são uma direção e não um trilho.

Pode ser complicado um iniciante entender que um livro, Ordem ou culto traz um método testado de magia, só isso, mas que a magia é um caminho individual e impossível de padronizar, não tem como duas pessoas possuírem caminhos idênticos. Então tentar seguir o IAOH ao pé da letra só vai trazer frustrações, ele é uma direção a ser seguida e seus exercícios são métodos que tornam essa direção possível de ser seguida. Quem lê o livro percebe que ele parece um livro de matemática, frio, metódico, cheio de avisos e regras a serem seguidas, é impessoal. A estrutura do livro não foi impensada, é para ser genérico para poder caber na vida de toda e qualquer pessoa, e o adepto é que vai ter de transformar aquela prática em algo aceitável dentro da sua individualidade.

2 – Os livros não são gurus.

Aprender diretamente de um mestre possui grande vantagens, e grandes perigos, por isso no Ocidente os livros são mais procurados, porém o livro não é um guru, ele não vai adequar os ensinamentos a você. Fica claro no Grau IV do IAOH que o adepto deve buscar o contato com seu “Mestre interior” ou “Anjo da Guarda”, para poder chegar a algum lugar, e pode ser que os ensinamentos do livro sejam abandonados ali mesmo. Então encarar qualquer obra como verdade absoluta é um caminho que não leva a lugar algum.

3 – Bardon não queria escrever livro algum.

Provavelmente Franz Bardon não queria escrever livro nenhum e não queria fama em torno de si, isso é questionável mas tudo aponta que ele desejava ensinar pessoalmente e seus discípulos iriam ensinando outros e assim por diante, mas isso não foi possível. É quase certo que os livros são uma juntada de diversos documentos e ensinamentos do Bardon, o que nos diz que alguma coisa ali está faltando ou sobrando, provavelmente os dois.

4 – Ele não era tão poderoso assim.

Aqui entramos em local perigoso, mas existem diversas lendas sobre o Franz Bardon, inclusive sobre ele ser a reencarnação de grandes mestre do passado e possuir poderes mágicos praticamente absolutos. Na verdade não foi bem assim. Que ele era um mago competente e bastante progressista para seu tempo é inegável, mas ele não era um senhor absoluto de todos os poderes da terra e nem recebeu seus dons por um milagre sem esforço ou estudo. Existem fortes indícios que ele foi discípulo durante boa parte de sua vida, e que ele foi o grande divulgador do sistema mágico por sua personalidade carismática e mente mais voltada a ciência.

5 – O livros não se fecham.

Cada grau do IAOH traz técnicas difíceis de serem seguidas, isso já foi dito, mas elas não estão completas ali, ou não esgotam ali. Certamente o próprio Bardon não conseguiria escrever tudo sobre cada um dos graus e exercícios abordados nos livros, a própria estrutura criada por ele é de mínimo de teoria para o máximo de prática, assim o próprio adepto iria chegando as suas conclusões. Ao ler mais atentamente vemos que Bardon cita práticas budistas, o tarot, e a filosofia grega, também traz práticas espíritas, radiestesia e radiônica, e uma boa parte de taoismo uma busca por essa literatura vai ajudar muito os trabalhos. Também temos misticismo islâmico, mas isso fica mais evidente na Prática da Evocação Mágica.

6 – Bardon é um homem de seu tempo.

Não adianta tentar santificar o autor pelo conteúdo de sua obra, o autor vai escrever segundo sua leitura de mundo e vivência, nada incomum. Vemos que Bardon tenta trazer um conteúdo “científico” para suas práticas, um método, por isso suas obras são secas, parecem livros de matemática, onde se fazendo x, y acontece.

7 – Faça seu melhor e pronto.

Para mim é difícil falar isso, mas é impossível atingir-se a perfeição no IAOH, por isso é importante o autoconhecimento e saber onde chegou o limite, como foi falado antes a obra é genérica, extremamente seca. Vá treinando, vá fazendo, até que sinta-se confortável a ir ao próximo nível, e não sinta vergonha de voltar dois ou três no meio do caminho, acontece, muito!

Gostaria muito de poder debater mais as obras de Franz Bardon e seus treinos, mas infelizmente não há uma grande aceitação dentro do público brasileiro, e é comum haver a deificação do autor, levando obras ao pé da letra e lendas como verdades absolutas. Se for do interesse dos leitores me prontifico a discutir mais o IAH e fazer um grupo de estudos voltado ao Bardon.

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5 Comentários

  1. Salve,

    Ótima matéria! No início de 2018, comecei minha jornada com o Iniciação ao Hermetismo, “O Caminho do Adepto”. Tive um “bom” entendimento teórico do capítulo 1, e cheguei a praticar alguns dos exercícios diários, porém, logo procurei algum grupo de discussão e pratica desse livro, pois senti que não seria fácil seguir sozinho. Acabou que não consegui passar de um mês, devido a uma serie de dificuldades encontradas. Ainda ouvia relatos de que era um livro pra estudar e praticar durante um período de 5 anos. Considero que foi uma boa experiência e serviu para incitar minha curiosidade e novos estudos sobre o Hermetismo. Quero tentar novamente, bem mais pra frente.

    1. Não sei de colocar um limite de 5 anos seria o ideal. Fiz uma pesquisa sobre a vida do Bardon e suas influências e amigos, tem muita coisa ali que veio na “mão do gato”, cortado e montado pelos editores do livro. Mas é algo que dá para ser feito. Depois das pesquisas que fiz vi que muito do que está no livro está incompleto, ou em excedente, tem mais coisas a serem abordadas em cada um dos níveis que poderiam ser simplificadas e expandidas, penso que o próprio Bardon não teve a capacidade de expressar completamente o que queria no livro.

    1. Já pensei em criar um fórum para debater e tentar ajudar e me ajudar no processo de aprendizado do livro. Tem muita coisa escondida ali e coisas “fora do contexto”. Obrigado pelo comentário.

      1. Um fórum seria legal para debater os graus. Também estou praticando e voltei várias vezes por achar que deveria seguir a risca, mas vi que não era assim. Vejo que hoje obtive um maior aproveitamento do livro, mas fica difícil sem pessoas para compartilhar suas experiências.

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