O Dao

O que é o Dao (Tao)?

Porquê se chama Dao?

Como o alcançar?

Essas são algumas das perguntas que o interessado em esoterismo chinês pode se fazer, logo que houve as primeiras palavras a respeito do Daoismo.

É importante compreenser que esse sistema religioso/magístico surgiu como uma reação. Uma reação à perseguição e destruição de toda uma Era.

Entendamos, e talvez possamos responder a essas perguntas.

A dinastia Shang ocupava aproximadamente essa área

O Dao na História

Quando falamos da história chinesa, podemos esperar muito sangue e mortes. Desde o princípio da história escrita chinesa, ao menos daquela hoje conhecida, o principal elemento a ser gravado foi o orgulho – de vencer batalhas, de ser cruel, ou de se proclamar o correto.

Não há como ser bondoso com uma história dessas. Não podemos nos desviar da cena geral para apreciar os belos detalhes.

A história chinesa foi escrita por sangue, suor e crueldade. E é em meio a esse tipo de ambiente que uma doutrina espiritual pacifista e altamente voltada ao interior sse desenvolveu.

Como é isso possível?

Em certo nível, ocorreu porque o Daoismo é muito parecido com o hermetismo europeu, ainda que menos contaminado ainda por seu tempo, e mais puro em suas origens.

O Dao na Pré-História

Talvez chamar a era pré-Zhou (dinastia que dominou a china após a última grande dinastia mística e oracular cair, a dinastia Shang) de pré-história seja um exagero.

Há vários registros dessa era.

Mas, para conveniência, chamemos assim.

Nessa época, a dinastia dominante, os Shang, eram um reinado razoavelmente próspero, mas dependente de um elemento muito importante : A elevação espiritual de facto de seus governantes.

Em todos os tempos e lugares, o nível de consciência, lucidez e desenvolvimento espiritual dos líderes de um povo é primordial. Contudo, na dinastia Shang, isso era ainda mais do que o comum.

Isso porque os Shang focavam sua existência na relação entre o Céu (O imaterial), a Terra (o Material) e o Homen (o Meio).

Por meio de oráculos, liam os desejos do Céu.

Por meio da observação, lógica, teoria e prática da experiência empírica e da criatividade (não podemos chamar de método científico, claro, mas algo perto), liam a Terra.

E, lendo a Terra e o Céu, buscavam se adequar, pois o Homem era próspero quando o fazia.

O que significava isso ? Coisas simples, comp construir diques em regiões que precisavam deles, criar bichos da seda da melhor maneira, ou ler os fluxos das estações para saber a boa hora de plantar.

Claro, não é isso que nos importa aqui. Nos importa algo mais profundo – o esotérico.

O Céu fala, a Terra fala.

Quando falamos de misticismo, falamos do Homem.

O Céu não é místico, pois é o que é. A Terra não é mística, pois nunca é nada, e só está no momento.

O Homem é místico porque é o que é, mas muda a todo momento, nada sendo.

Quando o Homem observa o Céu, aprende a Ser e a manifestar o Ser. Quando observa a Terra, aprende a Estar, e a manifestar o Estar.

Essas palavras não vem se livro algum, mas resumem meu entendimento da posição do homem no daoismo.

Os primeiros daoistas, pode-se dizer, eram meramente xamãs. Pessoas, normalmente mulheres (por um motivo que explorarei em outros textos, ao falar do feminino e do Dao), que tinham contato com essa essência mística, com esse mistério maior: A de que há o Imaterial e Imutável, e que há o Material e Mutável.

O simples contato com esse conceito, sua exploração espiritual, e todos os processos de abertura e desenvolvimento espirituais que ele traz, foram suficientes para que várias tribos mágicas se formassem na China antiga.

Algumas dessas tribos existem até hoje.

O império chinês de maior extensão foi o mongol, que ocupava toda a área em laranja

De Tribo a Reino

É incerta como se deu a formação dos primeiros impérios chineses. É certo que são mais antigos que os Egípcios, com ruínas que datam a 10.000 BCE.

Talvez tenha a ver com a geografia chinesa, muito focadas as áreas férteis ao redor de alguns poucos rios. Talvez algo mais místico.

Mas o fato é que, pelas capacidades de observação e adivinhação dos místicos e xamãs chineses antigos, uma forte cultura se formou ao redor da figura do “líder sábio”.

Tão forte essa cultura, que a figura do monarca se associou, necessariamente, à da sabedoria.

Não surpreende, pois a China sempre precisou mais de comida do que de riquezas. Sendo uma terra muito fértil, com mulheres que muito facilmente tinham muitos filhos, a China nunca foi um lugar onde se valorizava mais o servo do que a comida na despensa.

Aquele que conseguisse manter a comida na mesa era colocado para fazê-lo, e essa pessoa sempre terminou sendo o xamã.

Isso é, até os Zhou.

Essa imagem, muitas vezes associada a Confúncio, na verdade pertence ao duque de Zhou – responsável pela queda da dinastia Shang.

A Dinastia Zhou

Tudo muda sob o Céu. Quando os monarcas chineses se tornaram cada vez senhores de domínios militares, e não de cidades-estado, a sua figura de sabedoria e superioridade mística teve de ser mantida – mas não necessariamente sua capacidade de fazê-lo.

A queda da Dinastia Shang aparece quando, em meio a enchentes, revoltas e “falta de comida na mesa”, militares sob os monarcas Shang se revoltam e tomam o trono.

Tão importante era reforçar o papel do monarca como sábio e administrador da nação para o bem comum, que a figura do Mandato Divino (o direito de governar pela evolução espiritual superior) foi inventada.

Mas e o Daoismo?

Ora pois, se os xamãs de cada local foram sendo colocados por sov o domínio do exército, como “administradores” de seus pequenos domínios de conhecimento, e depois uniformizados cada vez mais, o que podemos esperar disso ?

Uma perda, e um ganho.

Xamã chinês moderno

Quando Se Perde

Perdeu-se muito do aspecto verdadeiramente místico, em primeiro lugar.

Poucos dos xamãs tinham treinamento espiritual intenso, e conforme administrar a terra se tornava questão material e não mística, muito foi perdido.


Uma classe servil pública foi organicamente criada, e depois mantida. Mas suas origens e o misticismo continuaram ligados aos campos, matos, montanhas e o místico.

Mesmo os famosos Manchu não escaparam à necessidade da imagem de sabedoria para poderem dominar a china.

Quanto se Ganha

Por outro lado, o pouco do místico que sobreviveu, em larga medida pela necessidade de se manter a imagem de sabedoria, permaneceu de forma cada vez mais homogênea.

Os conhecimentos da medicina, da botânica, da engenharia, astronomia e astrologia começaram a se espalhar cada vez mais, e, junto a eles, que eram conhecimentos da Terra, do Mutável, vieram também alguns do Céu.

Não muitos, pois o Céu é difícil de se alcançar, e os Homens normalmente se contentam meramente com a Virtude, que é o Homem se espelhar no Céu, ou, mais comumente (para tristeza de muitos) em outro Homem, confundindo-o com o que deveriam ter.

Ainda assim, alguns.

A medicina foi um dos poucos lugares onde uma parte do conhecimento místico chinês foi preservado. Por motivos óbvios.

Derrocada

Quando os Zhou subiram ao poder, os Shang perderam tudo – inclusive o domínio sobre os conhecimentos do Céu.

A Virtude e o conhecimento do Místico não serviam aos homens da época, e não podemos culpá-los: Pois a função deles, pedida e esperada por outros, era observar a Terra e ajudar o Homem a se adaptar a ela. Cumpriram sua função, mesmo que se perdendo no caminho.

Assim, esse conhecimento se foi, exceto em alguns textos que ainda precisavam deles – e alguns clãs que conheciam magia o suficiente para conseguirem tirar algo de prático e material daquele conhecimento.

As “Cem Escolas de Pensamento” foram um momento da história em que, em meio a muitas guerras, os chineses se voltaram ao estudo e à contemplação para tentar obter respostas quanto a como obter paz.

Céu, Terra, Homem

Os poucos elementos místicos, muitos da Terra e poucos do Céu, que sobreviveram à queda da dinastia Shang, foram então compilados por algumas escolas de pensamento em um sistema mais ou menos homogêneo: O Daoismo, sendo o Dao aquilo que está além do que se tem, e ao mesmo tempo sendo a origem e a própria coisa em si.

Explico.

O Confuncionismo, surgido na China alguns séculos após a queda dos Shang, colocou o último prego no caixão metafórico do xamanismo chinês.

É claro que as religiões locais, com transes, possessões, deuses e outros seres assim, continuaram.

Mas o compartilhamento dos conhecimentos do Céu foi abandonado, tornados os rituais ao Céu algo rígido e a ser seguido por motivos práticos de cultivar no Homem um certo nível de Virtude que fosse prático e desejável – nada mais.

A Terra continuou a ser observada e percebida, e a “ciência” chinesa prosseguiu sendo a mais avançada do mundo por séculos graças ao valor dado ao estudo, capacidade de administração, e resultados práticos.

Mas mesmo ela não era o foco. O foco era o conforto, aquele que permitisse que o confucionista se sentisse Virtuoso.

Nesse ambiente, intriga e diferentes formas de viver sempre continuaram a existir.

E, seja por um motivo ou outro, os conhecimentos do Céu e da Terra continuaram a serem cultivados aqui e ali.

Centenas de monastérios perdidos no meio das montanhas, incomunicáveis entre si, às vezes, por séculos – e vocês querem que as tradições continuem as mesmas em todos eles ?

O Daoismo Nas Sombras

Em um mundo como esse, onde o objetivo é alcançar um certo nível de comportamento confortável para que o líder se sinta feliz, não surpreende que muitos estivessem insatisfeitos.

O pobre aldeão geralmente queria apenas comida e menos mortos. O rico mercador queria vida longa, confortos e bem-estar. E o nobre queria ser reconhecido.

Nada diferente do que temos hoje.

Exceto que, em um país onde Sabedoria e Perspicácia foram valorizados por milhares de anos, os velhos e sábios tendem a ser ouvidos de fato.

Seja por meio de transmissão oral de pai para filho, ou por heranças diversas, conhecimentos fragmentários sobre o Céu e a Terra permaneceram sendo compartilhados e usados, apenas dentro de cada clã ou família.

Como incorporar espíritos, por exemplo. Ou certas técnicas de medicina, ervas ou botânica. As propriedades sutis de certos elementos, como se constrói certa estrutura ou como adorar um certo tipo de entidade para se ter um certo tipo de efeito.

Durante alguns reinados, esse tipo de tradição se tornava mais fragmentária, muitos elementos se perdendo.

Durante outros, especialmente quando os grandes clãs e famílias casavam entre si, ou quando duas pessoas místicas de diferentes clãs se encontravam, as práticas eram compartilhadas e mudavam.

Escondido nas sombras do Confuncionismo, o Daoismo sempre foi coisa de doidos, nobres, ou aqueles que eram ambas as coisas ao mesmo tempo.

Por isso disse que, nesse aspecto, o daoismo é parecido com o hermetismo – não existe um único daoismo. Misturar os textos místicos de uma escola de qigong com os textos místicos dos manuais de medicina é tão errado quanto achar que, porque tanto Platão quanto Crowley falam de deuses, falam da mesma coisa.

Passando pra dizer que o barato é louco.

Ah sim, sempre há os que querem que assim seja. Que todos os textos que falam do “Dao”, tudo que é escrito sobre o “Qi” e tudo que se sabe sobre as “almas” esteja se referindo às mesmas coisas.

Não está. Especialmente quão mais nos afastamos dos mistérios do Céu – que de fato possuem um certo fator de proximidade entre si – mais diferentes se tornam os termos e menos podemos dizer que são o mesmo, tratando heranças familiares de milhares de anos atrás como parte de uma brincadeira infantil onde um idiota medieval espalhou pistas por dez obras diferentes para brincar e “passar o conhecimento escondido”.

Esse é o mundo real. Ninguém faz nada tão estúpido assim, até porquê isso é pior do que se não fizessem. Desinformação, como a que vemos em teorias da conspiração sobre como tudo no mundo é manifestação da mesma coisa da mesma escola mística antiga e suprema, é muito pior que não-informação.

Enfim. Mas e o Dao? Para quê falar tanto assim ?

Porquê agora posso explicar…

Todo mundo adora isso aqui. Exceto que não funciona fora dos preceitos do I-Ching… que, por sua vez, não conversa com muitas outras formas de pensamento.

O Dao

Se acabei de dizer que o Daoismo não é uma coisa só, o que dizer do Dao ?

Sim, existem semelhanças entre as diversas formas de Daoismo, e entendimentos do que é o Dao.

Especialmente vistas obras que se tornaram “públicas” na china antiga, como alguns textos esotéricos, de medicina tradicional e, é claro, os famosos textos por Lao Zi (o Dao de Jing ou Tao te Ching) e por seus fãs de carteirinha.

Um pouco da visão do Céu e de seus mistérios, assim como os mistérios além, pode ser entendida a partir desses textos.

Mas, a verdade, meus amigos, é que não existe Dao. Nada pode ser dito ser o Dao – exceto que é algo místico que muita gente tenta alcançar e que aparentemente te dá poderes mágicos.

O que, em si, é um ótimo ponto de começo, não?

Em um texto futuro: O Dao por Lao Zi ou O Dao no Dao de Jing.

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