A cabala judaica em Russian Doll (Netflix)

Não vim dizer que há uma árvore hermética das personagens de Russian Doll. Isso não é trabalho deste blog. Mas são referências judaicas modernas tanto o uso dos anjos, o desaparecimento de personagens, o uso simbólico dos espelhos e a importância de salvar uma vida.

Referências

Russian Doll, NETFLIX, 2019.

Há elementos judaicos modernos espalhados pela narrativa de Russian Doll. Os mais evidentes falam sobre a relação do judeu contemporâneo com suas raízes: Nadia nega sua religião para, em seguida, falar sobre como seus avós judeus sobreviveram ao Holocausto; o prédio onde ela está foi uma escola judaica (uma Yeshiva) e Nadia acha isso de certa forma assustador; Nadia não sabe o cumprimento correto ao ir falar com a assistente do rabino, dando “Shabat Shalom” em uma segunda-feira; mente que tem um marido para poder ser atendida pelo rabino; a própria assistente diz que não confia em Nadia para deixá-la a sós com o rabino; drogas israelenses. Mas há outros elementos da mística judaica muito bem adaptados ao enredo e ao uso modernos da cabala.

Mais do que referências à física quântica e a drogas de última geração, penso na multiplicidade de interpretações do Talmud; principalmente em interpretações abertas. Já falamos sobre as interpretações judaicas aqui.

1 Evocação dos Anjos

Nadia descobre que o apartamento onde ela estava quando morreu pela primeira vez era uma yeshivá, uma escola judaica. Ela acha isso macabro. Para um judeu, uma yeshivá abandonada é meio como a trope de “aqui era um cemitério indígena”. É uma realidade fantástica da qual se ouve muito, mas com a qual o judeu moderno tem pouco contato.

Isso leva Nadia a um encontro com a assistente do rabino. Nadia pergunta à assistente se há uma prece para quem “está em perigo”. A resposta é a mesma prece do RMP hermético, em hebraico. Ela recita a posição dos anjos, e Nadia pergunta o significado. A resposta é simples: os anjos estão a nossa volta.

2 Pessoas sumindo

Estamos todos conectados. Isso não é um conceito moderno, é pura cabala.

As pessoas na narrativa desaparecem, não somente como parte da “maldição” — qualquer que seja — mas porque elas não pertenciam à vida de Nadia desde o começo. Seu desaparecimento apenas torna evidente que Nadia não as enxergava desde o início. Elas estavam em seu aniversário, mas não importavam.

Não sei se é proposital, mas é interessante que alguns atores aparecem em papéis diferentes dentro de cada repetição. Suas personagens são genéricas, estereotipadas. Através dos olhos de Nadia, poderiam ser as mesmas pessoas que, para ela, não tinham importância.

Só depois de sentir que os perdeu é que Nadia consegue se sentir feliz por rever os amigos em sua festa. Ou por vê-los pela primeira vez.

3 Espelhos

A interpretação mais simples é “olhar a si mesmo”. Nadia e Alan reiniciam seus loopings olhando-se no espelho, porque é só isso que fazem. São pessoas que só enxergam a si mesmas; ou, ao menos, apenas seu próprio ponto de vista.

Enquanto o espelho inteiro pode simbolizar o egocentrismo, o espelho quebrado traz a imagem de fragmentação. Nada é pior, no judaísmo, do que uma vida fragmentada. No início de Russian Doll, cada um cuida apenas de si, ninguém realmente interage, exceto para benefício próprio. Na memória de Nadia, sua mãe enlouquece e destrói os espelhos da casa. Em uma de suas repetições, Nadia regurgita um pedaço quebrado de vidro. 

Ao longo dos episódios, as conexões entre as personagens se tornam mais evidentes. Nadia brinca que todos fizeram sexo entre si (na verdade, Nadia fez sexo com Mike que fez sexo com Beatrice que fez sexo com Alan). A fragmentação é desfeita quando Nadia e Alan fecham o círculo fazendo sexo entre si.

Da mesma forma, os espelhos e a fragmentação aparecem no último episódio, quando a tela se divide em quatro mostrando a perspectiva de Nadia e de Alan em suas personas iniciais e finais. Nadia e Alan, sozinhos, tentam refazer a conexão entre si — cuidando um do outro de forma independente — até que a fragmentação é desfeita nas últimas cenas.

4 Quem salva uma vida…

É um ensinamento antigo, mas repetido em diversos momentos na história e nos estudos do judaísmo e da cabala. No Talmud, discussão do Sinédrio, folio 37a, está assim:

Por esta razão o homem (Adão) foi criado só: para que soubéssemos que aquele que destrói uma vida as escrituras imputam responsabilidade como se tivesse destruído todo o mundo. E aquele que salva uma vida, (é como se) salvasse o mundo inteiro.

Shbaa.

Você também vai gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *