O Sagrado na Natureza

Estamos em uma época de altíssima ameaça à Natureza, com líderes que negam o aquecimento global e eventos resultando da nossa negligência como os rompimentos de barragens. Um dos principais focos que alicerçam o heathenismo é o culto à Natureza, e uma preocupação diante toda a situação atual (junto de uma mudança de postura) é essencial dentro de uma prática pagã. Porém, o que queremos dizer com este “culto”? Como é que enxergamos a manifestação do Sagrado dentro da Natureza, e como uma postura mais tradicionalista pode se diferir de uma moderna? Vamos discutir.

Imagem destacada: o “Espírito da Floresta” de Princesa Mononoke, filme que apesar de ser asiático reflete muito da relação pagã com a Natureza.

Em vias pagãs ou de bruxaria modernas, a Natureza é personificada como uma divindade feminina associada à Terra que se contrapõe e é complementada por uma masculina associada ao Céu. Embora encontremos entidades como Jörð (uma giganta cujo nome significa “Terra“, sendo uma das consortes de Óðinn e mãe do Þórr), essa visão deveria ser desencorajada em uma visão reconstrucionista ou tradicionalista; além de termos também divindades masculinas exercendo esse papel (sendo o mais famoso Freyr do panteão vanir, havendo outros como Fjorgyn em fontes mais antigas e tradições locais), a Natureza não é vista como uma “mãe acolhedora”. Ao invés disso, seria mais adequado falar dela como o contexto em que todos nós, tanto seres de carne-e-osso quanto espirituais, estamos inseridos e nos influencia a todo momento; é absolutamente impossível dissociar qualquer ser, mesmo que seja uma divindade que não habita Miðgarðr, da Natureza e suas leis. Seria um desperdício colocar um conceito assim tão grande em uma dualidade superficial como “masculino&feminino”, e também se distanciar da herança cultural das tribos germânicas.

A relação com a Terra na forma de culto costumava a acorrer muito mais através dos landvættir ou entidades élficas do que através de divindades em si. O contato com estes seres vai além da noção de “culto de fertilidade”, especialmente quando falamos de entidades associadas com áreas não-cultiváveis como uma montanha; várias vezes um landvættr era integrado a dinâmica tribal como um “protetor da comunidade” ou cultuado simplesmente por questões de respeito. Tratam-se de seres que acumulam muita energia do local em si, estavam aqui antes de nós e permanecerão depois, o que já diz muito sobre sua natureza divina por si só. Quantos eventos e transformações uma montanha ou mesmo uma árvore testemunhou, e como isso reflete no poder que o espírito dela teria?

A árvore mais antiga de Paris, uma acácia plantada em 1601: qual o tamanho da carga que o espírito que a habita carrega?

Na forma do “contexto à nossa volta”, seria mais correto se aproximar da Natureza com reverência do que com idolatria. É necessário aceitar não apenas que nela encontramos fertilidade e sustento, como também desastres e morte – o heathenismo abraça todos os aspectos naturais e aceita o mundo conforme ele é, sem negar ou condenar algum deles. Trata-se de uma força absurdamente maior e além de nós, e por mais que o ser humano tenha tantas formas de intervir de forma absurda no meio ambiente a Natureza sempre irá revidar na mesma medida, como os incidentes recentes com as barragens deveriam nos lembrar. Este é seu grito, ecoado na sabedoria de tempos imemoriais: “tudo está interligado em uma teia, e toda ação têm seu retorno”. Ela pode levar séculos, mas sempre irá se recuperar; já a humanidade não, precisando ser colocada em seu devido lugar e conscientizada de sua pequenez.

Brumadinho antes e depois do incidente: um lembrete proporcional a nossa ganância

Tendo tais noções claras, o principal modo que devemos assumir para um efetivo “culto à Natureza” é uma revisão de nossas próprias atitudes, sempre buscando harmonia com este “contexto em que estamos inseridos”, o ambiente que nos encontramos e dependemos, e as leis  que nos afetam de forma absoluta. Sim, é necessário pensar de forma sustentável e reavaliar hábitos de consumo – coisas que nossa sociedade gosta de rotular como “fúteis”, “conversa de gente chata” e tudo mais o que estamos acostumados a ouvir. Muitos são condicionados a achar que sua mudança de atitude individual representa algo ínfimo no todo, porém se realmente compreendemos a noção de ações em cadeia (que nada mais são do que uma visão menos metafísica do ørlög) enxergamos que este “ínfimo” na verdade possui uma repercussão maior. Quais formas que temos de diminuir a quantidade de lixo que produzimos, inclusive (especialmente!) em rituais que envolvem deixar oferendas no mato (que deveriam necessariamente ser biodegradáveis)? É impossível se dizer “pagão” sem dar a devida importância a tais questões.

Talvez tanto tempo de dominância de religiões que vêem um “sagrado transcendental inalcançável” e rejeitam o Plano Físico, junto da criação de uma sociedade de consumo e filosofias que colocam o ser humano como algo “acima” de outros animais, tenha colaborado para o afastamento do sagrado que é intrínseco na Natureza. Como membros de uma religião conectada diretamente à Terra, é o nosso dever resgatar essa relação e a noção de que estamos e sempre estivemos inseridos no Tear da Wyrd, onde cada gesto nos é devolvido pelo mundo natural. Isto é parte não apenas de uma vivência mais plena do paganismo, como também da construção de um futuro onde nossa relação com a Natureza não seja um caminhar à auto-destruição.

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

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