Demônios imaginados: Maria, a Sangrenta

É catoptromancia ou necromancia?

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Eu diria que depende de acreditarmos que Maria é um espírito ou uma construção coletiva.

Em Porto Alegre, Maria Degolada é o nome da entidade de uma mulher assassinada pelo marido soldado da Brigada Militar. Ela teve a garganta cortada e foi jogada de cima do Morro do Hospício. Não suficiente, o marido espalhou que ela seria uma prostituta, bruxa, que teria feito pactos, e queimou as roupas e outros bens de Maria lá em cima do morro.

A vítima era jovem e conhecida na região. Quase ninguém acreditou nas história do marido, que foi preso em seguida. O local se tornou ponto de culto por outras mulheres que necessitavam de ajuda, conselho ou proteção. Dizem que funcionava. Para garantir que o nome de Maria não fosse associado à magia negra, foi erguida uma pequena capela sob o nome de Nossa Senhora da Conceição. Oficialmente, os moradores oram para Maria da Conceição quando necessitam que alguma graça seja atendida. Todos sabem que Maria Degolada é quem atende, ainda com seu pescoço vermelho de sangue. O contato é feito com um espelho colocado no fundo de uma bacia cheia de água-benta.

Diversos rituais para contato com entidades ou para prever o futuro se utilizam espelhos. Diversos rituais são feitos para encontrar entidades de mulheres ou que toma a forma de mulheres. Diversos rituais são para encontrar entidades injustiçadas ou vingativas. Mas quando unimos esses elementos, encontramos temas em comum.

A obra russa “Svetlana”, de Zhukovsky, atesta como era comum em 1813, que as jovens buscassem conhecer o futuro em magias com espelhos. O ritual está ligado a paixões adolescentes. As jovens, querendo saber com quem casariam, deveriam chamar por Svetlana através de um espelho iluminado apenas por uma vela pequena.

A ciência hoje acredita que a baixa luminosidade causa efeitos à própria visão. A forma com que o cérebro identifica a face humana não consegue sustentar a imagem por muito tempo e, em alguns minutos olhando o próprio rosto, nossos olhos nos enganam e temos pequenas mas claras alucinações. Essas alucinações eram interpretadas como visões monstruosas ou mesmo premonições de morte. Seja como for, as meninas que buscavam saber sobre seu futuro marido concluíam o experimento aterrorizadas.

O elemento água retorna na versão ocidental deste ritual. A “loira do banheiro”, como chamada no Brasil, mas comum também por toda América do Norte, é a entidade que seria evocada pelo espelho. Em todo colégio, especialmente escolas só para mulheres, encontram-se histórias daquela mulher de quem todo mundo ouviu falar e se matou no banheiro.

A versão mais completa da lenda diz que ela se matou escondida, sozinha, talvez chorando de solidão, em frente ao espelho. Ela cortou a garganta. O sangue escorreu e inundou os azulejos do chão. Muitas vezes, ela estava grávida. Raramente, mulher e bebê morreram durante o parto.

Para o ritual, as luzes devem estar desligadas, e a água das torneiras devem estar abertas. Se água quente estiver disponível, a umidade no espelho auxilia no efeito. O nome da entidade local deve ser dito três vezes. Se um bebê é citado na lenda, quem tentar contatar a entidade deve cobrir-se com um lençol molhado. Provavelmente, ouvirá no escuro o choro da criança.

O Ritual

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Os poucos registros de rituais específicos de catoptromancia fazem pouco sentido se comparados com o que dizem dos rituais atuais.

Um espelho deve ser levado à água. A água não é uma bacia, mas uma quantidade suficiente para imersão de uma pessoa junto com o espelho. Em consonância com o judaísmo, o mikveh pode ser o padrão. Mas espera-se que o ritual seja feito em água de rio ou água coletada de chuva.

A pessoa deve entrar na água com o espelho em mãos ou o espelho deve ser suspenso por fios (não diretamente por uma segunda pessoa). O espelho deve ficar na vertical, de modo a refletir a pessoa que conduz o ritual. Parte do espelho (mesmo que apenas alguns centímetros) deve entrar em contato com a água.

O judaísmo proíbe, mas algumas versões indicam que a mão ou um dedo de quem conduz o ritual deve ser perfurado para pingar sangue na água a frente do espelho.


A maioria dos judeus acredita que o motivo por que se cobrem os espelhos da casa para indicar luto (shiva) é evitar “narcisismo”. A verdade é que a cabala entende que as emoções do luto são propícias para atrair maus espíritos, que são mais facilmente enxergados através de espelhos.

O Talmud esses relatos sobre os espelhos atraírem espíritos durante o período de luto (shiva), mas indica ainda que, através dos espelhos, os espíritos conseguem se prender aos vivos.

De acordo com o judaísmo, essa é uma das práticas reconhecidas como reais, mas proibidas — pelo menos se vista como necromancia.

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