O Ragnarök nosso de cada dia

Desta vez falaremos sobre um tema popular da mitologia: o Ragnarök (“Crepúsculo dos Deuses”). Temos inúmeras adaptações do mito tanto em modelos de contos quanto na cultura pop, sempre como um evento assombroso e apocalíptico e muitas vezes assumindo um tom parecido com o do “Mito de Édipo” grego; os deuses teriam medo dessa profecia, e atos que visavam a evitar são justamente o que a desencadeiam. Vamos debater um pouco esta visão em relação ao que é apresentado nas Eddas e tentar extrair algo dele para o nosso cotidiano.

Sabemos pela Edda de Snorri e pelo poema Vafþrúðnismál (algo como “Dizeres de Vafþrúðnir”) que o Ragnarök é antecedido por um longo período de frio e escassez, o Fimbulvetr (“Grande Inverno”). Para a visão de mundo germânica, tudo o que nos ocorre seria consequência de uma ação interior nossa e dos nossos ancestrais; porém quem poderia desencadear um longo inverno? Adotando também uma ideia de “tempo cíclico”, é possível dizer que boa parte das causas do Ragnarök são fenômenos naturais e poderão vir a qualquer momento; não faria sentido tentar “impedir a profecia”, a Natureza tem meios de providenciar que ela aconteça. Os fatores que estão além do nosso controle porém nos impactando diretamente, restando apenas encarar e saber lidar, são parte essencial da cosmovisão e muitas vezes expressados pelo ørlög.

O clima ruim é um dos maiores símbolos que expressam a ørlög

A Völuspá (“A Profecia da Sibila”) nos informa que grandes momentos do evento seriam conflitos ocorrendo na própria Miðgarðr, onde tempos sombrios viriam devido a lutas de “irmão contra irmão” e intrigas resultando em traição. Neste momento sim podemos ver uma ruptura e um “fim do mundo” sendo desencadeado pelas pessoas, com seu ambiente de mais confiança e estabilidade – a família e a tribo – sendo destruído por interesses pessoais, medo e desespero diante de uma estação completamente desfavorável. Nisso podemos pensar que aqueles que possuem a maior responsabilidade em “impedir o fim” seríamos nós mesmos, zelando pelo coletivo e não rompendo nossos vínculos nem diante da pior das crises; dentro da visão de mundo germânica, isso seria manter a “friðr” (a grosso modo, algo como “harmonia”. Para uma explicação extensiva sobre o conceito, recomendo o livro “Heathenry Tribal”) com o nosso entorno.

Os momentos posteriores a estes trechos nos falam sobre o desastre em escala cósmica que estamos acostumados: a Sól e o Máni (Lua) sendo devorados, o exército composto dos espíritos dos guerreiros escolhidos se reunindo em uma planície para enfrentar os gigantes, os deuses lutando contra monstros e todos perecendo mutuamente no conflito. O principal que devemos olhar são os versos finais das narrativas: um novo sol faz o dia nascer de novo, a terra desperta renovada e o mundo começa mais uma vez. Nem tudo foi perdido pois algumas pessoas e certos deuses foram refugiados e podem reconstruir. É como se a sabedoria dos antigos nos avisasse: não importa quanto tempo o “grande inverno” dure ou quão terrível seja uma crise, em algum momento o sol voltará a brilhar. Todos nós passaremos por diversas rupturas em nossas vidas e vai parecer que o nosso mundo pessoal acabou, porém tudo é composto de ciclos e o dia sempre nascerá novamente, nos permitindo recomeçar.

Narrativas antigas podem nos falar sobre diversos aspectos sobre a vida das pessoas que os escreveram; o que diziam sobre a origem de um fenômeno ou estabelecimento social, o que achavam engraçado, que hábitos tinham, como se relacionavam com as entidades e deuses ao seu redor. É importante os analisar dentro da visão de mundo em que foram concebidos, mas também podemos adotar um olhar onde buscamos extrair algo que será significativo para nossas vidas. Afinal, pessoas sempre serão pessoas e mesmo que os tempos passem, seus conflitos e ânsias permanecem como partes do que somos.

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

 

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