João de Deus: O Médico e o Estuprador

Fei bagarai

 

João de Deus.

Médium, dono de casas de desobsessão em Goiânia, no Sul e na Suíça.

Estuprador e aparentemente traficante de urânio.

Deve ser uma fraude, certo?

Não importa quantos milhares de pacientes ele tenha dito que curou, não importa o quanto sucesso tenha, se ele é da parte dos “malvados”, só pode mesmo é ser um charlatão sem poder divino nenhum.

Pelos deuses, cresçam!

 

 

Um dos maiores especialistas em inseminação artificial do Brasil era um estuprador.  Estuprou por volta de 50 mulheres, inclusive. Teve milhares de casos de sucesso. Por acaso ele era um charlatão também?

 

João de Deus

João de Deus nunca foi espírita. Sim, sua casa em Abadiânia – GO era chamada “Casa Dom Inácio de Loyola” e tem toda a “arquitetura típica” do movimento espírita, mas além de, durante os discursos dados perante a casa, não se reforçar o caráter kardecista da mesma (coisa que ela nunca foi), diversos elementos como a presença de tronos e enormes cristais ao lado de onde ele se senta garantem que não é bem assim.

Mas vamos mais a fundo nisso.

 

Sim, é a Xuxa.

 

Quando Fui Lá

Devia ser por volta do ano de 2013 ou 2014. Estava com dinheiro na mão e extremamente interessado em visitar locais onde houvessem comprovações físicas da existência do sobrenatural (como ainda estou, mesmo sem o dinheiro).

Assim, resolvi visitar a casa.

Mas um pouco de contexto vem a calhar. Na época já fazia algum tempo que minha mediunidade de pilar (basicamente canalização de energias) estava mais ativa, e infelizmente eu não sabia disso nem como lidar com ela.

É um tipo de mediunidade complicada, pois é basicamente ser um pequeno gerador de energia continuamente buscando onde descarregá-la. Hoje em dia eu tenho onde (o terreiro onde frequento, com os trabalhos com minhas entidades, em egrégoras onde participo, etc), mas na época não tinha e não fazia ideia de que era médium.

E uma das consequências disso foi que comecei a acumular quantidades absurdas de energia pelo corpo, muita dela semi-material.

 

 

Dois pontos em especial acumulavam quantidades absurdas de energia: A minha coluna lombar e a minha coluna cervical. Nesses dois pontos, onde eu naturalmente tinha bloqueios devido a questões sexuais e de manifestação da Vontade, verdadeiros “lamaçais” de energia se formaram, com o da cervical chegando ao ponto de “endurecer” até parecer uma bolota de metal no meio da minha coluna.

Foi uma época onde eu não encontrava lugar algum onde as pessoas falassem de “energia de verdade”, e em que achava que umbanda, terreiros, espiritismo e coisas assim fossem tudo bobajadas.

Se eu tinha essa coisa que estava quase me gerando doenças físicas, assim como tinha visto companheiros meus muito menos “elevados” do que o pregado pelos espiritismos, teosofias e Golden Dawns da vida realizando efeitos físicos, como dar valor para instituições que, ao meu ver, eram cheias de “desculpas” para não realizar efeitos físicos… porquê na realidade, achava que não conseguiam, isso sim?

 

 

João de Deus dizia que as cirurgias físicas em si eram inúteis. Eram apenas “shows” para os que não tinham fé na prática espiritual conseguirem acreditar que tinham passado por algo e não foder o tratamento todo. Interessantemente alinhado com a teoria esotérica moderna. Foi um dos motivos que me motivou a ir.

 

Mas o Cara Curava

Um dos elementos que me fez ir a Abadiânia, portanto, foram os diversos relatos de curas, além da clara notoriedade de João de Deus e do dito espírito que nele incorporava: Dom Inácio de Loyola.

“Se ali tem efeitos físicos” – pensava eu – “então talvez ali tenha algo de verdade, que essas bobajadas por aí não tem”.

Pois bem. Fui, e no meio do caminho peguei carona com uma mulher que trabalhava na casa como médium. Uma das coisas interessantes que ela me disse foi que “na casa, nós trabalhamos com as 7 linhas da Umbanda”.

E já começa aí o ponto onde digo que João de Deus nunca foi espírita.

 

 

Bora lá ser espancado e abusado?

 

Arquitetura, Discurso e Fato

A cidade de Abadiânia é minúscula. Não havia, na época, sequer um caixa 24 horas lá. Quando fui sair da cidade após meu fim de semana lá, tive que passar na Casa de Dom Inácio e pedir que passassem um dinheiro no cartão e que me dessem a soma depois, para só assim poder pagar a pousada (que na época também não aceitava cartão).

Isso porquê o único banco da cidade era o Itaú, e eu na época já não tinha conta nesse banco.

Pois bem, pois bem.

Vamos começar do começo.

Após chegar na cidade e me hospedar em uma pousada (bem mequetrefe, infelizmente), acordei cedo no outro dia e fui até a casa. Os portões eram grandes e havia, mais do que nada, espaço do lado de fora onde se sentar.

 

 

Recebi uma senha de “primeiro atendimento”, e tive que esperar um bom tempo. Cheguei até cedo, mas meu número ainda era o 200-e-alguma-coisa.

Além das senhas de “primeiro atendimento”, haviam também as de “retorno manhã”, “retorno tarde”, e “cirurgia”.

Basicamente, você ia em frente ao João de Deus e ele, em transe, passava instruções quanto ao que você deveria falar.

Não tenho nenhuma história de abuso para contar, até porquê sou homem, e o pior que aconteceu comigo lá foi ter que esperar umas quatro ou cinco horas até que chamassem minha senha – o que foi, de fato, um saco.

Enfim.

Corredorzinho desgraçado. Tinha pouca cadeira pra muita gente, então fiquei umas três horas sentado nessa muretinha desgracenta.

 

A casa em si tem estruturas altas e curtas. Algo meio estilo colonial urbano português. Havia um mirantezinho, além de uma lanchonete (com preços bem salgados, mas comida boa), e um corredor que levava a uma ante-sala aberta que, ela sim, levava à entrada do local onde o João de Deus atendia.

Parece complexo mas é mais simples do que se espera.

Durante todo o período em que estive lá, ouvi uma certa “pregação” de um homem com um microfone que ficava na porta – se é que podemos chamar aquilo de pregação, pois não havia leitura de escrituras, lições de moral nem nada do tipo. Ele apenas repetia que aquela era uma casa “espiritualista” (não espírita), contava um pouco da história de como o João de Deus começou a incorporar, pedia para os pacientes desligarem celulares e outros aparelhos eletrônicos antes de entrarem na sala de diagnóstico e tratamento, e instruía quanto a como funcionava a consulta – você pegava a senha de “Primeira Vez”, ia até o João de Deus, ele olhava para você e passava uma instrução.

Ele poderia pedir para você voltar de tarde (d’onde você receberia uma fichinha de “retorno tarde”), poderia pedir para você ir para a cirurgia, ou só te passar o infame passiflora mesmo.

 

 

Não sei se essa imagem é mais velha ou se o climão de “jesus e seus discípulos” foi diminuído depois de ele ter tido um câncer que as entidades basicamente falaram “se vira aí, tu não é o fodão?”.

 

Dentro da “Salinha”

Por “salinha” quero dizer um salão com lugar para umas trezentas pessoas, tão cheio de cadeiras e bancos que só dava para andar lá em fila indiana. Todas as cadeiras e bancos estavam cheias de médiuns vestidos de branco, pelo menos uns duzentos. Eram uns trinta aqui, mais sessenta lá, e assim em diante.

A Casa Dom Inácio, na época, propagandeava ser o “maior centro de desobsessão da América Latina”, e eu não duvido.

Lembra do meu “lamaçal” energético na região da lombar?

Assim que pisei no umbral da porta de entrada naquele local, ele fisgou de dor como eu não sentia a anos. Nem mesmo nos piores momentos daquele acúmulo a sensação foi tão intensa, exceto em crises muito pontuais – que, de fato, conseguiam ser piores.

Mediunica e energeticamente falando, o espaço dentro da sala era hipersaturado. O calor de Goiás não ajudava, claro, mas não acho que a quantidade de médiuns semio-acordados era devido a isso. Todos tinham suas garrafinhas de água, e aparentemente era permitido saírem dali para fazerem das suas (banheiro, comida, etc) a hora que quisessem.

Ainda assim, era absurdamente forte. Passávamos primeiro por uma tribuna de uns trinta médiuns voltados para nós, a maioria em estado alterado e semi-catatônico típico de quem ficou em trabalho mediúnico pesado por muitas horas.

Dali virávamos para a esquerda, em direção ao João de Deus. Ele se sentava em um trono entre dois cristais de quartzo com pelo menos um metro e meio cada (talvez mais, não lembro), com seis tronos à sua esquerda e seis à sua direita.

Cristais estavam por todo canto.

Na vez que fui lá, em que parece que bateram recorde de atendimentos, foram 400 pessoas pela manhã e mais 400 pela tarde – então claro que não tive muito tempo para conversar com ele. Era quase uma linha industrial.

E também não queria. A coisa toda doía bastante, e eu só queria mesmo era ir de volta para o hotel.

Pois bem. O João de Deus também estava já naquele estado semi-catatônico que mencionei. Quando cheguei na frente dele, ele rascunhou (definitivamente não me parecia psicografia… bem, não sei) algo em um pedaço de papel estilo receituário, e me entregou. Nesse momento acordou do estupor, segurou no meu braço e disse “quero te ver de tarde”.

E lá vou eu pensando “puta que pariu, mais quatro horas nessa merda…”.

De qualquer maneira, dali fui para uma salinha de passe e ectoplasmia. Algumas pessoas passavam pelas famosas cirurgias de tempos em tempos entre os atendimentos de “primeira vez” e “retorno”, e ficavam assim deitadas em macas espalhadas aqui e ali.

Lembro que o passe não foi grandes coisas, mas saí de lá de bom humor e leve.

 

Não é o meu, mas bem que a data tá parecida…

 

O Famoso Passiflora

Sim, comprei um Passiflora de 50 reais. Se isso já é muito hoje que ele custa aí uns 25, que o diga na época, que deveria custar uns 6,50 ou algo assim.

Mea Culpa, eu tinha dinheiro para isso, e me lembro que eram distribuídos vários deles gratuitamente para quem não tinha.

Do mais, das vezes que tomei o remédio, percebi que ele tinha sim sua saudável dose de “macumba” dentro. Além disso, o almoço que serviram (gratuitamente), foi um dos mais deliciosos que já comi na vida.

Era uma mera sopa rala, mas ela parecia viva. Sabe a sensação de tomar a água fluidificada do centro espírita?

Como ela parece um pouco mais fresca do que o normal, mesmo quando você não sabe que é água fluidificada e pega por coincidência a de alguém que teve saco para ir naquelas palestras pau-no-cu?

Algo assim. Só que mil vezes mais potencializado. Parecia maná na terra de tão bom.

Mais tarde eu voltei novamente, recebi mais um passe, e até tive a oportunidade de ir lá receber uma cirurgia.

“Misteriosamente”, depois que todo mundo que já tinha recebido o papelzinho da cirurgia já tinha ido, “abriu uma vaga” para quem quisesse ir e fazer.

Mas eu estava birrento e “de mal” da vida na hora, então não aproveitei a oportunidade.

Me arrependo. Teria sido bom, nem que fosse para escrever esse texto.

 

Pô, será que não coça o nariz não?

 

A Questão do Karma

Daí que digo que João de Deus não é espírita, mesmo que tenha toda a “cara” de espiritismo.

“Médium de receituário”, comida fluidificada, remédios fluidificados, lanchonete com preços extorsivos onde eu poderia ter andado dois quarteirões e comprado algo em um lugar mais barato, mas tive preguiça, bem tipo como acontece nos centros espíritas, passes, sopão da caridade, proibição de se receber doações (haviam caixinhas aqui e ali, mas os funcionários eram proibidos de receberem doações diretamente, e o João de Deus também não aceitava) e a famosa “escrita mediúnica” que é a mesma coisa para todo mundo : “Mete-lhe um passiflora”.

Muito espírita isso.

Mas por outro lado, haviam cristais, uma bela de uma divinização da figura do médium, e outros elementos não tão kardecistas. Isso sem contar o foco em desobsessão e a corrente mediúnica de centenas de médiuns.

Tirem o João de Deus e deixem só os médiuns ali, que acho que 99.5% das curas que ele realizava ainda se realizariam.

Costuma acontecer quando você tem mais de 100 médiuns focados em curar uma pessoa só.

Pois bem.

Ainda assim, mesmo que nunca tenha sido espírita, como raios poderiam os espíritos aceitarem trabalhar e curar usando o corpo de um estuprador?

Como raios poderia um ser humano tão “monstruosamente falho” ao ponto de sentir prazer em abusar sexualmente dos mais fracos e desvalidos, servir como canal para comunicação com a “bela e santa espiritualidade superior” ?

Como raios o Karma por mais de 30 anos não agiu, e jogou esse homem por terra?!

Agiu filhote. Agiu tanto que ele provavelmente não vai ser pego, só se for muito burro.*

 

Deixa eu botar isso aqui… só por garantia, sabe como é…

Os Espíritos e A Cura

Sabia que existem demônios que curam?

Cura nunca foi exclusividade da “luz”. Só no Ars Goétia, um livro de evocação de demônios, temos:

O Grão-Duque Vepar, um tritão que pode gerar ou curar gangrena imediatamente.

O Presidente Barbas (ou Marbas), que gera ou cura qualquer doença que queira.

E o Presidente Buer, que também gera e cura qualquer doença.

É muito comum hoje em dia acharmos que medicina e cura são santas por excelência. O espiritismo em especial adora medir a “pureza moral” de um espírito com base na ideia de que, se ele cura, então está fazendo a maior obra de caridade possível.

Não é assim que funciona.

 

 

O Que é, Enfim, Curar?

Em última análise, curar é ou “negociar com deus” ou “ir contra a vontade de deus”. É “desfazer o karma” e “livrar as pessoas das consequências de seus atos”.

QUÊ ?!!!

Yep. Isso mesmo.

Pense aqui comigo.

Toda doença tem um motivo. Saiamos desse pensamento estúpido onde a pessoa é vítima da doença. Em termos espiritualistas, toda doença é consequência de alguma espécie de ignorância espiritual, pensamento negativo, emoção negativa, ou ato negativo.

Caso você realize atos negativos como comer de forma desenfreada, isso tem Karma (consequências), como, por exemplo, a destruição do seu corpo físico.

Porquê não importa se você é ignorante ou sábio, adulto ou criança – beber veneno, mais das vezes, vai te matar. Não interessa se você é a reencarnação de jesus na terra ou a cria da mistura de Mengeli com Hitler, a menos que forças superiores atuem, ao beber água sanitária você vai morrer.

Seu corpo é feito de células que morrem quando expostas ao hipoclorito de sódio. É simples assim. É karma.

O que as pessoas não entendem é que é perfeitamente possível “brincar” com essas consequências.

 

 

Ele não pode ser machucado por ela… se ele FOR ela!

 

Brincando com o Karma

Voltemos ao exemplo de jesus bebendo água sanitária.

Ele é capaz de desmaterializar o próprio corpo físico. Se você beber água sanitária mas a água sanitária nunca tocar as células do seu corpo (pois você as desmaterializou), você está “anulando o karma” de ter bebido água sanitária.

É um “truque”, pois você não quebra a lei básica de que “células em contato com água sanitária morrem, por isso o karma de beber água sanitária é morrer” – mas você explora o fato de que, nesse exemplo, as células nunca vão estar em contato, mesmo que você beba a água sanitária.

Outras coisas mais profundas ainda, como você inativar a interação química entre os componentes da água sanitária e as células, fazendo com que elas não morram por não serem atacadas pelos componentes que normalmente as atacariam, também são possíveis.

Que o diga então para coisas mais sutis, como um karma de manifestar um enorme câncer de garganta por falar muita mentira (um famoso ocultista brasileiro disse que o ex-presidente Lula da Silva teve isso).

Vamos supor que essa alegação faça algum sentido, e vamos analisar.

Como mentir tem a ver com a garganta ?

O ato de mentir faz uso do instrumento da garganta. Ao se falar em público, várias ações e reações passam pelos diversos níveis físicos e abstratos do que chamamos “garganta”. Músculos se tensionam mais do que deveriam, a pressão sanguínea está mais alta do que o normal, há uma leve inflamação na área devido à composição fisiológica do ato, acumula-se ectoplasma com conteúdos poluídos na região, dá-se vazão a forças psíquicas maiores do que as próprias por meio dos chakras e outros para-órgãos ligados à garganta física…

Tudo isso pode levar à criação de um tumor no local, por conta de “karma”.

Mas, ao mesmo tempo, pode ser o oposto.

Em uma teoria da conspiração diferente, se o ex-presidente estivesse segurando um grande segredo que não pudesse falar à nação, e atraindo a si uma série de energias relacionadas a esse “bloqueio” na garganta, a esse “sapo que não consegue engolir”, a mesma coisa aconteceria.

Sapo esse, aliás, que poderia ser do tipo que se dito traria uma guerra, ou revolta popular, ou outra consequência muito pior do que um câncer.

E isso, aliás, vale para TODOS os tipos de karma.

Dá um enorme sentimento de injustiça e crueldade quando pensamos assim. Quando vemos que não tem nem essa de “se você está sofrendo, é porquê mereceu” nem aquela de “não é possível que isso tenha acontecido sem que você tenha tido culpa!”.

Sim. Coisas ruins acontecem com pessoas que, na nossa visão, “não merecem” elas.

Se todo karma tivesse origem em uma falta passada, por exemplo você só sofrer na mão de alguém porquê maltratou esse alguém no passado, então de onde veio a primeira falta?

Quem maltratou o primeiro “agente do karma”, para assim iniciar o ciclo inteiro ?

Karma não advém da malícia, da maldade ou da justiça. Karma é meramente reação a algo. É lei física, química, natural e espiritual.

E toda doença, portanto, advém não de você ser mal ou bom, de estar devendo a alguém ou não – vem da simples ignorância de que, se você fizer a coisa “x”, acontece a coisa “y”, e aí você acaba fazendo “x” achando que não vai dar nada, e chama o “y” de “adoecimento”.

É o nome que damos quando a pessoa está danificada por conta de alguma coisa e não queremos culpar a pessoa por aquilo que aconteceu com ela – até porquê, culpar qualquer um por estar sofrendo ou ter feito algo que machucou a si mesmo é…

Só não faça isso, ok?

Eu não estou escrevendo esse texto para você virar para as vítimas do João de Deus e dizer que elas foram culpadas de serem estupradas. Elas tem tanta culpa quanto você tem culpa de não ter estado lá para impedir. O estupro que elas sofreram é tanto culpa sua enquanto Karma Coletivo (o famoso “você existia enquanto isso acontecia mas não fez nada para impedir”) quanto karma delas por inúmeros motivos.

 

 

Mas doenças vem de vírus e bactérias, não de ignorância! Vírus e bactérias dificilmente conseguem agir no seu corpo se você tem um sistema imune bom – coisa que pode ser alcançada quando você sabe como mantê-lo assim.

 

Misericórdia Divina

Se assim o é que toda doença é fruto da ignorância, e não de uma justiça divina que vai “fazer tudo ficar certo” depois que “fazer sofrer o filha da puta que fez o outro sofrer”, então fica claro o que é curar.

Curar é desfazer esse tipo de aglomerado de reações à ignorância por meio do conhecimento.

O sofrimento do outro não serve para nada. Absolutamente nada. E nenhuma espécie de “justiça” é feita quando se faz sofrer quem fez você sofrer.

O que acontece é só que suas estruturas egóicas – como o orgulho, o senso de dignidade, o senso de identidade, etc, obtém o “alívio” que precisam depois de terem sido abaladas.

E assim o é que curar é ao mesmo tempo “ir contra a justiça divina” e “apelar à misericórdia divina”.

Na realidade só muda o ponto de vista. Se você conhece como uma reação (karma) a algo ocorre, e então muda isso simplesmente porquê quer, isso é “ir contra a justiça divina” da mesma forma que lavar as mãos antes de fazer partos “vai contra a justiça divina” que diz que 50% das mulheres tendo partos na idade média morriam de infecção.

Já se você simplesmente pede a forças superiores que mudem a situação para algo melhor, é “apelar à misericórdia divina” tanto quanto pedir a um médico bom tratar da sua perna doente é melhor do que fazer uma mistura de urtiga e erva-mate em casa e jogar no nariz esperando que resolva seus calos no dedão.

Voltemos ao João de Deus.

 

Se sacerdotes que faziam sacrifícios humanos eram aceitos pelos deuses, e se a carne de Abel sacrificada por Caim “deliciou a deus”, não me parece estranho que os deuses deem poder a gente imoral e abusadora.

 

Charlatão?

Já deve ter ficado claro até esse momento que ser estuprador não é motivo para se ser charlatão.

É perfeitamente possível se ser um ser humano horrendo e terrível, e mesmo assim se ser capaz de curar.

Aliás, dependendo do caso, por exemplo se você estiver manifestando um demônio, quão pior você é, melhor para sua capacidade de incorporação!

Fica, contudo, a dúvida: O João de Deus em si, é por acaso um desses “médiuns caídos” que “atua no lado das trevas” e não está manifestando “espíritos superiores”, mas sim as “hostes infernais”?

Não necessariamente.

 

Calmamente jogando as pessoas no inferno, não importa o quanto isso doa nelas – ou se essa dor é comparável com a que elas fizeram em outras ou não.

 

Os Espíritos Elevados Não se Importam com o Seu Sofrimento

Há certos níveis de elevação espiritual. Primeiro o ser acha que tudo deve ser para ele, por ele, e se alguém faz algo que o desagrada, essa pessoa deve sofrer porquê ele sente que se essa pessoa sofrer isso “é certo” (ou seja, nesse nível espiritual, “o satisfaz”, pois aqui o “certo” é “estar satisfeito”).

Depois o ser começa a achar que não é bem assim. Começa a achar que certas coisas “podem” e outras “não podem”, e isso tem muito a ver com o fato de ela querer coisas que vão além da satisfação imediata – quer amigos, quer relacionamentos, quer coisas que trazem prazer ao longo do tempo, mas que só existem se certas coisas não forem feitas – por exemplo, estuprar o coleguinha.

Depois, começa-se a abrir mão disso. O ser se torna quase psicopata, pois começa a abrir mão do sistema de prazer-e-dor. Não importa a ele se terá relações boas com os outros ou não, pois o prazer ou a dor de ter ou não ter essas relações não lhe importa. Nesse ponto, parece que o ser regrediu a ser meramente alguém que busca a auto-satisfação, mas esse ser não quer estar satisfeito. Ele não se preocupa com estar satisfeito ou não e, com o tempo, deixa até mesmo de se preocupar com quem ele é ou deixa de ser. É o ser que se desapegou de ter qualquer coisa para o seu próprio prazer, mas também se desapegou de fazer qualquer coisa para evitar sofrer.

Aqui começa-se a se manifestar a Essência, a Verdadeira Vontade do indivíduo. Pois ele não tem nenhum motivo para fazer nada, nem para deixar de fazer nada, por qualquer reação (karma) ao mundo ao seu redor. Todas as suas ações “partem de dentro”, pois são manifestações do seu Eu Espiritual.

Podemos chamar esse ser de “psicopata espiritual”, pois seus atos simplesmente não medem o tamanho da consequência que podem ter. Ele sabe do tamanho da consequência, mas não se importa com ela.

O mais desesperador quanto a essas pessoas é que o Universo trabalha ao Favor delas. A Vontade delas está se manifestando, então tudo age de acordo com isso.

 

Santa Ágata. Imaginar-se-ia que as santas protetoras das vítimas de estupro seriam mulheres que passaram pelo estupro e conseguiram ainda assim se manter fiéis a deus. Ao invés disso, são todas mulheres que conseguiram manifestar milagres, impedindo o próprio estupro. É bastante cruel que a vítima de estupro tenha que olhar para esse tipo de ser e pensar “fui estuprada porquê não era santa o suficiente”. Mas mesmo sendo cruel, ainda assim não deixa de ser santo.

 

E pior ainda – elas conseguem atingir níveis vibracionais extremamente elevados, a ponto de estarem angelicamente te causando dor inimaginável.

São seres capazes de habitarem entre os anjos, sendo eles mesmos poços de desgraça e destruição.

E os anjos e espíritos de luz os valorizam mais do que aos “bons samaritanos” do nível anterior, porquê essas pessoas são algo que esses “bons samaritanos” não são –  verdadeiras.

São seres agindo a partir do Espírito, e graças a isso o Espírito delas pode Crescer de fato, e Evoluir.

Enquanto não importa quantas vidas exemplares o “bom samaritano” viva, se ele está preso no ciclo da dor-e-prazer (também chamado Maya ou Sahamsara), é o mesmo que um robozinho inútil, cuja essência, cujo espírito, cuja força daquilo que o faz Divino não está ativa.

Podemos quase dizer que pessoas nesse terceiro nível são Ashuras. “Deuses maus”. Isso é, seres divinos, com conhecimento além do bem-e-do-mal, mas que ainda assim fazem “coisas más”.

Além ainda desse nível de existência, aparecem os níveis onde o Ego (que se manifesta completamente no segundo nível espiritual) e o Espírito (que se manifesta no terceiro) se unem – gerando assim um ser cujo Ego (“mundano” e “bondoso” segundo a moral de seu tempo) consegue negociar com o Espírito ou Divindade interior (“psicopata” e “alienígena”).

Mais a frente ainda, tanto Ego quanto Espírito se dissolvem, e o ser deixa de estar nesse tipo de dilema – se torna uma força maior do que isso.

Onde está João de Deus nessa brincadeira toda?

Eu diria que ele está no terceiro nível.

E que é por isso que é perfeitamente possível para ele abusar de uma inocente com autismo em um dia, e depois manifestar o espírito elevadíssimo de um Santo católico no outro.

 

 

São Vladmir. Tomou o trono ao assassinar seu irmão mais velho. Então, estuprou sua cunhada, e a colocou no seu harém (de algumas centenas). Depois, sacrificou um homem e seu filho aos deuses. Quando o imperador de Constantinopla pediu sua ajuda, ele exigiu que o imperador lhe desse sua irmã “em casamento”. Ela se tornou a oitava. Aí ele foi batizado e virou santo porquê destruiu o templo (que ele construiu), mandou embora o seu harém e esposas “além da primeira”, e começou a converter o seu povo (que não tinha opção).

 

Até porquê o Santo

Provavelmente está no quarto nível, e aceita que seja assim.

Por mais que sinta compaixão pelas vítimas, o João de Deus e suas ações perversas em si são vistos pelos espíritos elevados como as de uma “criança na pré-escola”.

Se uma criança descobre que ao enfiar o dedo no cu dos coleguinhas eles caem no chão e choram, e dali em diante começa a usar isso como uma “brincadeira maldosa” por qualquer motivo que seja, nossa sociedade de hoje em dia imediatamente chega à conclusão que é uma criança problemática que foi de alguma maneira pervertida pelo mundo.

Mas a chance maior é que não seja isso.

A criança em si não vê o que faz como maldoso. No Japão isso tem nome – chama-se “Kancho”, e é uma brincadeira bem popular entre crianças (meninas e meninos) de pouca idade.

 

 

O Caso João de Deus é mais ou menos por aí. Ele é uma “criança espiritual” que descobriu que existe prazer e diversão em maltratar os outros de formas “terríveis”, mas que, do ponto de vista de espíritos que já viveram milhares de vidas e já passaram por isso milhares de vezes, é só uma crueldade infantil – algo que passa em breve, assim que ele “crescer e amadurecer”.

Para os espíritos, toda a dor desse tipo de ato que, para nós, é imensurável, é apenas uma dor momentânea e menor. Eles não acham que esses abusos são algo tão terrível quanto nós achamos – pois tem uma visão diferente, onde por mais que o abuso lhe gere oitenta, cem, mil anos de trauma, isso é menos do que o necessário para o mínimo do que fazem.

Da mesma maneira que todo o processo de dor e superação da criança no exemplo de uma que é vítima do “kancho” pela primeira vez, para nós é muito menor do que o custo de se tirar a criança do convívio com todas as demais.

Estupro e abusos são infantilidades humanas idiotas. Coisas que fazemos entre nós e que demonstram simplesmente isso – que somos imaturos e infantis em como lidamos com sexo e poder. Para os espíritos superiores, mesmo que reconheçam nossa dor perante esse tipo de coisa, é mais importante que interajamos uns com os outros do que estarmos 100% a salvo desse tipo de coisa.

Daí que, entra vida sai vida, de abusador a abusado, de vítima a algoz, ainda assim nossos mentores espirituais estão ao nosso lado.

 

“Eu te perdoô”.

 

Ou Seja

Para os deuses e santos, o sofrimento de todas as vítimas do João de Deus era importante, mas menos do que a existência dele como médium curador.

Era. Ele não teria sido denunciado por mais de 300 mulheres até o momento se a situação não houvesse mudado.

De certa maneira, esses abusos são “compensados” de um ponto de vista kármico por “tudo de bom” que ele fez, por exemplo curando milhares e ajudando a desenvolver espiritualmente outros milhares.

Curar uma pessoa com câncer, gerar um trauma de abuso em outra. Pela lógica do karma, é perfeitamente possível que uma ação cancele a outra – desde que alguém consiga “brincar” ele.

Então não podemos dizer que foi por conta de Karma, nem de o “charlatão sendo desmascarado”.

O que sobra é um motivo pessoal.

Por algum motivo, para ele, nesse momento, continuar impune é pior do que ser acusado, julgado, enviado para detenção e provavelmente morrer na cadeia por conta disso.

 

Às Vítimas

Meus pêsames.

O texto não tem como objetivo diminuir a importância do seu sofrimento, mas retirar o véu cristão-espírita de “esse cara na verdade não tinha apoio da espiritualidade”.

Sim, tinha.

Não é possível dizer que, nesses 40 anos de prática espiritual, nenhuma de vocês tenham sido notadas pela espiritualidade ao redor do João. Não é possível fechar os olhos e falar “os santos/espíritos/anjos/deuses/deus não tem culpa, é tudo culpa do João”.

Eles tem.  E é necessário reconhecer que nenhum deles agiu para impedir que o abuso ocorresse. Deus cura, mas isso não significa que protegerá a todos a toda hora.

No mundo da magia “real”, não há espaço para esse tipo de contradição. Sim, ele era um curador. E sim, ele era um estuprador.

Assim como qualquer um dos muitos médicos que atentavam contra seus pacientes, ele também o fazia.

Que vocês encontrem alívio e bonança.

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6 Comentários

    1. Olá Ulisses. Obrigado pelo elogio.

      É meio difícil encontrar bibliografia a respeito dos níveis além do terceiro. Possivelmente você vai encontrar coisas a respeito no Budismo, Hinduísmo e/ou Daoísmo, cujos ensinamentos já começam por “existe o nível três, chegue nele”, e por isso mesmo não costumam funcionar para a maioria das pessoas, que está no nível um.

      Eu pessoalmente estou sendo instruído nisso por experiências de pessoas ao meu redor assim como por experiências próprias, especialmente aquelas obtidas por meio da interferência de entidades que me colocam nesses estados alterados onde aspectos da constituição do meu ser além-ego se manifestam.

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