A Essência da Tradição

A palavra “tradição” nos remete a um apego a um cânone de um determinado grupo, que é passado de geração em geração. Atualmente ela se vê manchada por uma relação com o conservadorismo (que visa tornar este cânone imutável, o que muitas vezes o faz ficar obsoleto quanto a mudanças sociais e gerar problemas), e dentro do meio ocultista protagonizando embates (sobre a necessidade de um cinto de couro de leão) entre magos que se debruçam sobre pantáculos salomônicos e aqueles pragmáticos e pós-modernistas que se denomeiam “caotes”. Tudo isso são reflexos do aspecto mais superficial da “tradição”; buscaremos aqui um mais profundo, que por falta de termos adequados será referido como “Tradição” (com inicial maiúscula).

Imagem destacada: Obon Matsuri, festival tradicional japonês

Para conceituar a “Tradição”,  temos que ter em mente o conceito anteriormente aqui apresentado de “Aeon“. Se o Aeon é um “pulsar” de um caminho de Manifestação vindo do estado de origem da Realidade, a Tradição é o fio condutor que este “pulsar” percorrerá do Vazio até o Plano Físico. Elas estão alicerçadas em Aeons e, por isso, também se encontram fora do espaço-tempo.

As Palavras e Fórmulas são símbolos de síntese, que começam a dar forma a Mistérios inomináveis; a Tradição amplia estes símbolos e também concede atos, que realizam a firmeza do Aeon no Físico. É aqui onde definimos quais serão as Chaves que um adepto deverá entender para acessar os Mistérios, quais ações vão gerar ressonância e não apenas concretizar a Vontade de larga escala como também afinar o magista com as egrégoras e correntes aeônicas (sendo aqui que entram as famigeradas “iniciações”). É importante frisar que as Tradições são atemporais; uma tradição (da camada superficial) é finita e está restrita a um contexto de manifestação específico, por isso havendo a necessidade de acontecer um processo de Remanifestação de tempos em tempos.

Um xamã siberiano: o que fazer quando o paramento e os “meios de antigamente” não correspondem ao tempo e local em que nos encontramos?

Trazendo todos estes conceitos para algo mais palpável, darei exemplos vindos da minha experiência pessoal. Muitas vezes me deparei com reações de estranhamento quando digo que sou um pagão germânico, sendo que sou brasileiro e não tenho descendência com estes povos; como então meus ritos poderiam funcionar, tendo uma distância tão grande do “contexto original”? Esotericamente falando, o reconstrucionismo seria um processo de busca pela “Tradição” que acessará o Aeon do “paganismo germânico”. Enquanto isso, uma Remanifestação ocorre e ações condizentes com nossa época e local (por exemplo, rituais sazonais que observem as estações do hemisfério sul e da região em que nos encontramos) começam a tecer uma nova “tradição” em seu aspecto exotérico. É também assim que uma dissidência de um grupo religioso ou ordem iniciática pode continuar trabalhando dentro das mesmas energias, forças e entidades mesmo que adotem novas ritualísticas e ideias filosóficas – por mais que a “tradição” tenha sido rompida, a “Tradição” continua firmada no mesmo Aeon.

Por isso que é tão importante procurarmos algum tipo de corrente que nos identificamos (mesmo que apenas como referencial e influências), e que um “caote” soa tão superficial e desorientado inclusive em suas práticas e resultados para um “magista tradicional”. Se temos a potência da Remanifestação de uma Vontade macrocósmica reforçando a nossa Vontade individual, temos uma possibilidade muito maior de uma concretização satisfatória. As Tradições são vias pavimentadas, por onde os Mistérios estão traduzidos em linguagem e nos conectam com rapidez aos Aeons. Os métodos convencionais devem sempre ser questionados e dissecados, mas quando visamos encontrar os porquês e entender o essencial destes atos e gestos adquirimos uma liberdade e segurança muito maior com nossas práticas pessoais e para compor algo novo. A Tradição não está nas formas, na morfologia, em mimetizar aquilo que outra pessoa fez “sempre assim”; mas em investigar e vivenciar o âmago de um ritual, de um conceito filosófico, e assim fazer deles parte de nós como foram de muitos antes que visaram a mesma via.

Vão além das aparências e linguagens e procurem aquilo que não pode ser nomeado. Encontrem as Tradições atemporais e permitam que se Remanifestem em novas e inesperadas formas, conforme a natureza daquilo que canta fora da Realidade. Os Mistérios de Aeons adormecidos ou ainda apenas sonhados esperam para serem concretizados!

-Ravn

 

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