Demônios imaginados: 1010011010@etlgr.com

Seu nome e sua barganha_

Você recebe um guardanapo de uma pessoa desconhecida. Ela não fala nada, talvez nem faça contato visual. Ela só deixa um guardanapo com algum tipo de anotação nele. Não é um número de telefone.

Por algum motivo, você não consegue deixar para lá. Ou a pessoa era bonita, ou o evento onde você está é chato. Você procura outras marcas no guardanapo. Uma mancha de batom ou de shoyu ou dedos que se limparam ali. Mas não há nada. É um guardanapo perfeitamente novo exceto pelo desenho e pelas letras. Ou parecem ser letras.

Aquele “C” parece ser um “arroba”, e você tenta descobrir o resto. Um username do Twitter, um endereço de e-mail? Seu amiga tenta deixar o copo sobre esse seu guardanapo. Você se irrita. Ela não entende o motivo. Você vai embora.

Obviamente não é japonês, mas quem fez o desenho tentou fazer se passar por um ideograma. Talvez fosse algum tipo de sigilo mágico. Mas nada que você já tenha visto antes. São letras ou são números.

io voo j …

Não. Não é nada disso.

10 v00 … 10 100, raiz de i?

A segunda parte é @etlgr.com, não há dúvidas. Talvez você devesse mandar uma mensagem para todas as variações de i0100jioio ou 10vOO1IOIO ou 10100jioio …

Você passa a noite testando. Metade retorna “endereço não existente” a outra metade não retorna. Seria uma palavra? O desenho significa alguma coisa? Casa de árvore, edifício, elemental, servidor@etlgr.com, ionização, Gauss, Boltzmann@… Não tem nada a ver. Você desiste.

Você esquece durante o dia, mas vai ao mesmo lugar da noite anterior à procura de alguma pista. Talvez fosse aquele cara de preto que largou o guardanapo. Ou foi aquela mulher de vermelho.

Seu celular toca uma notificação de e-mail. Estranho, porque você não deixa as notificações de e-mail ligadas. O email vem em resposta ao que você enviou para 1010011010@etlgr.com . Ele diz:

Seu nome e sua barganha_

Você acha estranho. Mas uma resposta é uma resposta. Então, você retorna a mensagem com “Quem é você?” A resposta vem em seguida:

Sou você no futuro. Seu Anjo Guardião. Trago o que você precisa pelo preço certo. Envie-me seu nome e sua barganha_

“Ok”, você pensa. Você escreve seu nome e pede $20 em troca de prestar reverência a esse “anjo”. Claro que você estranha, você não é idiota. Por que eu preciso enviar meu nome, se ele é “eu” no futuro?, você pensa. Ele, eu, deveria saber meu nome… Você espera alguns minutos por algum tipo de sinal e esquece. Pega a si mesmo pensando nisso apenas algumas horas depois. Não pode ser verdade, você conclui. Mas e se for verdade? Não seria melhor você cumprir sua parte no trato antes de receber o pagamento? Você prometeu coisa pouca, afinal.

Então você se ajoelha e diz: “ó sagrado anjo, eu te reverencio”. Nada parece acontecer, mas ao se levantar, encontra uma nota de $20 reais debaixo de um móvel. Ela já era sua, você a deixou cair alguns dias atrás. Será? Deve ser isso mesmo.

Agora você está curioso. O que mais isso pode fazer?, você se pergunta. Não é uma pergunta retórica. Seu interesse só aumenta. Você pensa em ganhar mais dinheiro, arrumar sexo, mudar de vida, mas ainda não acredita. Não de verdade. Quem sabe aquele cachorro? Aquele que fica latindo no vizinho o dia todo? Sim, ótima ideia.

_quero que o cachorro aqui do lado pare de latir. para sempre.

Mas o que oferecer?

_ofereço minha lealdade.

Ok. Deve ser suficiente. Você se decide, envia a mensagem e espera o cachorro parar de latir. Um carteiro se aproxima, isso só irrita mais ainda o cão. Os latidos parecem agora aumentar. O bicho ficou mais bravo, será que pressentiu algo? Pela janela, nenhum sinal de ameaça. O cão está fazendo isso de birra. Ele quer mesmo irritar todos no quarteirão.

_ofereço também uma gota do meu sangue.

Você não pensou direito antes de escrever, mas escreveu mesmo assim. Vale a pena qualquer coisa para se livrar do animal. Você tem uma lapiseira de ponta fina. Vai servir. Você segura o dedo indicador entre o polegar e o média. Faz força. Não sabe de quanta força precisa ou se vai doer muito. Aperta mesmo assim. Aperta mais. A pede do dedo é mais dura do que você imaginava. Está calejada. Você mexe a ponta da lapiseira para cima e para baixo tentando rasgar a pele mais do que furar. Pronto!

Doeu menos do que você imaginava.

Onde pingar o sangue? Você abre a janela que dá vistas para o pátio do vizinho. A besta está lá, atirada feito um rei. Ainda assim, rosna. Descansando sob o sol, rosna sem parar. Está exausto, mas não desiste. Morre, desgraça. Duas míseras gotas caem do seu dedo até o chão pelo lado de fora da janela.

Você ainda fica meia hora na janela esperando à espera da morte da praga. Mas ele fica lá, te desafia a matá-lo com as próprias mãos. Late, rosna, deitado no gramado. Quando você acha que acabou, ele se levanta quieto e deita sob alguma árvore. Agora late na sombra. Acho que não era verdade, afinal.

Então, são duas da tarde de um sábado. Você está morgando na cama quando ouve gritos vindos da rua. É a vizinha:

 — Theo? Não. Meu deus, Theo!

Demora alguns instantes para você se dar conta de que o cachorro tinha um nome. Sua vizinha está no meio da rua, debruçada sobre o corpo do animal, enquanto pede socorro. Você sabe que não há volta. Sabe também que, embora irritantes, os gritos e o choro irão parar, assim como parou o latido do cão maldito.

À noite, sua mãe invade seu quarto e diz que haverá um funeral para Theo na manhã seguinte.

 — Mas era só um cachorro — você retruca.

Ela insiste que todos se gostavam dele, especialmente as crianças.

 — Está sendo muito difícil para as crianças, nós vamos ao funeral, certo?

Você quer dizer que claro que não, mas ela não escuta. Como sempre, não escuta. Diz que é por isso que ninguém conversa com você. Diz que ela sempre tem de limpar sua barra com as amigas. E finalmente:

 — Você deveria ser mais sociável, meu amor.

Quem ela pensa que é? Falando assim com você. Se ela soubesse. Se ela soubesse. Talvez você devesse mostrar a ela com quem está falando. Talvez você devesse mostrar a ela quem manda nessa casa.

 — Eu não vou e pronto, caralho! — você grita através da porta fechada.

_quero que minha mãe sofra_

O que você escreveu? Pense bem.

Foda-se.

_ofereço, com um pacto de sangue, minha vida em homenagem a 1010011010.

Você não sabe o que escreveu, mas com certeza é mais dramático do que “uma gota de sangue”. Mas a faca na sua mão parece doer muito mais do que uma ponta de lapiseira. Se você tem certeza, termine. Vamos.

Vamos.

O quê está esperando?

Calma.

Não é hora para ter calma. É hora para agir. Mostrar quem você é. Mostrar a ela quem você realmente é.

Não.

Ela não pode mandar assim em você, como se você fosse uma criança. Não adianta socar os móveis. Isso é só birra. É o que ela quer que você faça. Controle-se. Chega. Vamos. Controle-se. Você só vai machucar suas mãos fazendo isso. A porta, os quadros. Nada disso tem culpa. Foque essa raiva nela, foque a raiva na sua mãe. Ela precisa aprender.

 — Não! Meu deus.

Você não consegue ver, mas é sua mãe gritando. Você acertou o vidro da janela. Agora há um pedaço dele no seu braço. Você está perdendo sangue. Sua pressão caiu. Era uma artéria importante. Sua mãe está ligando para uma ambulância agora. A ambulância não vai chegar a tempo. Não se preocupe.

Faremos sua mãe sofrer.

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