Demônios imaginados: O Olho.app

Ani não se lembrava de ter instalado o aplicativo. O ícone se parecia com um olho ressecado, fechado, avermelhado, rasgado de vasos sanguíneos. A imagem a incomodava, mas não deu bola. Ficou ali perdido entre o iFood e o Pokémon Go. Como nunca o usasse, até tentou desinstalar. Deu erro.

Começou com uma mensagem estranha, a primeira de muitas:

ME AJUDA o celular havia aberto um chat no Tindr.
Tá tudo bem com você? Um carinha aleatório respondeu.
ops acho que minha bunda digitou sem eu querer
tua bunda quer falar cmg então?

Ani não respondeu. Em seguida, as mensagens foram para suas amigas. Colegas de faculdade. Conhecidas, na verdade.

Ani tá tudo bem contigo? Vou chamar a polícia. Onde tu tá? A colega parecia preocupada de verdade. Duas chamadas não atendidas. Uma ligação para a mãe.

“Alô. Não é nada. Meu celular tá doido. Ignora. Eu to bem. Claro. Vou ligar pra mãe. Para de fazer fiasco por nada.”

Depois, as mensagens começaram a tomar vida própria.

ME AJUDA
o que houve Ani!??
desculpa foi sem querer

Dessa vez, Ani não lembrava de ter escrito nenhum dos pedidos de ajuda, nem as desculpas.

Foi então que Ani encontrou uma foto dela mesma. Dormindo. Não lembrava de ter tirado. Morava sozinha. Ou alguém a fotografara em alguma festa bêbada. Ou era uma visita fazendo graça. Na foto, ela estava de olhos fechados e mesmo assim parecia brava. Dias depois, encontrou uma foto dela mesma comendo sozinha numa mesa do McDonalds. Não lembrava de ter ido à lancheria com alguém. Não saía com ninguém.

Ani tentou desinstalar o aplicativo mais uma vez. Erro. O ícone parecia um olho vermelho meio aberto. Ani jogou o celular fora. Finalmente, as visões apareceram de verdade.

Primeiro, na parada de ônibus, ao lado da placa que indicava o T4. Um olho vermelho meio aberto a espiava. Um olho de réptil primitivo. Ani tentou ignorá-lo. Se quisesse vigiá-la, problema dele. Tinha nada de especial para ver por ali. Viu também o olho ao lado do porta do restaurante universitário. E, na frente de casa, em um poste de luz.

Ani e o olho mantiveram uma relação silenciosa. Ani tomava café e o olho aparecia para ela sobre o microondas. No fundo da geladeira, o olho cuidava quando ela buscava um suco ou o leite. Durante as aulas, o olho se escondia debaixo da carteira. Ani cruzava as pernas, mantinha os joelhos encostados, evitava usar saia. Num dia de chuva, o olho se pôs sobre a cabeça de Ani. Ela sentia todos os seus pensamentos sendo levados. Uma coisa era vigiar seus passos, outra era querer saber o que passava em sua mente, seus desejos, seus gostos. Correu para casa, encharcou-se, entrou pela porta jogando mochila, cadernos e roupas sobre os móveis.

 — Chega! Vai embora! Me deixa!

O olho parecia não se intimidar. Enrubescido, inchou. Cresceu até ocupar o espaço entre a porta e o sofá. Sua pupila brilhou amarela, iluminando a sala. Ani se esquivou até a cozinha, voltou com uma faca. Cravou a faca no olho, que vazou líquido transparente por todo o pequeno apartamento. Ani passou três dias enxugando o apartamento.

A falta do olho não lhe incomodava. Subiu no ônibus para a faculdade em silêncio e pode ouvir as conversas das outras pessoas sem se preocupar em alguém julgando seus pensamentos enquanto ela mesma julgava as opiniões alheias. Assistiu as aulas de pernas abertas. Caminhou para casa, a chuva lhe molhou os cabelos sem proteção. A cada vez que pensava no olho, respirava fundo e aproveitava a sensação de alívio que atravessava seu corpo.

Numa noite, enquanto assistia despreocupada uma reprise de Law&Order, um brilho vermelho chamou a atenção. Não estava em seu quarto, mas vinha do outro lado da rua. Em uma janela do sétimo andar, um olho vermelho distraidamente procurava alguém para bisbilhotar.

Ani abriu a própria janela, despiu-se da camiseta de pijama e da calcinha e gritou:

 — Ei, aqui! — balançando os quadris para o olho vermelho do outro lado da rua.

Na manhã seguinte, Ani recebeu uma foto dela mesma sentada na cama. Parecia desperta, mas não se lembrava de tê-la tirado. Na foto, ela sorria.

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